O povo sumiu?

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Número de desempregados na Espanha

Depois do feriado de ontem pelo mundo, documentado em notícias e imagens pelos jornais de ampla circulação, me pergunto: será que alguém acredita nessa cobertura pífia do feriado no Brasil?

Ao comparar abordagens das manifestações em diferentes continentes, qualquer leitor se depara com uma diversidade estonteante de culturas e clamores, alguns mais pacíficos, outros nem tanto. São cartazes, faixas, instrumentos musicais, vestimentas repletas de simbolismo, nudez vestida de simbolismo também, bombas de gás lacrimogêneo: a proliferação do protesto estampado em cada matéria, em cada fotografia. Turquia, Índia, Sri Lanka, Bangladesh, Nepal, Taiwan, Grécia, Indonésia, Rússia, Estados Unidos, Canadá, Itália, Portugal, França, República Tcheca, Alemanha, Espanha, Albânia, Lituânia, Líbano, El Salvador, Cuba, Costa Rica, Chile, México, Bolívia. Não, não estou citando os países que participarão da próxima Copa nem das Olimpíadas. Esses são apenas alguns daqueles que tiveram seu Primeiro de Maio registrado em jornais de terra brasilis.

Protesta-se contra o desemprego, a Troika, contra condições diferenciadas de trabalho entre homens e mulheres, entre nativos e imigrantes, defendem-se a profissão mais antiga do mundo, as melhorias das condições de vida, o funcionalismo público, a reforma no sistema de imigração norte-americano, criticam-se a visita de Obama, as privatizações, homenageia-se Chávez, repudia-se a ação de grupos neonazistas alemães.

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Show para brasileiros

E o Brasil? O que os brasileiros fizeram nesse Primeiro de Maio? Bom, os brasileiros foram a shows e, de acordo com o jornal O Globo, eles também vaiaram a CUT quando seus representantes foram aos microfones tratar da questão da regulação de mídias numa manifestação em São Paulo. Não, manifestação não, que isso só acontece fora do Brasil; aqui dentro a palavra usada é comemoração, ou como consta no site Terra, missas e eventos sindicais. Tudo mostrado com viés festivo: ranço dos tempos de Vargas, o Pai dos Pobres.

Ao nos determos, porém, na leitura da matéria, quão grande não é a nossa surpresa quando verificamos que os vaiados foram os políticos presentes ao Ato e não a CUT.

Vejamos o primeiro parágrafo: “Em ato político marcado pelas vaias do público, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) iniciou ontem, em São Bernardo do Campo (SP), a coleta de assinaturas para a apresentação de um projeto de iniciativa popular de controle da mídia”.

A manipulação na seleção vocabular cria a ideia de que há rejeição popular unânime em relação à CUT e ao projeto, que estaria ligado à censura, ao “controle”, quando, na verdade, o que se busca é a regulamentação do previsto em constituição, permitindo a ampliação da liberdade de expressão e o fim dos monopólios familiares nos diferentes meios de comunicação brasileiros. Para mais esclarecimentos e adesão à causa (tamo junto!), vejam http://www.paraexpressaraliberdade.org.br/index.php/2013-04-30-15-58-11

democratização midia

Por uma Lei da Mídia Democrática

Agora o último parágrafo: “No momento do ato político, houve vaias às autoridades políticas, o que levou o apresentador a, em mais de uma oportunidade, pedir ao público que parasse de vaiar”.

Na galeria de fotos- boa fonte para se analisar a interação com o texto verbal, as sutilezas ou ausência delas na perpetuação de estigmas -, na galeria de fotos, a primeira foto não era de ninguém mais ninguém menos que Aécio Neves. Na sequência, vemos Gilberto Carvalho, Fernando Haddad, Eduardo Campos. Cadê o povo, caramba??? Até no Dia do Trabalhador, mídia e políticos querem fazer o povo de espectador!!!

A combinação entre textos e imagens que refletiam o mundo mostra interação, sentimento de pertencimento, consciência política. Na combinação que mostra o Brasil, somos meros receptores de discursos de políticos, que, mesmo vaiados, têm lugar de destaque nas reportagens sobre o Dia. E a vaia é o nível máximo de protesto a que nos permitimos? Será mesmo? Tenho minhas dúvidas tanto sobre a realidade quanto sobre a cobertura dela.

e agora jose

Termino drummondiano indignada:

E agora, José? A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu (…).

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Categorias: Crítica, Cultura, Mídia, Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , | 1 Comentário

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