Vozes autorizadas: o poder que cala

Não passava de uma anônima moradora do Parque Colúmbia, Morro da Pedreira, talvez Fazenda Botafogo. Procurei por horas alguma notícia que me devolvesse o mínimo de identidade da moça, mas nada encontrei. Era março de 2003 e talvez eu mesma não tenha apagado o fato da lembrança pelo contato com alunas que moravam em bairros vizinhos, pela pungência da dor, pela realidade que me era esfregada nas fuças a cada manhã no trajeto Mangueira-Acari, quando eu dava aulas num CIEP das proximidades.

censura

Traficantes em busca do irmão bateram à sua porta. Ausente o devedor, queriam transferir a pena para o filho de 5 anos. Ela negociou. O sobrinho ficou. Ela não. O corpo no valão com marcas de violência sexual e espancamento. Era portadora de sonhos, voltara a estudar recentemente no noturno, fazia planos de uma vida melhor. Tinha passado, futuro e história, mas ninguém ouviu.

Na mesma semana, o assassinato de outra moça. Troca de tiros entre polícia e bandido. Primeira vez que ela pegava sozinha o metrô. Deixou de ser anônima. É fácil encontrar notícias sobre o fato em qualquer site de busca. Moradora de bairro nobre da zona norte do Rio, teve a foto estampada em camisetas, cartazes com seu nome foram exibidos em passeatas. Era da paz e morria de medo da violência. Agora não tem mais medo. Tinha passado. Muitos formadores de opinião batem duro na tecla do futuro promissor que já não existe, em especial quando a vítima não pertence às classes C, D ou E. Tinha história. Ouviram o clamor ainda que tardio. Virou nome de campanha contra a violência. Virou nome de rua.

Vinte e três de março de 2013, sábado à noite. A jovem brasileira toma a van em direção ao Centro do Rio. Assaltada e violentada, mal sabia que sua dor se prolongaria pelo tratamento degradante recebido na delegacia e no IML de Tribobó: 3 horas para fazer um exame de corpo de delito, 12 horas para encerrar o registro de ocorrência. Depois de o escandaloso descaso vir à tona, são devidamente exoneradas a delegada da DEAM de Niterói Marta Dominguez e a diretora do Posto Regional de Polícia Técnico-Científica (PRPTC) de São Gonçalo, a “perita” Martha Pereira. A jovem tem passado. Tem um futuro a ser forjado na alternância entre lembrança e olvido, mas afirma: ”Quero justiça. Não quero que isso caia no esquecimento”. Tem história.  Só foi ouvida depois da repetição do crime. Desta vez, as vítimas tinham sotaque estrangeiro.

Trinta de março de 2013, sábado à noite. A jovem americana toma a van na companhia do namorado francês em Copacabana. Destino almejado: Lapa. Destino encontrado: seis horas no inferno. Assaltados, espancados e violentados, saem do país depois de devidamente atendidos na DEAT. No dia seguinte ao crime, dois dos bandidos já estavam presos. O casal tem um passado, um futuro marcado pelo trauma vivido, contas encerradas no hotel na Atlântica, um passaporte. Tem uma história. Ela em estado de choque, ele mal consegue falar. Mas foram ouvidos.

Vinte e dois de março de 2013, manhã de sexta-feira. Local: escola municipal na zona norte do Rio. A diretora repreende alunos que brincavam com brutalidade. A brutalidade nada lúdica se volta contra ela em forma de golpes repetidos. Ele diz que foram oito. Marcas no rosto e na alma. A mãe diz: “mostra a cara que eu quero ver. Está limpinha”. Legitima a violência do filho. Um jornal de grande circulação publicou matéria destinando 7 parágrafos para a versão da professora e sua história de vida e 11 para a do jovem. Repentinamente brechtiana, só faltou afirmar “ninguém diz violentas as margens que o oprimem”. De repente, o veículo que defende sistematicamente a pena de morte e a redução da maioridade penal parte para um viés psicologizante e sociologizante da situação. A agressão sofrida pela diretora é menosprezada tanto quanto ela, a própria, o foi na 24ª DP em Piedade. O jovem tem passado. Tem futuro. Tem história. A diretora tem passado. Um futuro profissional incerto. Tem história. Os dois falaram, mas a quem deram ouvidos? E a quem deram de ombros?

Texto acre. Mulheres silenciadas brutalmente. Silenciadas na dignidade, no corpo, na vontade. Às vítimas que sobreviveram: dilaceramento, aflição, insônia e pesadelos. Em todos os casos, acorrentadas e amordaçadas metaforicamente. Umas mais que outras.

 

“Well I feel deep in your heart
There are wounds time can’t heal
(Wounds time can’t heal)

And I feel somebody, somewhere

Is trying to breathe
Well you know what I mean
It’s a world gone crazy
Keeps Woman in Chains”
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Categorias: Crítica, Mídia, Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , | 18 Comentários

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18 opiniões sobre “Vozes autorizadas: o poder que cala

  1. Aline , mais uma dolorosa de acordar . Sinto sua tristeza , raiva , indignação em cada letra do seu texto .
    E faço coro com sua belíssima voz , junto – me â vc , canto seu pranto de dor .
    A minha voz é a sua voz .

    Beijos ,
    Ana

    • Ops , mais uma dolorosa canção .
      E obrigada por me fazer entender Brecht e o rio de águas violentas e suas margens opressoras . Colocação perfeita , no conceito .

      Obrigada e um beijo .
      Ana

  2. Aline Silva

    Ana, adoro esses corais de acordar. Agradeço a leitura atenta e a interação sempre interessante. Bjs.

  3. Uma porrada necessária, Aline! Grande texto!

  4. Daniella Reis

    Aline MUITO FODA! Texto PERFEITO! Parabéns!

  5. luisa la croix

    Aline escuto a voz. vejo o rosto e sinto a dor de cada mulher. Vc escreveu com a alma. Já pensou em roteiros de cinema ou TV?

  6. Aline Silva

    Anderson e Dani, agradeço pela leitura e pelo retorno. É bom saber o que pensam as pessoas que leem o que escrevemos sobre o que escrevemos.

  7. Aline Silva

    Luísa, você está certa. Tinha minha alma aí mesmo. Vinha pensando em escrever isso há algum tempo e parece que a ideia me perseguia. Quanto aos roteiros, nunca pensei. Tenho aspirações literárias, mas nunca me dei seriamente ao trabalho (e haja trabalho) de imaginar enredo, delinear personagens e tal. Quem sabe um dia…

  8. Elizabeth

    Tô emocionada. Que clareza de pensamento. São tantas as dores caladas. Obrigada por “falar”.

  9. Maria

    Muito lúcido o texto, gostei mt.

  10. Vi sua alma e vivência nesse texto,duro e crítico à nossa realidade,uma porrada na alma,perceber,perceber não,constatar que algo nesse ,dito País do futuro só funciona quando acontece com alguém dito mais importante,ou de sotaque e passaporte,como você disse.Esse país deveria funcionar para todos!!!Esperemos que um dia isso aconteça!!!

  11. Aline Silva

    Elizabeth, Maria e Aline Rosa, sigamos na denúncia e nas utopias, que fazem valer a caminhada. Nada é impossível de mudar!

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