Saudades de quando os olhos se moviam rapidamente*

Acordes pungentes oscilam no ar, fazem-se plenos, enquanto redijo este texto aqui em Transversos. Hoje, não publico os poemas do Desengavetando, que volta semana que vem, mas esta modalidade que considero da mesma safra, por exemplo, da análise cinematográfica feita no texto Sexo, mentiras e google maps há duas semanas.

Era o ano de 1980 na pequena cidade de Athens (não na Grécia), mas no estado norte-americano da Georgia. Cidadezinha de uns 100 mil habitantes, berço também do B52’s, uma meca, nos anos 80, do College Rock− vertente muito produtiva, até hoje, na cena do yankee rock. Em suas garagens e bares, surgia uma despretensiosa banda que inscreveria sua marca autenticamente na história do estilo inaugurado com .

Rapid Eyes Moviment (Movimento rápido dos olhos), nome de um estágio do sono de intensa atividade cerebral marcada pela velocidade com que os olhos se movem de lado a lado. Com a sigla R.E.M., nascia uma banda cheia de boas surpresas, para nos conduzir em seguro transe por narrativas e reflexões melodiosas ou rasgantes.

Formada por Mike Mills, no baixo, Peter Buck, na guitarra, Bill Berry (até 1997), na bateria e pelo performático Michael Stipe, no vocal, a banda é corriqueiramente apontada como de roque alternativo, embora essa denominação não signifique muito, mas indique uma marca peculiar dos rapazes de Athens: mesmo quando alcançaram os holofotes do mainstream, não deixaram de ser uma banda com trejeitos de garagem que, claro, aumentou extraordinariamente seu público, mas manteve traços musicais singulares que atravessam toda a sua carreira. Ora, quem ouve Überlin, do álbum Collapse into now, de 2011, vai identificar aí uma canção que poderia perfeitamente estar em Murmur, de 1983, álbum de estreia. Uma grande regularidade nas composições, mas com evoluções, claro, de que falarei adiante.

Foram 15 álbuns em 28 anos de carreira. Os quatro primeiros já foram de tão difícil aquisição aqui no Brasil… [Ah… agora os acordes de Find the river, de Automatic for the people, álbum de 1992 que consta no Hall da Fama do Rock’n Roll, como um dos 200 álbuns definitivos, maior lançamento da banda pela Warner]. Feita essa digressão… Murmur (1983), Reckoning (1984), Fables of Reconstruction (1985) e Life’s rich pageant (1986), os tais quatro primeiros. Neles, há canções que, embora comumente pouco conhecidas do grande público, dizem muito sobre o REM: Begin the begin, Radio Free Europe, So. Central Rain, Pretty Persuation, Swan swan H, só pra dar pouquíssimos exemplos.

Porém, não bastasse isso, em 1987 viria o álbum até hoje considerado por muitos fãs e por considerável parte da crítica como o maior da banda: Document. Primoroso! É o ponto de amadurecimento irreversível com uma unicidade musical soberba. As letras e a sonoridade se enamoram num rodopio hipnotizante. É desse álbum o primeiro grande sucesso da banda nas rádios, The one I love e também a contagiante It’s the end of the world as we know it, com sua letra acidíssima. Além desses, há no álbum canções espetaculares, como Exhuming McCarthy ou Odd fellows local 151, dentre outras pérolas, num total de 11 canções.

Em 1988, vem Green, possivelmente o álbum mais fronteiriço entre o cenário alternativo e o sucesso estrondoso que viria impulsionado por Out of time (de 1991), sob os acordes de Losing my religion (um dos melhores clipes que já vi), capitaneando um boom sem precedentes na carreira da banda nas rádios, na MTV, em shows, turnês… Voltando a Green, vê-se aí um REM com uma musicalidade mais exaltada, guitarras mais em primeiro plano, bateria presente para além do compassar simplesmente, tudo já devidamente preconizado nalgumas canções do álbum Document. Destaco aqui a empolgante Orange Crush e World leader pretend, primeira canção da banda a ter letra publicada em encarte de álbum, bem exemplificativo do quanto o REM manteve durante anos uma postura avessa a certos procedimentos de popularização.

Out of time, após um recolhimento de três anos, é um divisor de águas na história da banda. Shine happy people música bem pouco prestigiada entre boa parte dos fãs, por ser muito avessa ao estilo tradicional da banda, com a conterrânea Kate Pierson (do B52’s), bem exemplifica o alcance desse álbum. Nada voltaria a ser como dantes. Eis que os holofotes não cegariam a banda em sua sobriedade e amadurecimento, como se vê em Automatic for the people, de 1992, álbum que apresenta uma diversidade melódica impactante na história da banda, com a pungente Everybody hurts, as líricas Nightswimming e Sweetness Follows, Man on the moon que bem exemplifica o som mais “arredondado” e “macio” da banda, a confessional Drive.

Em 1994, viria Monster, talvez menos característico da banda, com marcas difusas de sua própria sonoridade. Em 1996, New Adventures in Hi-Fi, com a antológica e grandiloquente Leave. Então, com a banda já plenamente consagrada e sem Bill Berry, que abandonou o grupo declarando-se desencantado e exausto pelo estrelato, ainda veríamos e ouviríamos o majoritária e, ironicamente deprimido Up, de 1998, de que destaco uma música fora dessa linha mais down, Lotus. Além dele, depois do trauma da saída de Berry ser aparentemente superado, Reveal, de 2001, Around the sun, de 2004, álbuns com teclados bem ativos, uma roupagem pop que revive o ar Shiny happy people em parte.

Accelerate, de 2008 e o já mencionado Collapse into now, de 2011 são epílogos não planejados da banda. Ótimos por sinal! No primeiro, vemos talvez as guitarras mais encorpadas da história da banda, bem como uma bateria possivelmente inédita na história dos rapazes da Georgia, como na pacifista e contundente Sing for the submarine. Já no último, revemos um estilo REM clássico convivendo com os instrumentos mais pronunciados.

Infelizmente, em setembro de 2011, pouco depois do lançamento do último álbum, a banda publica em sua página: “Aos nossos fãs e amigos: como R.E.M., e como grandes amigos e colaboradores, decidimos nos separar como banda. Nós nos despedimos com um grande sentimento de gratidão, completude e orgulho de tudo que conquistamos. A qualquer pessoa que se sentiu tocada pela nossa músicas, nossos maiores agradecimentos por ouvir”. Será que o efeito Berry e suas reflexões atingiram a banda uma década e meia depois? Talvez nunca se saiba.

O REM acabou por conseguir se equilibrar, dentro do possível, entre uma postura independente e o apelo comercial. Tornou-se uma espécie de Talking Heads mais acessível e menos intelectualoide. Michael Stipe, figura emblemática da banda, sagrou-se uma personalidade de grande engajamento em várias causas de tom humanitário e de constestação dum certo status quo (embora, cá entre nós, nunca tenha sido sequer um cara de esquerda, sempre flertando com uma “correção política”, de todo modo, avançada pro contexto deles) e criticidade, pros padrões médios norte-americanos (algo talvez um pouco mais tímido que um Michael Moore da vida), levando isso às letras da banda, ora mais crua, ora mais veladamente.

Os olhos não mais se movem, mas ainda há muito por (re)ouvir e (re)pensar… Estive em dois shows da banda in terra brasilis. Muita vitalidade no palco! Michael Stipe é um sujeito com quem eu cervejaria desprendidamente. Sem falar que ele é padrinho da filha do Kurt Cobain e amigo do Eddie Vadder (Pearl Jam). Quantas histórias…

Por fim, três surpreendentes vídeos adicionais do REM:

Begin the begin, com Eddie Vadder;

Have you ever seen the rain e

Let me in, homenagem a Kurt Cobain.

Que a leitura tenha sido boa e a audição idem!

*Agradecimentos carinhosos à Andrea de Oliveira, em parceria crescente, pelos hiperlinks.

REM 2

Anúncios
Categorias: Crítica, Cultura | Tags: , , , | 5 Comentários

Navegação de Posts

5 opiniões sobre “Saudades de quando os olhos se moviam rapidamente*

  1. Pois olha que , antes do elogio , eu já ia perguntar : não vai oferecer para a Andréia , não ? Risos…e eis que….risos….sinta- se já elogiado !

  2. hahahahaha… Poxa, mas, preciso ser agradecido às colaborações que recebo, não? 😛 ‘Brigado!

  3. andreabdeoliveira

    Como te disse, na prévia vip, adorei sua resenha musical e transversal! Vc surpreende sempre! 🙂 😉
    E sobre parcerias… Pode contar comigo! (Ah, vc já sabe disso! 😛 ) Bjs.

  4. Sim, eu sei bem que posso! Obrigado e que possa sempre surpreender! 😉
    Beijão!

  5. Pingback: Aumenta que isto aqui é roquenrol! | transversos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: