Intervenções

Iván Darío Hernández, Constructores de sueños

A luta está em cada ação: eis a construção do devir

O governo estadunidense mandou avisar que só reconhece eleição se o resultado lhe agradar. Que azar! O conceito de democracia – quem diria? – nada tem a ver com a vontade popular. Se não gosta do eleito, muda o pleito, manda recontar. Dois pontos na América Latina merecem sabatina, conferência em nome da decência. Gente que só faz roubar. E o mundo inteiro aplaude, esquecendo que a fraude lá no Norte é verdadeira coqueluche. E não há quem não se reporte, por exemplo, à Flórida de Bush.

As urnas deram a vitória e toda a glória a Nicolás Maduro. No duro. Mas em nossa tela, a mídia insiste em contrariar a Venezuela. Deturpa-se o sistema eleitoral, que nada tem de manual. Em tremenda malandragem, com apoio declarado, dão voz só ao derrotado para pedir a recontagem. Tudo para criar um clima hostil. Mas não se lembram de que o modelo de lá é bem mais avançado do que o usado no Brasil.

Enquanto isso, na potência sem clemência, a maratona encontrou seu trágico final. Bombas caseiras de terroristas amadores causaram muitas dores. Susto nos corredores. Para o público, fatal. O mundo envia os sentimentos – como não poderia deixar de ser – mas se esquece de todos os momentos em que os EUA causam o sofrer. Claro que nada justifica, mas podia dar a dica para nunca mais fazer. Difícil é fazê-los entender.

E tem caçada na cidade. De verdade. Toque de recolher. Nas ruas, quietude. É a hora do embate, chama toda a SWAT, parece Hollywood. Vai entender? Quando eles têm problemas, vira cena de cinema ou programa de tevê. Quando explode uma fábrica, não se pensa em acidente. Culpa de ser tão reincidente. Quem mandou plantar essa semente? O que sobra do episódio, além da dor, é a lição de que plantar ódio só faz colher terror.

Enfim em andamento, o julgamento do massacre do Carandiru. Tabu. Quem sabe assim não cai o véu e se perceba quem é réu? No tribunal, mais que a força policial, julga-se de verdade, toda a sociedade. A classe média não sai de seu conforto, mas apoia ideia (panaceia) de que bandido bom é bandido morto. Passa mal o jurado, mas não passam os julgados. A chacina foi faxina da degradação humana. Há quem defenda o soneto e a emenda. Triste ver que quem puxa esse gatilho é legítimo filho da sociedade paulistana. E brasileira. Quase inteira. Que drama.

Avisa ao Ministro da Fazenda que declarar a minha renda mais parece inquisição. Fome de leão. Reclama a classe média: não aguento tanto imposto. Isto posto, vão dizer que é melhor ser preso e sustentado pelo Estado. Inventarão bolsa e pensão, nunca viram a real humilhação. Até porque “cidadão decente” não defende aquela gente. Gente de bem vale pelo que tem. Descarrega na penitenciária o infeliz que escapou dos carandirus e candelárias.

Na ação cotidiana, peço a conta, por favor. Mas não conta pro Obama, que se acha bem bacana, que a carta para ele tem veneno. Vale apenas um aceno. Ou todo um jogo de cena. A luta entre a liberdade e a democracia. Dignidade e alforria. Esperando algo mais nobre, pensemos no reverso. Mas os presos são quase todos pretos, quase pretos de tão pobres, como cantado em verso.

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Intervenções

  1. Alexandre Bollmann

    O texto todo está ótimo, além de servir de base para minha provável futura monografia em crimonologia crítica. Mas já não precisaria mais nada ser dito, se o texto mantivesse ao menos esta única frase, triste e verdadeira: “O que sobra do episódio, além da dor, é a lição de que plantar ódio só faz colher terror.” Já valeu o domingo! Abraço grande!

  2. Muito bom, irmão!

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