Meu nome é Legião, respondeu ele, porque somos muitos

Meu nome é… você sabe.

Enquanto reflito a multiplicidade de destaques da última semana, busco neles um ponto de convergência no olhar de quem atônita observa as nuances de uma mesma questão. Em postagem recente no facebook, falei sobre tolerância religiosa e fui tomada por alguns amigos leitores como a crédula que não sou. A réplica de uma pessoa querida que navega em outros mares para além do Atlântico foi tão sensacional que me comprometi a publicá-la. Sai – me parece – na próxima semana*.

Estimulo a curiosidade interlocutora para as próximas postagens do blog e volto ao mote que me trouxe a pensar nessas linhas. O que teriam em comum os assuntos a seguir: tragédia das chuvas em Petrópolis, novas declarações de Marco (In)Feliciano, escândalo nas redações do ENEM e trote racista e sexista na Faculdade de Direito da UFMG?

Com todo respeito aos avanços atingidos pelos últimos governos no que tange a algumas importantes questões nacionais como a política de inclusão social e a política de transparência no acesso às informações, fica a pergunta: por que, presidenta, culpar as vítimas pela própria miséria? O que seriam afinal as “tais medidas mais drásticas” para evitar que as pessoas fiquem onde não podem ficar? É como um analgésico: cuida-se do sintoma sem que a doença seja tratada. Isso mais uma vez faz lembrar a política excludente das remoções, já abordada no artigo Miss Liberty, de Moacir de Sousa. (https://transversos.wordpress.com/2013/03/18/miss-liberty-em-vila-kennedy/). Alguém pode se arriscar a perguntar: mas a vida não é o mais importante? Sim, a vida DIGNA é o mais importante e, numa hora dessas, o adjetivo não tem nada de adjunto.

Já a mais nova estopada infeliciana foi a declaração de que os direitos da mulher ferem os da família, que o lugar dela é em casa, sendo mãe e cuidadora da prole,  que a igualdade de gênero vai de encontro ao estabelecimento de uma sociedade ordeira. E que a prole seja de preferência numerosa, né? – adendo meu. E adepta da religião dele, na congregação dele de preferência. Haja dízimo! Haja ofertório! Só faltou dizer que mulher só precisa contar até seis. Nem vou dizer o porquê, pois se trata de uma piadinha machista infame. Defendo até meu último minuto de vida o direito que o Infeliciano tem de pensar e expressar isso. O problema mesmo é alguém como ele ocupar o lugar que ocupa na política e no cenário nacional. Eu era quase feliz quando nem sabia que ele existia. A última notícia que li ontem falava de uma possível renúncia. Será que tantas críticas entoadas por tantas pessoas, inclusive ateus, ganhou status de prece diante de – quem sabe? – deus?

E o ENEM, hein? Que vergonha! É realmente infame que profissionais se considerem especialistas em áreas diversas daquelas a que se dedicaram apenas para apresentar uma distorção dos fatos. E tome-lhe PIG nas cabeças! Acho importante discutir critérios de avaliação. O problema é que os jornais têm se arvorado esse direito, conduzindo as pessoas ao reforço da execração do ENEM, do MEC, do governo, da banca e, por extensão, dos professores (que, afinal, são esses os profissionais que compõem as bancas) sem sequer ter a devida atenção com as competências analisadas e os casos de atribuição de nota zero. Pergunto uma coisa: qual foi o jornal que divulgou a grade de correção? Qual foi? Não vi nenhum. Taquil! Destinam umas poucas linhas a alguma justificativa do MEC e em contrapartida 90% da matéria fica por conta das generalizações capazes de sensibilizar grande parte da população, que é, sim, falante da língua portuguesa, mas não tem conhecimento técnico para julgar critérios de avaliação de produção textual.

 Last but not least, o episódio do trote na Faculdade de Direito da UFMG expõe o horror que se procura jogar para baixo do tapete. Não, não somos um país cordial. Nossa verve excludente, classista, machista, racista nos atropela a todo instante em todo lugar. O trote e a saudação nazista de futuros juristas apontam o que está em toda a extensão deste artigo – na transformação das vítimas em culpadas, na ocupação de cargo público por gente não qualificada, na depreciação sistemática de algo que não se entende -, ostentam o inescapável, o que nos espreita em cada esquina, cada escola, cada igreja, cada casa: a inegável proximidade da barbárie, muitas vezes simbólica, mas sempre barbárie. Para quem não acredita no retorno do pior, inquiete-se um pouco mais com o trailer do genial filme alemão Die Welle (A Onda), de 2008.  Há várias formas de se deslegitimar o outro: estigmatizá-lo para depois torná-lo o estranho a ser combatido tem-se demostrado a mais eficaz delas.

*https://transversos.wordpress.com/2013/04/05/religiao-simbolico-e-intolerancia/. Publicado em 5 de abril de 2013.

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Categorias: Crítica, Mídia, Política, Sociedade | Tags: , , | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “Meu nome é Legião, respondeu ele, porque somos muitos

  1. Parabéns , Aline ! Mais uma canção para acordarmos do marasmo nosso de todo dia . Acho que a sua comparação com o filme ” A Onda ” é muito perfeita . Lembro que fiquei estarrecida com o final . E fico então temerosa . Maravilhoso texto , Aline .”É preciso cantar e acordar a cidade . ”

    Beijos ,
    Ana

    • Aline Silva

      Querida Ana, você é a leitora mais desperta que conheço. Nem precisa de canção de acordar. Agradeço a soma de forças, a leitura dos textos, a interlocução bem-vinda. Espalhemos as canções pela cidade. Abraço.

  2. Não vou ver o vídeo, Aline. Seu texto, belo e doloroso, é o suficiente. Mas eu ando pelas ruas, muito e lhe digo que há também muitos a cantar e a dançar pra acordar a cidade. Non pasaran. bjos.

  3. Aline Silva

    Cantemos e dancemos, Ana Souto. Quanto ao filme, é bastante interessante. Vale a pena assistir. Bjs.

  4. José Paulo Ferrer

    Aline, espero me tornar assíduo por aqui, enfrentando o risco que a internet traz, de nos dispersar muito, retalhos, jornais, vídeos, posts, conversas paralelas, matérias sérias, importantes e pesadas que pretendemos ler e vão ficando como um quadradinho no desktop… gostei da publicação, de seu texto (Legião), assinaria embaixo convicto e orgulhoso. Bjs.

    • Aline Silva

      Obrigada pela interlocução, José Paulo. Espero que estejamos à altura de suas expectativas de leitura. Seja bem-vindo!

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