Quem tem Deus não precisa de corrupção*

fora renan

E não cessam in terra brasilis as inclementes e ávidas manifestações pela renúncia da famigerada figura de Renan Calheiros. No feice, exempli gratia (vulgo e.g., em idioma vernáculo, “por exemplo”) não paro de ver manifestações, ora bem-humoradas, ora virulentas sobre isso. Renan encarna hoje a persona non grata da sociedade brasileira de consciência feicebuquiana e alhures. É uma espécie de Anti-Joaquim Barbosa, glorificado e endeusado bastião da moralidade e do resgate do espírito sensato-honesto-justiceiro brasileiro, garoto preferido de “Veja”. Hoje, noutro artigo (“My God”), falara de heróis. Eis que Renan é o antagonista dessa figura heroica, seja o Joaquim (O que ele anda fazendo mesmo, hein?! Ah, desculpem! Ele é do poder judiciário, aquele que não presta contas à população mesmo…) ou qualquer outra. Hoje, Renan é uma figura mais vilanesca do que Lex Luthor, Odete Roitman ou Demian− pra tratar de poucas referências malévolas.

Ora, pois, pois… tenho uma confissão a vos fazer! De minha parte, fico boladíssimo pra cacete à beça demais cabreiraço com a luta contra a corrupção! Acho, na verdade, que é uma fria lutar contra a corrupção, não porque envolva perigos ou agruras, mas porque é equivocado, de todo! Não, não… Renan não é um bom moço. Óbvio ululantissimamente falando. Ao mesmo tempo, deixemos o pobre diabo alagoano de lado nessa prosa aqui, ao menos um pouco. Pelamordideus! Essa onda moralizante que vai se espraiando no país me deixa de cabelo em pé (o que só pode ter sentido metafórico. Quem me conhece entende!)! Mais assustador é pensar que parte apreciável da esquerda embarca nessa tomada de assalto por um certo senso de oportunidade. Isso tudo me lembra das vassourinhas do Jânio: medo!

Lutar contra a corrupção é lutar contra o calor chupando gelo (desculpem a pobreza da imagem…)! Não existe capitalismo sem corrupção! Como se mantém um sistema tão cruel e calhorda em que, secamente falando, matam-se uns tantos pelo luxo duns poucos sem corrupção?! A corrupção é o cala boca, o deixa estar, a vista grossa que faz essa sociedade seguir adiante. A corrupção cumpre, dentro desse sistema, um papel de agente anti-ideologizante e, por isso mesmo, papel centralmente ideológico.

Lutar contra a corrupção (como se ela fosse a questão em si) é, portanto, pauta despolitizada. Hoje, no Brasil e no mundo, a luta anticorrupção ocupa o mesmo espaço, no imaginário de boa parte da população, dos discursos de que “político não presta”, “maldita obrigação de votar” e congêneres. Pauta despolitizada e de direita!

A questão é tão do campo da moral convencionada que temos toda uma série de práticas que não são tidas como corrupção. O que são as aprovações de orçamentos de governo senão um jogo de troca de favores pautado pela mesma lógica do que práticas tidas como corruptas (lembrem-se de que verbas pra emendas são moeda de troca nesse jogo)? Ora, os pastores das igrejas evangélicas neopentecostais fazem o quê? Com certeza, segundo nossos valores convencionais não será corrupção… E as pequenas e sorrateiras corrupções do dia a dia, desde aquelas tão inocentes e pueris já identificadas por Machado em seu brilhante “Conto de escola”?

Renan, o Calheiros, é uma peça, uma desprezível peça duma máquina que deveria ser desmontada e golpeada a cada dia. A corrupção não é exclusiva do capitalismo (o Império Romano que o diga!), mas é maximizada nele. Na Idade Média, sociedade estamental por excelência, comandada pelo conluio entre a Toda Poderosa Igreja Católica Apostólica Romana e os seres agraciados por Deus, seus monarcas, não havia nenhum grande motivo pra proliferação da corrupção. Afinal, quem tem Deus não precisa de corrupção, certo?

A corrupção é o meio, não o fim. Ajustemos nossa pontaria!

* o título corresponde a uma citação do genial, amigo, companheiro, camarada e parceiro deste blogue aqui, o Walace Cestari.

idade media

Anúncios
Categorias: Política, Sociedade | Tags: , , | 7 Comentários

Navegação de Posts

7 opiniões sobre “Quem tem Deus não precisa de corrupção*

  1. Leopoldo

    Texto muito bom, cara!

  2. Pingback: Do vandalismo politicamente correto: atos (h)ordeiros | transversos

  3. Pingback: Desrefrigerâncias infringentemente beligerantes | transversos

  4. Pingback: A real res pública brasileira | transversos

  5. Pingback: Dilma não merece meu voto! | transversos

  6. Pingback: Apertem os cintos, o governo sumiu… | transversos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: