Miss Liberty em Vila Kennedy

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Miss Liberty na Barra

A Barra da Tijuca é o paraíso dos especuladores na Zona Oeste. Lá o dinheiro é a matriz em torno da qual gravitam todos os sentidos e desejos. Atualmente, o bairro é considerado um centro gastronômico e de entretenimento da capital. Também  pode ser caracterizado pelos amplos espaços verdes, belos jardins, diversos condomínios de alto luxo de casas e edifícios, grandes shoppings, grandes empresas de informática, comunicação e agências de publicidade, além de inúmeras multinacionais que cada vez mais estão caindo de paraquedas na mesquita do consumo.  

A Barra também possui condomínios autônomos, ou seja, organismos independentes com mini-shoppings, escolas, academias, igrejas e uma infraestrutura completa de lazer. Tudo para aplacar o tédio dos emergentes.  

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Miss Liberty em Vila Kennedy

Vila Kennedy, o sub-bairro não oficial de Bangu, também fica na Zona Oeste, porém diferente da Barra, arrasta-se com problemas de infraestrutura, saneamento básico, iluminação pública, transporte, saúde. além de ter que conviver com as noites dos longos fuzis.

Mas um totem une a pujança da Barra e o perrengue da Vila Kennedy: a Estátua da Liberdade.

A estátua da banda rica foi erguida em frente ao centro de entretenimento chamado New York City Center. Ambos ganharam o prêmio Mickey Mouse de Alienação e Subserviência pelo conjunto da obra.

Já o totem da banda pobre tem uma história de menos alienação e mais conspiração contra comunidades inteiras, vítimas da limpeza social patrocinada por Carlos Lacerda.

Lacerda foi apelidado de O Corvo porque tinha por gosto engajar-se em conspirações políticas e militares. Uniu-se aos generais para derrubar Getúlio Vargas. Depois, para evitar a posse de Juscelino, fez nova parceria com os milicos. Em 64 emprestou seu braço direito novamente para a quartelada contra Jango.

No seu governo do antigo Estado da Guanabara (1960-65), a poliçada criou uma perfeita solução para a população de rua: matava os mendigos e jogava no Rio da Guarda, afluente do Guandu.

Lacerda ignorava favelados e odiava comunistas. Esses, ele ajudou a entregar aos porões da ditadura; àqueles, deu banimento e uma estátua de presente. O Corvo pegou os dólares da Aliança para o Progresso e aplicou num dos maiores projetos de “higienização” da história da política de exclusão social do país. Esta Aliança era apenas um vagão da locomotiva anticomunista por meio da qual o Imperador John Kennedy molhava a mão dos governos da América Latina em troca de sorrisos e simpatias com o capitalismo. JK tinha receio de que a pipoca guerrilheira, por influência de Sierra Maestra, estourasse na AL.

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Vista parcial de Vila Kennedy

O Corvo da Conspiração juntou a patuleia do Morro do Pasmado (Botafogo), da Favela Maria Angu (Ramos), da Favela da Praia do Pinto (Lagoa), da Favela do Esqueleto (Maracanã) e baniu a escumalha lá pra Zona Oeste, na época ainda uma zona rural, cheia de mato, mato, mato…

A Favela do Esqueleto localizava-se na área onde hoje sonham com um futuro melhor os estudantes da UERJ, que talvez nunca tenham ouvido falar da tal favela, tampouco de um antigo morador do Esqueleto que tivesse frequentado os bancos universitários. Para limpar, talvez.

Para coroar o projeto de exílio rural dos favelados, Lacerda presenteou-lhes com uma réplica em menor escala da Estátua da Liberdade feita pelo francês Frédéric Auguste Bartholdi, o escultor da Statue of Liberty de Nova Iorque.

A estátua era de propriedade da família Paranhos, descendentes do Barão do Rio Branco. Em 1940 ela foi passada para o Estado da Guanabara. Em 20 de Janeiro de 1964, a estátua foi fincada na Praça Miami, na Vila Kennedy, e lá permanece para simbolizar a supressão da liberdade de um povo que não teve voz e vez.

A política de higienização repete-se com o tapume da “revitalização” para a Copa e as Olimpíadas. A especulação fundiária e imobiliária estão reproduzindo a desigualdade e a segregação socioespacial. Dos impactos das obras não há dúvida de que o mais grave são as remoções forçadas. Ainda precisaremos de mais réplicas de Miss Liberty?

 

 

 

 

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Categorias: Sociedade | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “Miss Liberty em Vila Kennedy

  1. Aydano Pimentel

    Ótimo texto, Moacir!

  2. Seja bem-vindo, amigo! Creio que eu poderia desenvolver um pouco mais o último parágrafo do texto. Há muito a se falar sobre a “revitalização” de certas áreas com o pretexto de grandes eventos. Removem-se os pobres para dar lugar aos edifícios caninos.
    Grande abraço.

  3. Amei ! Adorei ! Sem palavras !

    • Ana, você já faz parte da casa.
      Deixei de comentar um fato curioso sobre o exílio rural imposto por Lacerda. A remoção foi tão avacalhada que todas as casas do conjunto proletário da Vila Kennedy tinham a mesma fechadura. Uma morador poderia abrir qualquer porta do conjunto. Dizem que isso deu uma confusão danada. nhenhe

  4. Pingback: Meu nome é Legião, respondeu ele, porque somos muitos | transversos

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