Revoluções, Involuções, Florações…

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Nesta quinta, mais uma vez cumpri um ritual. Ir a um bar que sempre tento que seja português, com minha camisa do Partido Comunista Português, uma pequena garrafa de vinho português presenteada pelo meu querido André Conforte, minha bandeira de Portugal e “Grândola, Vila Morena”, composição de Zeca Afonso que serviu de senha para o início da Revolução dos Cravos no mp3 e na mente, em sotaque português e tudo. Por poucas horas, ali na Muda, algumas boas talagadas de geladíssima cerveja e goles de vinho do Porto, bandeira lusa desfraldada, brotou e se ergueu um metro quadrado de consonante Portugal em riste e floral. Já não era só Portugal, era querer fazer, querer ser.

Pra quem ainda não percebeu, Portugal me encanta muito. E a Revolução dos Cravos é um processo empolgante, arrebatador, sem falar em seu rastro de lirismo, representado na entrega de flores aos soldados pela população celebrando a plenos pulmões nas ruas e entoando ao lado do hino português, a canção que se tornou o canto de liberdade permanente em terras lusas. Aliás, a extensão e sentido histórico do processo ultrapassa em muito o país, encaminhando-se pelo Atlântico, vai ser liberdade também em África para cinco nações: Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Enfim livres pelos ventos de abril…

25 de abril

[Artistas e intelectuais na casa de Saramago e de Pilar cantando “Grândola…”]

E já que tamos a prosear sobre a Revolução dos Cravos, tema em parte já abordado em Apertos, aberturas, abris, há poucas semanas, aproveitando a deixa, e gerando a sempre habitual digressão (mas, desta vez, nem tanto), é oportuno lembrar o filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros. O filme é de 2000, produção portuguesa e conta a noite de 24 para 25 de abril de 1974 numa versão ainda mais lírica, tendo por pano de fundo uma envolvente história de amor. Filme emocionante e tem, de quebra, a trilha sonora do Madredeus. Um dos grandes filmes de toda a minha vida!

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Álvaro Cunhal, 1913-2005

Neste ano, ainda há o centenário de Álvaro Cunhal, falecido em 2005, possivelmente, o mais emblemático Secretário-Geral do PCportuguês e perseguidíssimo durante a vigência do governo fascista em terras lusas. Camarada Cunhal, PRESENTE!

25 de abril sempre, como dizem os tugas. Mas, hoje, Portugal lembra tão pouco a empolgação de 1974. Portugal, Espanha e Grécia. As três nações que seguiram com governos fascistas após a 2ª Guerra são as mesmas que ficaram à margem do desenvolvimento europeu central (em moldes capitalistas, claro!). Mas aí é uma daquelas questões ovo-galinha: ficaram à margem por terem prosseguido “desalinhadas”, devido aos governos fascistas ou permaneceram tanto tempo no pós-Guerra governadas por esses governos por já estarem à margem?

A questão é que hoje os trabalhadores desses cantos da Europa parecem ser os mais precarizados. Em meio a tudo isso, os partidos comunistas locais parecem estar conseguindo se tornar referências crescentes pras populações. Infelizmente, também cresce a escória nazista. Crises como essas, sempre abrem espaço pra essa extrapolação capitalista de extremíssima direita. No fundo, uma radicalização do sempre excludente capitalismo.

Nesta quinta-feira, 25 de abril, o professor Giovanni Alves disponibilizou seu documentário sobre a crise atual de Portugal. Fica a dica.

É preciso refletir sobre Abril. No entanto, mais preciso ainda é ir além d’Abril!

As crises do capital não são um infortúnio. São intrínsecas ao seu próprio funcionamento. O capitalismo vive de tensionar um elástico, o do próprio mecanismo de reprodução do capital. É bem simples. O sistema, pra funcionar bem e fazer sentido nos moldes em que se propõe, precisa de poucos muito bem estabelecidos e muitíssimos ferrados na vida. Ocorre que os ferrados não podem estar tão prejudicados que não mais possam consumir os bens dessa minoria. Isso é que reproduz capital. É uma relação delicada e que está sempre sujeita a “desajustes”. Daí as crises, por isso estruturais. A questão é se pode se dar uma crise que interrompa de modo irreversível o mecanismo de reprodução. Não esqueçamos, contudo, que o capitalismo é muito flexível. Há, por exemplo, as guerras como grandes repositórios de capital; há os mercados ainda não suficientemente integrados ao capitalismo mundial, parte da Ásia, com destaque para grande parte da população chinesa e indiana, muito do mundo muçulmano, a maior parte do continente africano; há o capital especulativo que é risco, mas também benesse pro próprio capital. Enfim, não dá pra profetizar nenhum fim do sistema por apodrecimento. E mais, o socialismo não é algo que possa vir a suceder o capitalismo por osmose ou determinismo histórico. Ele há de ser construído. E isso já começou: 1917, a resistente Cuba, Rosas Luxemburgos, Gramscis, Fideis, Ches, Lenines, Bukharins e outros mais por vir. É preciso disputar a sociedade na base do sistema e em sua ideologia, tarefas trabalhosas, árduas e prolongadas. É preciso lembrarmos sempre que, afinal, o socialismo não é uma contraposição do capitalismo, mas sim sua proposição de superação, segundo os pressupostos marxianos (marxiano se refere ao que é do próprio Marx, ao passo que marxista, ao que é sobre Marx).

Há mais de uma década os Partidos Comunistas do globo têm se encontrado e debatido a conjuntura e a estrutura do mundo. Animador! Não se sabe ainda no que isso dará. Eu gostaria que se construísse daí a IV Internacional, mas isso não está dado. De todo modo, é um patamar já superior de observação, discussão e intervenção em favor dos trabalhadores.

Com certeza, o momento em todo o globo é de preocupação pra uma perspectiva exitosa de enfrentamento com o capital. Há décadas, a cada novo movimento popular, a cada manifestação, ouço alvoroços de retomada de mobilização, etc. Na verdade, sou um pouco pessimista quanto a essas avaliações. Como dizia Lênin, “pessimista na análise, otimista na ação”. Creio que, desde o fim do Leste Europeu, a situação piorou muito tanto em nível material quanto ideológico. O bloco socialista era um importante referencial no plano concreto, já que levava a ganhos também os trabalhadores do mundo capitalista e desempenhava importante papel na referência, com todos os problemas que lá houvesse, de contraposição cultural ao capital. Um exemplinho bem simples que sempre repito. Houvesse bloco socialista, alguém tem dúvida que, por exemplo, as pesquisas de cura pra aids estariam já há anos noutro patamar em todo o mundo? É verdade que havia a Guerra Fria, mas tudo tem um preço, né? Era melhor que a guerra cotidiana promovida hoje contra os mais básicos direitos trabalhistas em todo o mundo.

Desde o estabelecimento global do neoliberalismo, voraz e violento que é, nossas lutas se tornaram defensivas. Perdemos a perspectiva de proposição. Quem só resiste, pode impedir que o muro desabe sobre si, mas continua com a pressão do muro sobre seus braços. Isso tem sido a nossa luta. Sempre estamos a correr atrás do prejuízo e nossa pauta de lutas não mais nos pertence; é toda ela estabelecida por nossos inimigos.

Brecht já falara sobre momentos como esse:

Aos vacilantes (Bertold Brecht)

Você diz:

nossa causa vai mal.

As trevas aumentam.

Nossas forças diminuem.

Depois de termos lutado tantos anos,

estamos numa situação pior do que a do começo.

E o inimigo está mais forte do que nunca.

(…)

Cometemos erros, não se pode negar.

Nosso efetivo está reduzido.

Nosso discurso está confuso;

e uma parte das nossas palavras

foi distorcida pelo adversário até se tornar irreconhecível.

O que é que está errado no que nós dissemos?

Alguns pontos? Ou tudo?

Com quem devemos contar, ainda?

Somos apenas os restos de um naufrágio que o rio deixou

nas margens, abandonados,

antes de continuar sua viagem?

Estamos ultrapassados?

Não compreendemos mais nada

e ninguém mais nos compreende?

Precisamos ter sorte?

É o que você pergunta.

Mas não espere resposta

a não ser de você mesmo.

[tradução: Leandro Konder]

A resposta que sempre encontro em mim mesmo é que há de se ter, como guia, a perspectiva histórica. O primeiro artesão que se estabeleceu no primeiro burgo, embora não tivesse a menor consciência disto, já estava a construir a Revolução Francesa. Penso que se trata disso. A construção da Revolução Socialista, qualquer que seja sua história, não será feita tão somente pelos que vivenciarem in loco e in tempora esse processo. Cada esforço que tenha feito parte desse percurso histórico já é a construção da própria revolução. É assim que poderemos arrancar as alegrias ao futuro de que nos falara Maiakóvski, como quem arranca cravos e os empunha sobre fuzis.

É preciso ambicionar a primavera inteira em esplendor. Contentar-se com a sobrevivência ou floração desta ou daquela flor, por mais que seja aprazível ou visualmente belo, não faz desabrochar o mundo que há por vir, em novidades de humanidades ainda não alcançadas (é esse todo o esplendor em que creio!), e nos riscos, claro, que envolve a busca por essas flores a nascer…

mafalda- flor

“Que a terra gema em sua mole indolência:
“Não viole o verde das minhas primaveras!”
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!””

[Trecho do poema Blusa Fátua, de Maiakóvski, tradução: Augusto de Campos]

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Categorias: Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , | 2 Comentários

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