Da série tantas vidas vivendo por aí 3*

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por Ana Souto

Consulto as nuvens cinzas de São Paulo que prometem água mas quem não arrisca, não petisca. Ônibus lotado às 14.30 de um sábado ? Tudo bem, o importante é que as empresas tenham lucro e vocês darem só um passinho pra frente, pessoal!  Entro pelo portão do museu e a tristezura de sempre. As fardas dos seguranças são tão vistosas – porque é que os meninos nunca sabem das atividades do local?  Custava um comunicado no mural do vestiário ? Custava alguém da administração dar um bom dia à tropa e informar o que acontece ou vai acontecer em seus lugares de trabalho ? É claro que o dono da empresa não frequenta, não frequentou ou frequentará a praça jamais, imagine. Esquece. Para de pensar bobagem que o espetáculo já começou. Suprema surpresa: é falado em caipirês ! Muita gente, pouco espaço pra sentar. Aos 15 minutos fico apreensiva. Pelo estilo da farsa , isso vai  passar dos 30 minutos, será que o público aguenta ? Aguenta e participa.  Aos 35 minutos,  um garotinho que estava sentado na minha frente, convidado discretamente por uma atriz a se fazer de morto na peça, não se faz de rogado. Ciente do que deveria fazer quando ouvisse estourar uma bombinha, antes que eu mesma me desse conta que havia soado a deixa, rastejou para o meio da ação como uma lagartixa fugitiva e se jogou com a barriga pra cima, os braço e as pernas abertas. Será o Benedito ? Esses moleques agora já vem com noção de ocupação espacial da cena ? Passam os 40 minutos e o espetáculo continua, a chuva não cai, começo a desconfiar que o  pedido do caipira da peça, para que Santa Bárbara proteja a casa da moça que mora na encosta do morro,  funcionou. Disse o caipira, que Santa Bárbara disse, que ela não podia parar a chuva mas ia maneirar na intensidade. Santa porreta.  Nenhum dos atores usa microfone, a plateia está apinhada, jisuismariajose, será que a voz deles vai durar até o fim ? Dura. Exatamente  uma hora e dez depois de começarem estão na cantoria final, acho que ainda vem água mas até ali,  só nos meus olhos. Beijos , parabéns para os atores e sebo nas canelas que minha amiga do interior  deve estar estourando lá na porta de casa. Essa vida é cheia de coincidências estranhas: fiz o papel de um portuguesa, há mais de 20 anos, substituindo esta mesma  amiga que estava grávida, em uma peça chamada “ Na Roça”. Parto com os planos de perguntar a ela o que isto pode significar mas não ando muito. No caminho, um trio de veteranos, tocando chorinho me agarra. A tentação vence, preciso escutar pelo menos uma, cantarolo baixinho, hipnotizada pelos dedos negros e nodosos que dedilham um violão que acusa décadas de uso. O violeiro sorri com os olhos e a boca de um bebê recém nascido. De onde ele tira tanta energia, eu me pergunto enquanto pago pelo show, no chapéu, um preço injusto. Ele me detém antes que eu me afaste para perguntar se eu canto.  “Como todo mundo”, digo envergonhada. “ Vi você tateando “Sinhô”, ninguém sabe mais essas músicas.” Digo-lhe que tem muita gente boba e pergunto se são profissionais. Me conta que são amadores, que se reúnem ali por gosto. “ Não estamos atrás da glória” ele diz orgulhoso. Então, algo acontece. O homem do saxofone aproveita o intervalo e começa a cantar com uma voz firme, de seresteiro, uma voz parecida, tão parecida com a do meu pai “Trabalho como louco mas ganho muito pouco”. E a moça começa a bater palmas efusivas. “ Por isso eu vivo sempre atrapalhado” ele continua e ela não cabe em si de alegria. “ Fazendo faxina…” Nesse instante, a moça não aguenta e se joga no meio da cena. Sambando, sambando. “ Comendo no China… tá faltando um zero no meu ordenado”. O pandeirista adere e a moça continua sambando como se não houvesse amanhã, caprichando no requebrar, apesar do piso impróprio e da sapatilha rasa. De vez em quando, revira os pulsos como uma Carmen Miranda  e declara orgulhosa :  “ Eu faço faxina! Eu faço faxina! “ Ao fim do improviso, o cantor mostra que entende do riscado e recomenda a ela : o que você precisa é de um salto 7 e meio.

Olho no relógio, estou mais de 20 minutos atrasada agora, vou mesmo. Se meu pai estivesse vivo, era capaz de telefonar só pra dizer “ Estive no Jardim da Luz e lembrei de você”. E ele ia rir aquele riso grave dele, apertando os olhos feito um chinês, faltasse quantos zeros faltassem no seu ordenado. Este foi o meu dia de sábado, como dizem os caipiras. A  chuva não caiu mas voltei pra casa, encharcada de emoção até os ossos.

* Ana Sou já não é mais convidada, virou pessoa de casa, abre a geladeira e pega o que quer. Publica quase toda sexta-feira aqui no Transversos. Sorte a nossa!

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Categorias: Cultura, Reflexões | Deixe um comentário

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