Carnavalia

“Bela época quando o poeta floresceu/ Ó meu Rio então cantando amanheceu/ Num fim de semana em Paquetá/ Ouvi Carinhoso/ Amei ao luar”

Já vai longe o tempo em que os pés valiam mais do que os efeitos especiais, que a comunidade não se restringia a uma ala e ao trabalho dos bastidores, que a rainha da bateria trazia consigo o ritmo marcado nos passos e no peito e a profunda reverência pela escola.

A transformação da cultura em mercadoria dificulta a sobrevivência da poesia.  São quase 3000 componentes pagando caro pela fantasia e não é possível a todos passarem pela avenida a tempo, se a cadência não for acelerada, ó pátria amada , salve, salve…

Pois é, confesso… O samba de autódromo me angustia, me desfaz em zil pedaços, o samba-frankstein que congrega tantos compositores quanto estrelas no céu, embolando letras e ritmos, instaura um non-sense batucado e me fere o âmago, me expõe a passagem irremediável do tempo das pastorinhas para o das cachorrinhas, das colombinas para o das anabolinas.

As câmeras da TV insistem na busca dos famosos que talvez nesse dia gostassem de ser anônimos e incutem glamour em meia dúzia de falsas estrelas, pretensos dançarinos-atrizes- atores-modelos da pornochanchada moderna dos reality shows.

Enquanto isso, barões famintos, napoleões retintos e pigmeus do boulevard são esquecidos sordidamente nessa e em outras épocas e o carnaval, antes subversivo, crítico e transverso, vira braço da LIESA e máquina política de arrecadar réis e votos de devotos, alguns nem tão espertos, todos cúmplices profanadores das festas de Momo.

Image

Anúncios
Categorias: Cultura, Sociedade | Tags: , | 2 Comentários

Navegação de Posts

2 opiniões sobre “Carnavalia

  1. Já fui muito ao sambódromo quando os cidadãos comuns podiam andar entre os componentes das escolas, ali na concentração, era um lugar especial, sentia arrepio ao ver o povão sambar e cantar o samba. Ao lado tinha o terreirão (o original) e não precisava pagar para entrar, parecia a feira de São Cristóvão, só que na versão do samba. Hoje não tem mais aquilo, você paga tudo, paga caro e fica nos piores lugares, pois os melhores são ocupados por camarotes e quiosques que surgem cada vez mais e maiores (onde arrumam espaço?). O bom do carnaval hoje está no ensaio técnico com a comunidade presente e sem a presença dos “pretensos dançarinos-atrizes- atores-modelos da pornochanchada moderna dos reality shows.” Tem também os blocos menos conhecidos(esses são muito bons) ou ainda o bloco do seu amigo, afinal todo mundo tem um amigo dono de um bloco….rsrsrsrs…beijo Aline Silva, belo texto.

    • Aline Silva

      Estamos em busca dos blocos menos conhecidos, Léo. Estamos em busca desse nostálgico carnaval de verdade. Obrigada pelo carinho de sempre.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: