Poeta convidado: a arte de Sérgio Baptista

sergio

Sérgio Baptista é professor de Sociologia na Faetec, doutorando na mesma área na UERJ, marxista, pai da lindinha Cecília e tem mantido há mais de duas décadas seus poemas reclusos, boa parte deles guardados apenas em sua memória. Portanto, publicá-los aqui é, além do deleite da leitura, importante registro.

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Ressaca

Depois da festa

Depois da folia

Depois do fogo

Depois da euforia

Depois farra

Depois alforria

O refluxo

O recesso

A ressaca

A autópsia da utopia

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Abstinência

Fiel o fel

A chama a chama

Não adianta

Ela não vai

Ela não dança

Não tem fogo

Ela não fuma

Não foge

Não fede

Não fode

Jejua

Flagela-se

Cala a boca

Mas não cala

A carne cálida

.

Olhar Brumário

Cedo à sede

Ascendo minhas asas de seda

Ascendo ao céu

Aceno aos patos de quintal

Alheio

Além

Alado

Alienado

Ao lado dos loucos

Mas é o voo da loucura

Que me cura do hospício

.

Ouro Preto

Meu corpo

Calejado pela vida que pedi a Deus

Mas que pela graça do Senhor

Só sente contemplado

Quando habito no templo

Suntuoso do diabo –

Permanece imóvel e plácido

Como tentáculos saciados

Por um desejo primevo e cálido

Sonho de Ícaro hereditário

E ao tomar conta de mim

O verdadeiro jubilo, o sagrado

Não preciso do anuncio vulgar dos lábios

E tão forte é Tua luz, Senhor

Que sob o sol, me sinto assombrado

E ao tomar o atalho

Senhor

Jamais pensei em encontra-Lo

E encontrei

O perdão no pecado

E no diabo, Teus braços

.

Cronos

O homem

Prisioneiro do tempo

No ventre da vida

O feto da morte

.

Estátua da Liberdade

Quando desatam a mordaça

A fome separa

Quando tiram as fardas

Dominam pela farça

E assim

A liberdade consagrada

Não passa

De uma estátua alada

Que ensaia o voo

Mas não alça

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Categorias: Verso & Prosa | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “Poeta convidado: a arte de Sérgio Baptista

  1. Sérgio, por favor, passe a escrever seus poemas. Parabéns!

    • sergio

      Eu escrevo. só não guardo em nenhum lugar… como são lapidados, enxugados dos adjetivos, menos OURO PRETO (influência dos tempos que eu era viciado em Herman Hesse), eu acabo guardando na cabeça. Não há registro em papel. Tem muito poema que não lembrei de mandar pro anderson.

  2. andreabdeoliveira

    Muito bom! Adorei! Verdade que ele não escreve, só memoriza? Impressionada! 😉

  3. sergio

    Eu escrevo. só não guardo em nenhum lugar… como são lapidados, enxugados dos adjetivos, menos OURO PRETO (influência dos tempos que eu era viciado em Herman Hesse), eu acabo guardando na cabeça. Não há registro em papel. Tem muito poema que não lembrei de mandar pro anderson.

  4. sergio

    anderson tenho mais poemas…

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