Acabou a viadagem

A viadagem, em questão no título, é a minha própria. E sobre ela, autocriticamente discorrer hei aqui. Primeiro, cumprimentos aos parceiros Walace, Moacir e Aline e aos leitores que têm acompanhado/ apoiado o Tranversos. A ideia básica é fazer disso aqui um espaço em que se possa discutir vários temas, para além do senso comum, mesmo aquele que, em princípio, soa crítico. Aliás, os “sensos comuns críticos” são talvez os mais duros de se contrapor. Senão vejamos, eu quero chamar de viadagem a minha ausência no blogue. E, efetivamente, não faço isso em qualquer referência pejorativa a homossexuais do sexo masculino, vulgos, viados, nem tampouco aos veados.

Mas, pera lá, que não tô aqui, em minha estreia, passando batido por temas mais candentes e me dedicando a essa questão por mera viadagem. Não, não… não quero judiar de quem tenha qualquer condição de relacionamento sexual que seja, tampouco denegri-los. Quero, outrossim, pensar o quanto nossos pudores, quanto mais em tempo politicamente corretos e dissimulados, expõem, tão transversalmente, nossos valores.

Ora, enfezado, era o escravo do Rio de Janeiro antigo que recolhia excrementos. O enfezado! Faz sentido, né? E coitado é difícil adivinhar donde vem? Se formos continuar por aí, os exemplos são tantos. Dinamismos da linguagem. Felizmente.

Agora, o que vejo ser feito com o adjetivo negro e seus congêneres semânticos é de doer. Mercado negro, a mais negra miséria… Há já quem pense que o gato preto e o lado escuro/negro da Força são todos eles depreciações de fundamentação, pasmen, racista. Pelamordideus! Óbvio que nem é necessário dizer que negro, escuro, escuridão são concepções decodifcadas, ancestralmente pela humanidade como indicadoras de perigo, de negatividade, como é expresso em linguagem em vários idiomas e culturas, tanto nas línguas, como em símbolos, alegorias, etc. Basta pensar na associação que há, recorrentemente, em tantos mitos entre esses dois campos, o da escuridão e o da negatividade. Falando especulativa e precipitadamente, poderíamos pensar que o azar (que diferentemente de saudade, ao que tudo indica só há em português, mas melhor não explicar mais, pois não é bom falar em azar, embora seja positivo azarar; ora vejam só…) dos povos africanos escravizados foi serem (ou melhor, assim serem taxados) negros. Pois é, ainda que isso possa ter contribuído com um monte de vexaminosas justificativas à escravidão, os indígenas do nosso continente não tiveram melhor sorte (que aqui não é o contrário de azar). E os marcianos, com sua cútis verdejante não tão dando perdido no Curiosity à toa não.

Mas aonde se pretende chegar com toda essa viadagem terminológico-filosófica? Queria chegar no afro, no bom sentido! Mas, sem preconceitos nem aqui nem acolá! Preciso dum parêntese, figurativo, claro. Sempre trago a discussão/reflexão sobre Lusofonia pra minha sala de aula. Sou tarado no tema! Ops! Certa feita, fui parabenizado por uma coordenadora por estar levando os alunos à reflexão sobre a literatura de origem negra, em conformidade com as Diretrizes Curriculares Nacionais que pressupõem (ou impõem?) o estudo da cultura afrodescendente brasileira. Mas, está claro que boa parte dos escritores africanos são branquíssimos? Quando mostrei a ela uma imagem do Mia Couto, ela ficou verdadeiramente confusa. Eis o ponto. Mesmo onde há boa intenção e sentido de luta social e humana, o que há de reforçador de racismo na identidade, amplamente difundida, entre os termos negro e afro? Ora, a ideia da sinonímia entre África e negritude é realmente boa? Uma parcela não desconsiderável da África não é negra (e um africano branco ou doutra coloração qualquer não é menos africano, certo?) e, na outra ponta, a população negra tá no mundo (longe de estar confinada num continente). Aliás, a África é o berço da humanidade, certo? E olha que nem falei dos aborígenes australianos e neozelandeses, devastados pelos bons britânicos (colonizadores muito melhores!) que também são negros naquelas terras isoladas biologicamente, de espécies exoticíssimas. Ora, acho que é, bem por baixo (anões me mordam!), ao menos, uma questão pra se refletir. Gosto muito de estudar com meus alunos, em especial, a lusofonia africana, que é negra, mas também é transversalmente um caldeirão doutras tantas questões humanas.

Enfim, o veado não é originário da África também? Aliás, o Aurélio não registra a forma viado. Ah, de boa viadagem é aquilo que, em minha opinião, abunda nas relações heterossexuais. As relações gays têm um nível de viadagem bem menor, até porque o sentido de reclusão social forçada, não dá espaço a viadagens. Ei, peraí. Tô transversando.

veadinhos

Anúncios
Categorias: Reflexões | Tags: , , , | 4 Comentários

Navegação de Posts

4 opiniões sobre “Acabou a viadagem

  1. Rodrigo

    Adorei!

  2. Viug

    Muito bom!

  3. Pingback: Não chuta, que é macumba! | transversos

  4. Pingback: Inaceitável é professor ficar sem salário! (Sem Explicações! Sem Vergonha! Cem textos!) | transversos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: