Religião, simbólico e intolerância*

Foto: Max Rossi / Reuters

Foto: Max Rossi / Reuters 

Carlos Alvarenga, autor desse texto, quase não nos deixou pôr seu nome no post:

“o crédito para mim não me importa. Sou um radical daqueles que pensam que TODA a propriedade privada é um roubo, inclusive a intelectual.”

Aline, compreendo-te perfeitamente, como entendo de maneira geral as pessoas crentes. Não vou discutir a fé contigo porque é um artigo para mim incompreensível, que se aloja no inconsciente de muitas pessoas. Já o que se relaciona com o simbólico acho que sim, que se pode e se deve discutir. Cada um faz como pode, é verdade. O papa, por exemplo, que, para os católicos apostólicos romanos praticantes, é o ungido pelo “espírito santo” – o chefe espiritual – escolhido para conduzir o povo de deus na Terra, para muitas outras pessoas é o representante máximo de um Estado patriarcal, machista, medieval e teocrático, um dos poucos no mundo que NUNCA assinou a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948, que impede as mulheres de serem proprietárias do seu próprio desejo e corpo, que impede milhares de pessoas simplesmente de serem felizes.

Tens razão sobre a intolerância. Mas é bom não esquecermos que a intolerância em si está praticamente na base de muitas religiões do mundo, sobretudo as de conversão, porque precisamente pensam-se como o epicentro único da fé.

Desde que me entendo por gente, o Papa e todo o seu entorno simbólico tentaram aviltar os meus direitos, não reconhecendo o casamento da minha mãe (porque não era religioso), intrometendo-se nos desejos e direitos reprodutivos das pessoas ou lutando ideologicamente para me impedir de me casar com aquele que é actualmente o meu marido. A Igreja é a minha inimiga. A tua fé não. A Igreja que também é o reino do simbólico que defendes não te permite, se assim o desejares, assumir-te como ser humano digno da tua própria existência. Não, esta Igreja te vê somente como uma reprodutora de almas, secundarizada na sombra de um homem: seja ele pai, marido, irmão ou padre. Além disso, esta simbólica e milenária instituição sempre foi um entrave ao desenvolvimento do pensamento científico. De Galileu às investigações que envolvem as chamadas células-mãe, a Igreja sempre usou do seu poder simbólico para desqualificar o saber. E no Estado onde ela concretamente está erguida, o Vaticano (que também é por excelência o simbólico), as mulheres ali só têm serventia para a invisibilidade: lavam, cozinham e limpam as sujeiras do herdeiro de Pedro.

O simbólico é tudo! É ali que travamos a nossa luta mais decisiva.

Um beijo grande!

*Esse texto foi publicado no facebook em resposta a uma postagem da Aline Silva. Algumas pessoas a interpretaram como católica, pela exposição das ideias ali contidas. Equívoco. Ela não tem religião, mas gostou tanto do debate, que convidou o amigo a colaborar.

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