A galeria agora é outra, João Grilo!

Carnaval em Madureira, 1924 - Tarsila do Amaral

Carnaval em Madureira, 1924
Tarsila do Amaral

Enquanto meus companheiros blogueiros dão giros de 360º ao redor dos mundos, contemplando todos os continentes e mais um pouco, tratando inclusive de questões internacionais que atravessam aeroportos nacionais em forma de contestação made in USA, eu, humildemente, me confesso ainda curando ressacas intelectuais do carnaval. É isso aí! E viva nossa diversidade transversa!

Depois de ter-me debruçado sobre a galeria de fotos dos blocos de domingo no jornal O Globo, publicada no dia 11/02, tive a certeza de que o Brasil é o país das louras. E de cabelos longos e lisos. Indignada, só conseguia me recordar das diversas andanças da véspera pela Lapa, Praça XV, Tiradentes e da diversidade de cores e gestos e peles com que me deparei pelo caminho. Ora, bolas! Cadê o povo naquelas fotos que mais pareciam – e lá vou eu, (de novo!) pela imensidão do mar – uma pré-seleção para reality shows? Humpf! Caramba!

Era preciso fazer a denúncia dessa desapropriação cultural. Era preciso destacar que as remoções travestidas de política habitacional, que empurram os pobres majoritariamente negros para a periferia, também têm ramificado suas garras ideológicas para o desalojamento imaterial.

Negros e negras, mulatos e mulatas, todos os que nos lembram nossas matrizes africanas foram sumariamente expurgados na edição. Samba e carnaval viraram coisa de branco, 100% branco. E, antes que alguém me acuse de preconceito, gostaria de esclarecer que nada tenho contra as louras, ainda menos contra os louros. Mas repudio o uso que se faz da imagem deles, numa tentativa de homogeneizar as etnias, neutralizar questões raciais e sociais que precisam ser debatidas amplamente em busca de ações afirmativas.

À noite, discutia com amigos essa colonização via Loreal, Garnier, Wella e já pensava no que escrever. Pois bem… E qual não foi minha surpresa ao constatar já na terça-feira que alteraram todas as fotos daquela galeria, exceto a da vista aérea do Simpatia é Quase Amor! Até chequei inúmeras vezes se não estava eu a me confundir com a data. Não, não estava! Seria uma luz no fim do túnel? Algum profissional sensato detonou a autocrítica nos bastidores do jornal?

No alto dos carros de som, músicos de todas as raças pareciam conclamar à confraternização os convivas igualmente multiétnicos que lotavam as ruas do Rio: um carnaval de cores e gestos e peles, exatamente como aquele que presenciei nos dias de folia.

A outra galeria – a dos blocos infantis – tão pálida quanto uma heroína romântica também tomou o chá dos louros e refez-se integrada à primeira, que já não pertence às crianças nem aos adultos, mas a todos os que agora devidamente retratados ocupam o lugar que lhes cabe nos festejos de Momo.

Desconheço o que verdadeiramente houve para motivar tais mudanças e só posso afirmar que não sei, só sei que foi assim…

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