Um duplo cinema de três cores e dez olhares

Ah… o cinema é, com certeza, uma de minhas ferramentas pra propulsão interior. De todas as artes, é a que me toca de forma mais plena e multifacetada. Nem, pasmen, a literatura ou a música conseguem fazê-lo com tamanho êxito. Minha história de cinéfilo começa lá no início dos anos 90 nas maravilhosas mostras de cinema do CineArt UFF, o melhor cinema que já conheci no estado do Rio. Que telão! Uma sala gigantesca com um telão colossal e uma seleção de filmes, com independência de perspectiva de bilheteria! Foi lá que, ao longo dos anos 90, mais exercitei meu olhar d’alma pra arte cinematográfica. Não muito tempo, anexaria aí a Rede Estação, circuito de locadoras de “filmes de arte” (como odeio esse nome!) e construiria com o cinema uma relação de deleite muito plena e acolhedora. Hoje tenho uma boa quilometragem de cinema. Nesta andança por rolos e mais rolos, nunca dispensei, pelo contrário, cinema de países bem fora do mainstream.

Hoje, queria destacar não um filme, mas um diretor. Certa feita, o grande compa Arquimimo Novaes, colega de perspectivas profissionais linguageiras, me pediu que fizesse uma relação de meus 15 cineastas preferidos. A lista foi esta:

01. Krzysztof Kieślowski;

02. Pedro Almodóvar;

03. Federico Fellini;

04. Wim Wenders;

05. Serguei Eisenstein;

06. Alejandro González Iñárritu;

07. David Cronenberg;

08. Francis Ford Copolla;

09. Ingmar Bergman;

10. Ettore Scola;

11. Denys Arcand;

12. Paolo e Vittorio Taviani;

13. Zhang Yimou;

14. Abbas Kiarostami;

15. István Szabó.

Isso foi há 2 anos. Não se podia demorar mais do que 15 minutos pra formular toda a lista em qualquer ordem. Nessas circunstâncias, com certeza, aquela perigava ser uma lista de momento e com injustiças maiores ou menores várias. Contudo, hoje, ainda penso que, na média, o primeiro da lista, se dá, de fato, pra se estabelecer um primeiro (e lembrando que não era em ordem, mas ele foi o que logo veio à lembrança), é razoavelmente justo e fiel à minha trajetória cinematográfica.

Confesso que até hoje apanho pra escrever o nome deste cineasta que tanto admiro: Krzysztof Kieślowski (essas línguas com encontros consonantais triplos ou mesmo quádruplos criam essas dificuldades, né?).

Sua carreira se divide em duas fases muito distintas do ponto de vista cronológico, geográfico e estético: a polonesa e a francesa. Nascido em 1941, falecido em 1996, dirigiu obras-primas. Mas, bem antes, começou dirigindo documentários aos quais nunca assisti, na Polônia. Só sei que seu enfoque era o dia a dia dos trabalhadores. Antes que comece a se formar algum pré-clichê nas cabeças leitoras, digo logo que Kieślowski não se notabilizou por um engajamento político que atingisse seu cinema não, nem pró-socialismo nem contra o mesmo. Essa é claramente minha visão. Há um tanto doutras críticas que insistem em ver nele uma crítica velada ao governo polonês nos anos 70 e 80. Confesso que acho isso uma forçação de barra meio intelectualista por um lado, meio pós-moderna por outro. Enfim, não abro mão de meu senso crítico nessa crítica, óbvio. Sua abordagem da Polônia é centrada nas personagens e em seus conflitos morais, seus hábitos cotidianos. A câmera mesma não tem planos abertos o suficiente pra que possamos ver com riqueza de detalhes o contexto que cerca essas personagens. Belo exemplo disso é a série de média-metragens feita para a tevê polonesa nos anos 80, intitulada Decálogos (Dekalog). São 10 filmes de uma hora baseados em conflitos inspirados nos 10 mandamentos. E daí que surgem de seus longas mais cultuados, Não Amarás e Não Matarás, acrescidos de algumas cenas para abandonarem o formato original de média. Stanley Kubrick foi um dos primeiros grandes prestigiadores desses médias.

Nos Decálogos, há outros primores. São os seguintes:

Dekalog I: Amarás a Deus sobre todas as coisas (Nie będziesz miał bogów cudzych przede mną)

Dekalog II: Não tomarás o santo nome de Deus em vão (Nie będziesz brał imienia Pana Boga swego nadaremno)

Dekalog III: Guardarás domingos e festas sagradas (Pamiętaj abyś dzień święty święcił)

Dekalog IV: Honrarás ao pai e à mãe (Czcij ojca swego i matkę swoją)

Dekalog V: Não matarás (Nie zabijaj)

Dekalog VI: Não pecarás contra a castidade (Nie cudzołóż)

Dekalog VII: Não roubarás (Nie kradnij)

Dekalog VIII: Não levantarás falso testemunho (Nie mów fałszywego świadectwa przeciw bliźniemu swemu)

Dekalog IX: Não desejarás a mulher do próximo (Nie pożądaj żony bliźniego swego)

Dekalog X: Não desejarás os bens do próximo (Ani żadnej rzeczy, która jego jest)

Particularmente, me mobilizam muito os decálogos II, IV e V, embora aprecie todo o conjunto. Em Não tomarás o santo nome de Deus em vão, temos um conflito ético/ moral em torno da questão do aborto protagonizado por personagens desinspiradores de qualquer simpatia, o que acaba interferindo na própria dinâmica do dilema. Já em Honrarás ao pai e à mãe, deparamos com uma história crescentemente inquietante entre pai e filha. Por fim, em Não matarás, talvez a obra-prima dos Decálogos, vivenciamos a própria fragilidade dos julgamentos absolutos e nos rendemos a toda uma ordem de incertezas frente nossa outrora aparente solidez.

Em sua fase francesa, destacam-se A dupla vida de Verónique (La double vie de Véronique), de 1990, com a belíssima atriz Iréne Jacob, à época, pouco conhecida e que foi catapultada por essa atuação, em que interpreta duas mulheres homônimas, uma polonesa, outra francesa com uma muito estrnha conexão e a, assim consagrada, Trilogia das Core(Trois coleurs), entre 1993 e 1994, composta de A liberdade é azul (Bleu)− com Juliette Binoche, A igualdade é branca (Blanc)− com Julie Delpy, embora Binoche também atue neste e A fraternidade é vermelha (Rouge)− com Iréne Jacob, completando o trio das musas de Kieślowski. A ordem cronológica das obras é a respectiva ordem de listagem. O primeiro é um drama intimista, o segundo, uma obra de reflexão social, o terceiro, um meio termo dos dois anteriores. A temática da solidão perpassa os três filmes. Curiosamente, vemos uma alternância de estética nas trilogias. Bleu e Rouge se identificam totalmente com a estética francesa do cineasta. Em outras palavras, é um cinema de iluminação pujante, enquadramentos mais panorâmicos, uma câmera mais lenta e uma cena com plano de escape. Já Blanc, se associa à estética polonesa, uma câmera mais objetiva, mais fechada, com cores mais pálidas, uma iluminação mais contida, embora haja uma necessária explosão e imerso em dimensões profundas de brancura nessa película. Aliás, em todos os filmes da trilogia, as cores saltam do título pra ampla metaforização visual.

Kieślowski colecionou dezenas de premiações e indicações. Tem, além das obras aqui citadas, uma extensa filmografia de 1966 a 1987, antes dos Decálogos (1988). Esses filmes são de acesso, ainda hoje, um tanto quanto difícil.

O cineasta polonês é, para mim, reflexão e poesia visual. O elemento estético, nele, anda uníssono com essas reflexões existenciais, morais, éticas que nos propõe. Kieślowski, seja na fase francesa ou na polonesa, sempre nos propõe o intimismo como ponto de visagem, com ou sem ponto de fuga. Ele é um poeta da sétima arte. Sem ele, eu seria outra pessoa.

Terminando com uma frase dele, em uma de suas últimas entrevistas, quando da feitura dos roteiros de sua trilogia seguinte, inviabilizada por sua morte, Paraíso, Purgatório e Inferno: “All the films I make are about the need to open up”.

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Categorias: Crítica | Tags: , , , , , | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “Um duplo cinema de três cores e dez olhares

  1. Leopoldo

    Gostei da gradação no título.
    O americano Philip Kaufman, de A Insustentável Leveza do Ser (987), com atuação de Juliette Binoche traz muitas semelhanças com a trilogia citada, não sei se é viagem minha….

  2. Leopoldo

    Quis dizer (1987)

  3. Aprendendo cinema com Anderson Ulisses.

  4. Valeu, Leó! Nunca tinha pensado nessa comparação, mas acho que tem uma ambientação e ritmo parecidos entre os dois sim. Boa observação tua.

  5. Moa, que belezura!

  6. I really like reading a post that will make men and women think. Also, thank you for permitting me to comment!

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