Sexta de textos: na cesta das ideias de Ana Souto

A bondade desarma

Este Primeiro de Maio tive um sonho

O lugar chama-se Arsenal da Esperança.  Embatuco. Que armas deveria conter  um arsenal destes? Logo avisto alguma pista no marco central da praça onde está escrito “A bondade desarma”. Faz sentido. Pessoas que costumam portar bondade, não costumam portar armas. Mas a bondade seria uma arma ? É Primeiro de Maio, vou  à Mostra de Teatro, produzida por uma cia teatral que desenvolve seu trabalho ali. O traço comum entre os grupos teatrais que vamos ver, me disseram, é se dedicarem ao chamado “ teatro político”. Embatuco. Algum teatro não é político ? O stand up, por exemplo, não é político até o último grau ? Como rir, por exemplo, de uma piada racista, se a pessoa não estiver ideológica e politicamente alinhada com a ideia de que há comportamentos, traços humanos, situações sociais em que a diferença da cor da pele produz situações hilariantes ? E como se pode achar graça em uma piada que mostra a humilhação de um ser humano por outro, se a pessoa não compreender como se organiza sua sociedade? Nenhum espetáculo teatral escapa à sina de ser um evento efémero, em um tempo e local específicos, que as pessoas só poderão apreciar se conhecerem os valores e a forma como se organiza  seu  tempo e lugar. O complexo de prédios do Arsenal já se chamou Hospedaria do Imigrante. Na entrada há um painel dos rostos do Velho Mundo que aqui chegaram no começo do século XX, fugindo da fome e das dificuldades, em busca da terra prometida de  Pindorama. Baixo os olhos do painel e rostos mestiços me engolem. São homens do Novo Mundo que chegaram aqui, no começo do Século XXI, fugindo da fome e das dificuldades, em busca da terra prometida de Piratininga.  A primeira peça começa.  Chama-se “Aqui não, senhor patrão”. Jovens atores, vozes treinadas cantam, percutem seus corpos, dançam e dão saltos acrobáticos. Mostram a perversidade do mercado do trabalho, demonstram em uma fábrica de botas imaginária como se reproduz a riqueza do patrão e a pobreza do operário. Quase todos têm traços a lembrar os rostos do painel. Os da plateia devoram a plástica e os olhos azuis da atriz e recomendam, uns aos outros, a ducha, em voz comedida. Sussurram: essa atriz é boooa. A bondade seria uma arma?  Em seguida, um trio de atores mostra o drama de três operários em construção que não têm habitação e quando a inventam ela é chamada de invasão. Na plateia alguns riem de todos os espelhos da própria desgraça, outros parecem pensativos. Um ator entoa sambas antigos que quase ninguém conhece mas escutam calados e batucam. Vem a próxima trupe, em farsa rasgada, cantar a sina um Fulano Bosta N´água que teve a ideia brilhante de fazer um barraco-anfíbio para boiar nas enchentes mas que vai parar no bairro dos emergentes e tem de se haver com a polícia. A plateia ri e bate palmas, longa e calorosamente. A execução das canções é virtuosa e outras histórias entram em cena : um ponto de ônibus tornado privado, o garoto que para comer aquela gostosa vende a alma e o corpo para o diabo. Disso toda a plateia entende. Não precisa ler Engels, que ali quase não tem viado. Foi o que me disse um deles, antes do intervalo, acrescido do comentário cuidadoso : viado é homem como qualquer outro, aqui todo mundo é fodido, me desculpa a palavra. Voltamos da pausa ao som de um violino que destrincha o julgamento, em um tribunal- abatedouro, da chacina de Eldorado dos Carajás, bom cenário para contar as cabeças abatidas pelas injustiças sociais  de nossa nau governada pela ambição : aos milhares, índios, pretos, todos pobres. Anoiteceu, as luzes se acenderam, a atmosfera ganha algo de solene e o piano antropofágico traz Mario de Andrade e seu ódio ao burguês,  em versos estopim acendendo olhos e convocando a  coluna ereta da plateia que não se esvazia, só aumenta. Olhos abertos, rostos compungidos e uma atriz solitária no centro da cena reproduz a fala de uma Mãe de Maio para que não esqueçamos quem foi que matou seu filho. Antes que nossos corações se partam,  vem ainda um Brecht,  que de tão bem adaptado, parece ter saído do forno da padaria da casa só para demonstrar que em lugar e tempo onde o homem explora o homem, a regra é o Estado de Exceção e quase ninguém acredita na bondade.  Mas a bondade, como disse o mesmo Brecht, fracassa não porque é boa mas porque é fraca. Finda a maratona, ninguém acusa cansaço e um dos albergados comenta que queria saber como é que os artistas conseguem criar aquilo tudo. Não é tão fácil agora distinguir os atores, os convidados, os albergados. Somos mulheres e homens iguais nos direitos, diferentes nas necessidades, que escolheram passar em celebração teatral o Primeiro de Maio. Foi bom como costumam ser os encontros fraternos. Foi um Primeiro de Maio em que sonhei com um futuro em que não haja arsenais e não seja preciso ter esperança.

 

Ana Souto ainda não se convenceu que é nossa colunista de sexta. Insiste em ser colaboradora. Deixemos que ela pense que é esporádico. Desde que continue sempre às sextas conosco. Afinal, algo deve inspirar nosso final de semana!

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