Filhos da Pauta

O prédio abandonado. Por nós também.

O prédio abandonado. Por nós também.

A mídia fluminense noticia com fervor a situação da Aldeia Maracanã, desde a mobilização em defesa dos índios à expectativa por uma ordem judicial de despejo. O pano de fundo, para assumir contornos dramáticos, a Copa do Mundo, é encarnada pelas obras do estádio Mário Filho.

Se perguntado, direi que é justa a luta. A demolição do prédio que, segundo os historiadores, tem valor histórico torna-se um desrespeito pela memória da cidade. Mas, na verdade, não é esse o foco desta transversão.

Lutamos lutas inglórias. Perdidas. Sim, não tenham dúvidas que o Judiciário concederá as devidas decisões e o Governo do Estado removerá índios e prédios. Não seremos somente derrotados. Nós temos parte da responsabilidade.

A cada semana topamos com assuntos novos pelos quais devemos nos mobilizar. Há o crescimento de uma juventude empolgada, com garra para ir às ruas – ainda que bata ponto de maneira mais frequente nas redes sociais. O problema mora sem aluguel nesta ausência de estratégia. O xis da questão. Brigamos no varejo. Tomamos os caminhos que surgem, sem saber exatamente para onde devemos ir.

Vejamos o prédio do antigo museu, por exemplo. Desde 1978 abandonado. Às moscas. Quantas vezes nos mobilizamos para que algo fosse feito? Será que nesse tempo todo não tivemos espaço na agenda para encaixar o tombamento do prédio? Agora, quase em ruínas, quando a mídia noticia sua demolição, subitamente, aquele espaço tornou-se importante.

E os índios? Há seis anos no local, sem o menor apoio ou condição. Quais as nossas ações em prol de sua luta? Quais as nossas propostas para as comunidades indígenas deslocadas de seus locais de origem? Lembramos da importância deles quando o Governo quis retirá-los por conta da Copa.

Estamos nos tornando “oportunistas” (sei que é forte a palavra, mas outras cismaram de fugir de mim. Condescendência, por favor). Batemos na Copa e no Governo. Queremos os fatos políticos. Preocupamo-nos com o que está no limiar do acontecer. Esquecemos o devir. Esquecemo-nos de construir o futuro de luta. Quantos outros prédios históricos estão abandonados, inclusive por nós? Quantas comunidades indígenas, quilombolas ou representativas de minorias estão à sua própria sorte?

Aguardamos as próximas pérfidas ações dos governantes para nos mobilizar. Mesmo que o projeto de reforma dos estádios (e muitos outros) já sejam conhecidos por nós, aguardaremos o momento final para mobilizar.

Houve tempo em que tínhamos uma agenda de luta. A mídia indica as cenas dos próximos capítulos e corremos para lá, no apagar das luzes. Lemos a pauta alheia. Somos pautados. É a luta na pauta de um bando de filhos da outra.

Anúncios
Categorias: Política, Sociedade | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: