Desengavetando VI + Homenagens e citações por sete vidas…

Hoje, o Desengavetando, em si, é tão sintético quanto possível, mas não sem bons motivos. Ontem, 15 de abril, foi o dia da deusa Bastet, um dos poucos entes sobrenaturais que tem minha crença, entidade solar do culto egípcio, deusa da fertilidade e dos gatos. Assim, a sessão de hoje traz meu poema aos estimados felinos, por ora, único. Além disso, adendo à leitura poemas ilustres sobre gatos (uma seleção dentre os disponíveis). Sobre esses, publico apenas a tradução. Mas acrescento links com as versões originais.

Eis meu poema:

ODE PARA OS GATOS (ou POEMA DE SETE VIDAS)

Aninhados às margens do Nilo caudalosas,
filhos diletos de Bastet,
guardiões da vida perpétua
com olhar que transpassa almas.

Prontamente altivo se fez,
do sagrado às fogueiras
hediondas da estupidez,
debeladas em afagos e doçuras.

A elegência mais esguia
humanamente apreendida
para singela companhia.

Nos cativando aprendizes,
de colo a colo,
na simplicidade de ser felizes.

Por sua graça,
desfiaram-se sonetos,
cantos desafinaram
para garantir-lhes afável canto.

Mesmo as Musas
sabem de cor
que felina
é a decoração do existir.

Rústicas rimas ruem
ressaltam-se ronrornares
por sete eternidades…

———————————————————————————————————————
Ode ao gato (Pablo Neruda)

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Original em: http://blogs.utopia.org.br/poesialatina/ode-ao-gato-pablo-neruda/

————————————————————————————————————————

O Gato (Charles Baudelaire)

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e o dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias
De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés a cabeca, um fino
Ar sutil, um perfume que envenena
Envolvem-lhe a carne morena.

(Sem crédito de tradução encontrado)

Original em: http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/leg/leilgp03.htm

—————————————————————————————————————

O Nome dos Gatos (T.S. Eliot)

Dar nome aos gatos é assunto complicado,

Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;

Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado

Quando eu digo, um gato deve ter TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,

Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria,

Como Vitor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente –

Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.

Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,

Alguns para os cavalheiros, outros para titia:

Como Platão, Demetrius, Electra ou Eleonor –

Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.

Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,

Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,

De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,

Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?

Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,

Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato,

Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –

Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,

E este é o nome que você jamais cogitaria;

O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –

Mas O GATO E SOMENTE ELE SABE, e nunca o confessaria.

Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,

A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome:

Sua mente está engajada em uma rápida contemplação

De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:

Seu inefável afável

Inefavefável

Oculto, inescrutável e singular Nome.

(Tradução: Rodrigo Suzuki Cintra)

Original em: http://zagaiaemrevista.com.br/o-nome-dos-gatos-poema-de-t-s-eliot/

————————————————————————————————————
O Gato (Vinícius de Moraes)

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando à noite vem a fadiga
Toma seu banho
Passando a língua pela barriga

desengavetar 6

Anúncios
Categorias: Verso & Prosa | Tags: , | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: