Tresvarios de domingo

Arthur Bispo do Rosário, Muro no fundo da minha casa

Desatino é viver a realidade.

Empregados domésticos agora devem ser tratados como se trabalhassem fora. A patroa chora. Quanta rebeldia para quem parecia domesticada. Coitada. Era quase da família. Desde pequena foi tratada como filha. Apesar de limpar a casa toda. E cozinhar. E lavar. E passar. Mas quem não tem obrigação? Havia até um quartinho para ela (sem janela), como falar em nova escravidão? Agora quer ter direitos essa mulata. Que ingrata. Essa borralheira exige uma carteira. É, burguesia, se vira! E, sem empregada, a madame pira!

Piração mesmo é ver como a mídia trata da questão. Parecia que era de um 14 de maio a edição: ignorando conquistas trabalhistas, preocupada com o prejuízo do patrão. Os empregados domésticos só conseguiram ser reconhecidos como qualquer outro trabalhador. Mas o direto alheio sempre traz horror. E como fica, Danuza? Essa gente só abusa, vai querer deixar confusa e penetrar na sociedade de intrusa? Agora, se oferece um por fora, desdenha e até recusa?! Jura? Ai que loucura!

Loucos por uma guerra para ajeitar a economia, os EUA (quem diria?), já jogam para a plateia e ameaçam intervir no entrevero das Coreias. A notícia das oligarquias diz que o ditador maluco rasgou seu salvo-conduto e vai explodir a Ásia inteira. Quanta besteira. Ali não há flor que se cheire, há quem se entrincheire para acusar o outro lado. O Sul divulgou uma lista de alvos no Norte, isso indica querer morte? Não, que sorte! Os EUA ensaiaram um bombardeio, invadiram o céu alheio e propõem uma série de sanções. Quem, de verdade, são esses vilões? Diante dos tostões, valem só os que a mídia fez? Quanta insensatez.

Insensata nação democrata, que cria jovens agressores de indefesos professores. Quantas dores! Pedagogia não é mais notícia, virou caso de polícia. Só demagogia. A raiz desse problema está no próprio tema. Ignorada pelo sistema, é ela mesma a solução: educação. Mas se aposta tão somente na via da contradição: a culpa é do indivíduo – e, se pobre, é resíduo. Um desajuste social, um anormal. Então que venha a punição. É a sociedade da insanidade.

Insana sanha por assassinatos. Dos fatos, nada pode ser pior: a sangue frio, por conta de ciúmes, tirar a vida de um menor. Inexplicável atrocidade. Covarde. E é hoje o dia de comemorar a covardia. Assim anuncia o círculo militar: hoje tem jantar! Levantar a taça, rir da massa e chamar de revolução o que foi nossa desgraça. Quanta mordaça. Gente cabeça-dura, para celebrar a ditadura. Gritarão com todo afinco: “viva o AI-5!” Troçar com a censura e defender toda a tortura. Quisera eu que fosse só tolice, coisa da velhice, ou simples maluquice.

Maluco, traz a conta! Mas não conta para essa gente parva, que o chocolate agora vem com larva. É segredo. Que saudades de quando só vinha brinquedo! E avisa pra torcida, iludida, que futebol não tem mais não. Seis anos já deu tempo para cair o Engenhão. Quanta lambança. O perfeito prefeito que garantiu a segurança é o mesmo que hoje a interdita. A gente finge que acredita. Sem ter quem nos proteja, exijamos o reverso. Porque a mão que afaga é a mesma que apedreja, como advertia o verso.

Anúncios
Categorias: Crítica, Sociedade | 20 Comentários

Navegação de Posts

20 opiniões sobre “Tresvarios de domingo

  1. O Jornal O Globo está aterrorizando a classe média. Estampa matérias gritando que não haverá mais empregada doméstica pra lavar as fraldas, calcinhas e cuecas dos patrões que não querem arcar com as despesas dos novos direitos trabalhistas do andar de baixo. Manipula como sempre e põe na conta do Executivo uma prerrogativa do Legislativo. Assusta as trabalhadoras domésticas com um horizonte apocalíptico de milhões de desempregadas. Querem com isso a “flexibilização” dos direitos trabalhistas dos pobres e a “maximização” da canalhice social.

  2. Walace Cestari

    Sempre preciso, Moa!

  3. O que me deixa mais irritada é olhar para a cara destas senhoras preguiçosas e saber que elas não hesitam em pagar 600 reais por uma blusinha, 250 por um corte de cabelo, gastar 120 reais em uma hora de ócio com as amigas em qualquer café metido a besta. Já para limpar suas mansões querem profissionais de alta competência( meu respeito pelas empregadas domésticas é superlativo também dada à minha incompetência de fazer uma faxina que preste, confesso) a preço de loja de artigos chineses. Porque é que não se mudam para um país asiático, destes que exploram mão de obra infantil ? Vão se sentir de volta à Casa Grande do vovô. Estou, como se diz na minha terra, pelas tampas com estas porcas.

  4. Walace Cestari

    Não demorará muito e contrataremos bolivianas, paraguaias e equatorianas para o serviço…

  5. Leo Poldo

    Em São Paulo já temos bolivianos clandestinos ralando em larga escala industrial e desumana, em plena 25 de março. No globo de ontem vi a chamada da matéria com letras garrafais onde dão ênfase a burocracia e ao aumento dos impostos embutidos na nova lei…..

  6. Leo Poldo

    Senti a ausência de FHC/ABL no seu texto!

  7. Alexandre Bollmann

    Muito bacana, não sei se gostei mais do conteúdo geral ou do grande final com direito à Augusto dos Anjos! Abraço grande. E continue assim, fazendo a gente de pensar, apresentando o reverso da moeda cunhada pela grande mídia defensora dos interesses de uma minoria que comanda o país.

  8. Walace Cestari

    Muito obrigado, caro poeta Bollmann! É sempre assim, tem sempre uma citação no final! Seja sempre bem-vindo e esteja convidado a voltar diariamente para ler o que os outros “transversos” têm a dizer.

    Às quartas, publicamos poesias dos amigos, sinta-se intimado a participar com as suas!

  9. V

    Eu sou classe média e tenho empregada que dorme em casa , mas por obrigação , trabalho em 2 empregos e tenho filho pequeno, além de ser só eu e minha filha em casa. Muitas, como eu, precisam de empregada doméstica e nos vimos diante de uma relação contratual em que não há obtenção do lucro com aquele trabalho. Ok, vcs vão dizer que há pq a empregada está lá pra vc trabalhar fora. Sim e é por isso que a mídia não está especulando, realmente só vai aumentar o que eu já escuto das minhas vizinhas: “queria voltar a trabalhar, mas dps que meu filho nasceu eu e meu marido fizemos as contas e pra eu sair pra trabalhar e o que ganhar gastar tudo com empregada ou escola integral, não compensa, então eu que fico em casa fazendo tudo”. Eu pago todos os direitos da minha empregada e essa lei para mim não mudará nada, uma vez que minha empregada dorme no trabalho mas não trabalha nesse período, não sabendo no entanto se os empregadores conseguirão comprovar isso com facilidade. No entanto, sou deparada constantemente com atestados médicos , e sei que muitos são forjados (sei mesmo), por ela. E não é diferente com a minha mãe e com as amigas dela. Minha mãe teve uma empregada que enquanto era só diarista não ia a um médico e dps de assinada a carteira em 3 anos entrou de licença médica 2 vezes e meus pais cobrindo os 15 primeiros dias da licença e todas os benefícios que continuavam a vigorar e o INSS não cobra. A relação, da própria parte delas , as empregadas, era informal pq assim elas queriam, tanto que muitas preferiam trabalhar em casa de família pq sabiam que ao ir pruma empresa de limpeza, por exemplo, seus atrasos e uma ou outra falta ainda que justificada, era demissão na certa. É só perguntar pra várias e elas dirão o mesmo: “firma é muita cobrança”. Em casa de família elas sabem que somos “reféns” delas, no sentido de que precisamos de alguém de confiança e muitas vezes nossos filhos já estão apegados e então aceitamos muitas coisas que os nossos chefes lá fora não aceitariam nem a metade. Pela nova lei, eu, classe média média? não tenho direito a creche no meu emprego ( um bom emprego, uma carreira) e no entanto se a minha empregada engravidar , quando nascer a criança eu sou obrigada a lhe pagar auxílio-creche??!!!! Isso é o ideal, mas se só empresas acima de 30 funcionárias podem pagar isso, empresas que obtêm lucro com esses funcionários, como eu conseguirei pagar isso??? Ano passado preu poder pagar a empregada a minha filha estava numa creche municipal!!!! Entendem a contradição??!!! E a nova lei, prevê os deveres das empregadas ? Ou eu vou no máximo poder continuar descontando 2 dias das férias dela (q não desconto!) a cada 5 dias de atestado médico? A nova lei prevê que podemos cobrar que um empregado doméstico possa fazer tudo que seja serviço doméstico ou teremos que continuar contratando alguém só pra passar, outro só pra lavar, outro só pra cuidar da criança, como se um professor pudesse ser contratado um só pra dar aula daquela matéria, outro só pra corrigir as provas, outro só pra lançar as notas…não tem nexo isso!!! Nossas mães quando faziam serviço doméstico era o serviço todo e no entanto vai só no sindicato das empregadas domésticas e diz que vc quer saber o salário médio de uma empregada. Ele logo te pergunta e já vai te respondendo que é tanto só pra pasadeira, tantop pra babá, que uma empregada não pode nem levar uma criança de 6 anos pra escola pq se não ela já é babá, não é mais empregada….quando serviço doméstico é tudo que o dono de casa não obtém lucro com aquele serviço, ou seja, se acordado, elas poderiam até fazer bainha na calça dos homens da casa, levar o cachorro pra passear. .. Calcular hora extra de empregado doméstico? Impossível!! Ela faz o trabalho dela sozinha em casa em 3 horas e diz que ainda ficou depois do horário, caso vc não tenha chegado em casa pra presenciar.! Realmente não vai haver empregada doméstica pra classe média, mas não porque somos contra os direitos trabalhistas (acreditem, pago mais do que deveria pagar, dou vários dias que não precisava dar pra minha empregada, nunca a tratei mal ou alterei a voz, enfim, nada que tvz pelo que escrevi vcs venham a pensar que eu faça ou algum direito dela que eu não cumpra), mas do jeito que querem fazer acho que empregada vai ser só pra rico e famílias com 2 fontes de renda, a do marido e da esposa, será cada vez mais escasso. Desculpe o desabafo, mas é que eu acho que quem não conhece a relação contratual na realidade tende a romantizar as coisas, até eu antes de viver isso romantizava também.

    • Walace Cestari

      Cara V,

      Existem pontos que necessitam ser reinterpretados. Por exemplo, a empregada não está lá porque você trabalha fora, mas ela está lá porque ela trabalha fora.

      Não há diferença entre os direitos dos trabalhadores: médicos, advogados, professores, balconistas ou domésticas. Todos são trabalhadores e têm os mesmos direitos, guardadas as especificidades de suas atuações.

      Com relação a obtenção do lucro, ou da exploração do trabalho para gerar renda direta ao empregador, você se engana. Lucro não se resume ao pecuniário, especialmente no setor de serviços.

      Pense: quando você contrata um enfermeiro para acompanhar um doente na sua casa, há lucro? Ou um professor para aulas particulares? Ou um engenheiro para uma reforma da casa? Nenhum deles traz resultado financeiro, mas em todos há a realização do serviço desejado, o que se traduz como o “ganho” do contratante ou empregador.

      Veja que tudo o que você afirma poderia ser colocado em relação a você por seu empregador. Você já se imaginou dormindo em seu trabalho? Você consideraria que esse seria um momento de lazer e descanso? Ou será que se sentiria presa ao serviço, a ponto de estar disponível para ele mesmo enquanto dorme?

      Faltas ao trabalho, licenças, atestados, tudo isso faz parte das relações de trabalho estabelecidas. Será que você nunca viu o mesmo acontecendo em sua empresa? Será que nunca presenciamos alguém dar uma desculpa para faltar a um dia de trabalho?

      O que você está tentando dizer é que a empregada não pode se comportar dessa forma. E eu concordo. Apenas não concordo que só ela não pode fazer isso. Acho que esse comportamento é reprovável para qualquer trabalhador. Esse é o ponto: domésticas são trabalhadoras como outras quaisquer.

      É fato que empresas privadas são conhecidas por grandes cobranças. E não é uma constatação de domésticas. Tenho certeza de que você conhece gentr que sonha com um emprego público “para não precisar trabalhar tanto”.

      Você diz ter uma filha. Garanto qur, em sua gravidez, você foi beneficiada pela licença-maternidade. Mas defende que o direito que lhe valeu não merece ser gozado por outra trabalhadora. Isso é desconcertante.

      Qualquer trabalhador celetista faz jus aos mesmos direitos. Quando você diz do auxílio-creche, imagino que você esteja ligada ao serviço público, no qual esse benefício normalmente não é concedido. Entretanto, se for esse o caso, você goza, por exemplo, de estabilidade, coisa que sua empregada não faz jus.

      Quanto ao fato de você não descontar algo ou pagar a mais, é nero discurso paternalista: não existe cobrança para que você seja “boazinha” com sua funcionária, apenas que cumpra a lei. Imagino que é o que você espere, por exemplo, de seu chefe imediato em seu local de trabalho.

      Especificidades nas tarefas há muitas. Não levar o menino na creche é um absurdo? Não sei se é. Não sei de você faz serviços externos em sua empresa. Conheço gente que rejeita essas tarefas, dizendo que não foram contratadad para isso e que fazê-lo seria uma exploração. Ao contratar uma pessoa para serviços domésticos, submetê-la a serviços externos equivale ao desvio de função que tanto nos desagrada em nossos trabalhos.

      A situação em que hoje você se encontra tira o romantismo e a idealização que você adotava, perpetuando o discurso da classe média, que omitiu-se da luta na sociedade para ganhar benesses com o apoio às elites econômicas. O que sobra de lição nessa história é perceber que você não está na condição de ser exploradora do trabalho alheio. A realidade está lhe mostrando de qual lado da luta de classes você realmentr está.

      • Walace Cestari

        Perdoe pela digitação. O teclado do celular é ingrato com a ponta de meus dedos.

  10. V. , acredite, eu posso entender seu drama real e posso me solidarizar com seu sofrimento que não é diferente de todas as minhas amigas da classe media com um, dois ou mais empregos. Mas não posso deixar de avisar que, sim, não há mais condições para que uma explorada diminua seu sofrimento explorando outra. A classe media não tem creches, escolas, saúde pública porque abdicou de lutar para que o Estado, o serviço público desse conta disto. A classe média que era a classe que tinha condições de reinvindicar isto, abriu mão da luta por um sistema de saúde e educaçã públicos e de qualidade e resolveram pagar por estes serviços. Agora estão pagando pela opção. Sim, minha cara, empregada será, (tomara!) uma profissional tão bem paga que só os ricos poderão contratar- muito bem pagas ! Com todos os direitos trabalhistas. Sonho com isso e continuarei sonhando como sonho com o dia que não haverá mais ricos. No máximo, haverá uma sociedade em que o preço do trabalho, a remuneração pelo esforço de cada ser humano serão condições dignas de vida. Direitos à alimentação nutritiva, habitação com saneamento básico, educação emancipadora, saúde preventiva e curativa, transporte, acesso aos bens culturais e meios de comunicação assegurados. E para as mulheres, condições -isto é, bolsas, apoios, serviços especiais – para que possam ser mães e continuarem a desenvolver seus potenciais como seres humanos produtivos, dentro ou fora da casa. Para todos, sem distinção. Então talvez a neta da sua empregada esteja na mesma creche que a sua neta, como acontece, por exemplo, na alemanha, suecia… Enfim… Novos tempos se avizinham. E que tempos mais justos serão !

  11. V

    Mas de certa forma vcs concordam com uma coisa que eu disse: a mídia não está especulando, vai haver cada vez menos empregadas e mais diaristas e cada vez menos empresas contarão com mão de obra feminina, a não ser que pague muito melhor essas mulheres para que compense a elas sair de casa e pagar uma empregada para ficar em seu lugar.

    • Mário

      Eu não concordo. Isso de que vai haver demissão de domésticas para contratação de diaristas, e diminuirá a contratação de mulheres em geral, pelas empresas, porque o salário não vai compensar que elas saiam de casa e contratem uma empregada, é um discurso que, no fundo, equipara-se ao que dizia que trabalhador de fábrica não poderia ter férias, 13. salário, etc. etc., porque haveria mais desemprego. V., o Walace matou a questão, ao dizer que esses fatos estão demonstrando você não está na condição de explorar o trabalho alheio. Ou seja, ou você percebe que também é explorada, e passa para o lado de cá da luta, ou continua a chorar as pitangas, por não conseguir ter um padrão de vida compatível com quem pode se dar ao luxo de explorar o trabalho alheio.

  12. Pingback: Walace Cestari: Pobres patrões! « Viomundo – O que você não vê na mídia

  13. Pingback: Walace Cestari: Pobres patrões! | " F I N I T U D E "

  14. Marisa

    Excelente análise Walace e uma ótima discussão, creio que a V consegue ver com mais clareza o que de fato está por trás da regulamentação da profissão empregada doméstica que nada mais é do que o resgate de falhas (intencionais) dos legisladores ao longo dos anos que manteve essa função na condição análoga a de escravos (ainda que libertos).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: