Educação em ruínas

educacaoemrevista.wordpress.comTinha 22 anos quando cruzei pela primeira vez aqueles corredores para lecionar à noite. Estranhava modos, jeitos, trejeitos. Estranhava o vocabulário e a falta de cortesia. Aprendi outra forma de expressão. Valeu, shock! Aprendi que eles não iam pra lá só pra aprender. Eles também queriam ensinar, eles queriam ser protagonistas da aula e da vida e a mim cabia o papel de estimular-lhes a verve criativa, política, cidadã.
A despeito do desânimo de profissionais massacrados por diferentes gestões estaduais de educação, seguia com um pequeno grupo dado a sandices, grupo do “apesar”. Grupo que errava tentando acertar, grupo que tirava o troco pouco quase nada do bolso para investir em material para incentivar o protagonismo. Grupo reconhecido a cada nova formatura pelo conjunto de alunos que manifestava carinho em forma de homenagem.
O mesmo grupo que agora de conjunto só guarda a lembrança. Separado, mas não afastado, esse grupo segue entre utópico e saudosista. Cada professor em uma escola, uma nova realidade; outros fora dela, destino a que muitos se rendem. Vivemos no modo de produção capitalista. É preciso vender a força de trabalho.
Aquela escola de 15 anos atrás já não existe. Não, não foi Heráclito que disse. Foi o professor de geografia meu amigo que lá esteve em busca de um documento. A vida que pulsava naquelas 17 turmas – terrível a 1004, sempre terrível! Que saudades do Sanchaine, aquele moleque inquieto e desafiador de cabelos cacheados e resposta na ponta da língua! -, pois bem, a vida que pulsava se dispersou em 4 salas de aula.
A escola não tem direção. Literalmente. Quem busca um documento oficial não tem quem o assine. Ninguém responde por ela, ninguém a quem se recorrer, ninguém a quem se responsabilizar. Contagem regressiva para o cerrar definitivo de portas. Antes as estratégias eram mais sutis. Implantavam o Telecurso em paralelo às aulas. Um conjunto expressivo de alunos migrava para o engodo monológico. Depois, por falta de pagamento, o projeto ficava pela metade e, para não prejudicar os alunos, a escola os acolhia novamente nas turmas. Eles vinham confusos, envergonhados como se estivessem a querer passar a perna nos demais, quando apenas exerciam o direito de escolha diante das possibilidades de formação oferecidas.
O projeto de destruição da rede estadual está a pleno vapor. Não bastassem todos os prédios alugados, todo tipo de terceirização, todo tipo de opressão – assédio moral, liminar contra exercício do direito de greve – o que se vê claramente agora é mais um desrespeito para contabilizar a desimportância das necessidades dos mais pobres. Agora extingue-se a possibilidade de dar acesso à escolarização àqueles que não o puderam fazer na “idade própria”, extingue-se a “oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência” (LDB, art. 4º, inciso VII).
Quem construiu a Tebas das sete portas? Quem estabelece o dialogismo pedagógico como norte? Quem precisa de espaços para exercitar as falas não consensuais? Qual é, por excelência, o espaço de circulação de novas ideias e saberes e sabores? Tantas histórias, quantas perguntas…

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Categorias: Crítica, Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Educação em ruínas

  1. marcelo

    É Aline, já pegaste a época negra do fechamento dos Brizolões. Aquilo sim foi um projeto completo de educação que despertava o interesse do aluno em permanecer na escola, era atrativa como tem que ser para fixar o aluno no espaço estudantil e, que não resistiu ao bombardeio da mídia marrom, cor e cérebro cheio de b., que passou a ter força na década de 80 no “processo de democratização” do país.
    Termino te parabenizando e propondo uma trilha sonora, que apesar de “vintage” permanece atualíssima.
    Começa com “Que país é este?..”, Daí se lutarmos muito vamos para “Brasil mostra tua cara…” Para finalizar com “Eu só quero é ser feliz, Andar tranquilamente onde eu nasci….”
    Abraço e RENOVA BRASIL!

    • Aline Silva

      Pois é, Marcelo. O projeto de Darcy Ribeiro era realmente promissor. Temo, no entanto, que se confunda processo de democratização no país e liberdade de imprensa com processo de monopolização das mídias nada democráticas e libertinagem de imprensa. O repertório selecionado por você muito me agrada. Agradeço a leitura e o comentário. Seja bem-vindo! Esteja à vontade!

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