Mulheres ao som do tamborzão

Mulher vetor, de Leandro Belo.

Diante do painel das figuras femininas cantadas e cantoras ao som do tamborzão, podemos perceber as mudanças de visão de mundo presentes na sociedade e, porque não dizer, as diferentes percepções da mulher e sobre a mulher nos campos sexual e afetivo.

Nos anos 90, a princesa, a morena, a menina musa do verão, a gatinha, era cortejada, elogiada. O jogo da sedução começava com vamos nos encontrar logo mais, amor eterno, até casamento. Era preciso mostrar que o flerte era apenas o primeiro passo de algo que se pretendia sério, porque durável, sincero, especial. Parte mais lúdica e idílica que erótica. Prometer e comprometer-se (será mesmo?) faziam parte da estratégia de conquista.

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A geração 00 nos pegou com cerol na mão, aparando pela rabiola, repleta de bondes lúbricos, que dançavam o duplo sentido viscoso. Vem, me chama de tchutchuca, de cachorra e me mostra quem é tigrão. Um tapinha não dói. Nada de amor, nada de sentimentalismo barato. Só o ato, o ato, o ato. Frenético, violento, animal, corrosivo. De fazer corar o Michael Douglas.

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Meados de 2000, a voz feminina sobrepõe-se ao corpo para falar de desejos. Não mais dançarina figurante, não mais dublê de bonde. Agora dona de sua voz, dona dos seus prazeres, boladona, boladona, ela investe, ela desperta, ela balança o coreto, ela manda: demole meu barraco. Não quer ter propriedade sobre o outro, também não quer que lhe botem o cabresto. Amor livre, relacionamentos abertos, é a Regina Navarro das massas.

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Na outra ponta do cabo e com o membro permanentemente em riste, o Mr. incensa a liberdade sexual, desde que ele dite as regras do jogo. Não gostou? Coloca um chip no meu pau. O bagulho é sério. Vai rolar um adultério. Passa nela, passa nela. Soca, empina, puxa, agita, sobe, desce, mexe, treme, goza. A satisfação feminina demonstra não a preocupação com o prazer alheio, mas a afirmação de seu papel de homem bom de cama, além, é claro, da exigência de uma performance feminina digna de aulas de spinning e body pump. Tão canalha, porque reside na mera perpetuação do papel de macho dominador, como reafirmação do falo patriarcal.

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Mais modernamente frequentadores das pistas de batidão dançam ao som de dois tipos de hits: de um lado, o som mais seco, mais funkão com elogio desbragado à moça livre que é baladeira de ofício, não gosta de compromisso, não é de ninguém, mas é chegada num lancinho. A música gruda. Ainda não tenho distanciamento suficiente para dizer se deixa sequelas irreversíveis. Só sei que ela não anda, ela desfila. Ela é top, capa de revista. É a mais mais, ela arrasa no look. Tira foto no espelho pra postar no Facebook.

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Do outro lado, o funk melody do jovem que adapta algumas letras explícitas para frequentar os espaços censurados, falando besteiras no ouvido até fazer “pirar”. Profusão de erotismo saindo pelos poros, os verbos e o ritmo ditam a cadência sexual: tirar, enlouquecer, lamber, tocar, beijar, arrepiar, meter, melar. O que o difere do Mr. Sempre Pronto Aqui Pra Você, aquele do chip? O “novinho” se permite as fantasias com uma pessoa que lhe parece especial. A mulher deixa o status de produto a ser consumido e adquire humanidade. São homem e mulher cúmplices no vínculo que os une (não importa o tipo nem o tempo), cúmplices também nas peripécias lúbricas com ou sem vodka, uísque, água de coco, chantilly ou chocolate.  Você me faz tão bem. Uh!!! Me diz o que é que tem. Você me faz tão bem .

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Categorias: Crítica, Cultura, Sociedade | Tags: , , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Mulheres ao som do tamborzão

  1. Adriana Bezerra da Silva

    Aline Silva, seu texto simplesmente é muito bom, ri em vários tópicos, porque é isso mesmo, chega a passar um filme na minha cabeça, chego a achar que na cabeça de muitas das pessoas que se disponibilizaram ler o texto também. Cada vez mas a mulherada é apelativa, e,… se acham poderosas.

  2. Aline Silva

    Eu quis destacar como a mulher é tratada e que estratégias de sedução estão em jogo através dos tempos, considerando-se as letras de funk. Agradeço a leitura. Espero que volte mais vezes.

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