Da série: quantas vidas vivendo por aí

Ana Souto*

Dignidade não se barganha

Dignidade não se barganha

Ontem esperava, na calçada da Av. Paulista, a abertura das bilheterias do Itaú quando um catador de latinhas dispara na minha direção: “ A liberdade está um caos!!”. Sou atingida em cheio pela potência poética da declaração, é claro. Peço mais esclarecimentos. Ele fala do apagão de semáforos no Bairro da Liberdade, com direito a acidentes, logo emendando com um “ E o Haddad, hem?” , para em seguida, em acelerado monólogo crítico ponderar, entre outras coisas “mas eu acho que é sabotagem, sabe? Essa coisa da política é um nojo, né?”. Comento que ele parece bem informado. Me diz que tem Segundo Grau, gosta de ler, lê tudo que cai na sua mão, andou nas drogas, há um ano e meio está livre. Eu pergunto: limpo? Ele ratifica “ livre”! Para em seguida contar que esteve preso por dez anos, apressando-se em me tranquilizar: não, nunca matou ninguém. “ Naquele tempo a gente roubava tape de carro, corrente de ouro, essas coisas”.Esqueci de dizer que a cada final de frase dava uma gargalhada, deixando à mostra as falhas dentárias, à direita, na arcada superior. Dava uma declaração e gargalhava “ Depois fui preso, cumpri dois anos, saí”. Gargalhada. “ Os amigos vinham e falavam no ouvido, né, vamos ali e tal.” Gargalhada. “ Já fui escriturário, nem existe mais essa função, né? Agora cato latinha”. Pergunto se não gostaria de voltar aos escritórios, não tem mais escriturário mas tem assistente administrativo, o que dá no mesmo, “Meu tempo já foi, tenho 46 anos, eu cato latinha, moro numa pensão, não entendo nada de computador, essas coisas”. Comento que parece saudável e nem aparenta a idade que tem. Dez anos na cadeia é muito tempo, hem? Suspeito que mentiu sobre a gravidade de seus delitos, desconfiada crônica que sou. “ Eu sempre fui bonitinho. Aí você estava lá, chegava na cadeia e o negão falava: vai ser boneca, chega aqui boneca. E você tinha que dar umas pauladas no cara, né? Vinha o juiz e dava mais uns aninhos”. Gargalhada.” Não tenho nada contra gay, ser gay, os negros, mas eu não… aquele tempo a cadeia era uma bagunça, não tinha organização nenhuma, era cada um por si e o diabo pra todos, né?” Gargalhada. Ponho mais atenção no aspecto roupa. Limpa, camisa dentro da calça, barba feita. Não escapa aos seu olhar arguto. “ Se a gente não tiver auto-estima vai para o buraco, né?” Concordo que é um bom começo embora não resolva tudo. Então me conta mais alguns episódios da cadeia e das íntimas relações entre amizades, drogas e “ falta de entendimento”, como ele diz. Depois pergunta se o espetáculo  é grátis e declara que vai assistir outro dia. Na despedida, nos apresentamos. Já quase na esquina, grita “ Foi bom conversar com você!”. Tenho vergonha de responder aos berros, só aceno, mas queria ter dito que a recíproca foi verdadeira, Marcelo.

Ana Souto é andarilha desde que Portugal entrou na sua vida, duas gerações atrás. Ama o campo da educação, a política e suas lutas, as ciências,o teatro, as artes e as gentes. Na práxis, vende ou dá o que lhe vai na cabeça, e sobrevive.

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