Um cinema de cor

Pedro Almodovar - Logo 2

Começo com a promessa da relativa brevidade neste artigo em que pretendo não fazer lá grandes análises, mas dividir uns achismos aqui e acolá sobre um diretor de cinema que está dentre meus preferidos, com ênfase: Pedro Almodóvar (assisti a todos os seus longas lançados no Brasil).

Começo por dizer que, de fato, o cinema de Almodóvar é de cor: colorido multissignificativo e, ao mesmo tempo, um cinema que se sabe de cor, não como decorado (a não ser a decoração plástica e cênica, mas jamais no sentido de memorizado), e sim no sentido etimológico latino (cogniscere de cor: “saber com o coração”), com um cinema feito com um coração aceleradamente pulsante.

Pedro Almodóvar não é um cineasta de preciosismos estéticos. Seu cinema não contém os refinamentos estéticos que vemos em diretores outros, também de grande vulto artístico. Não digo isso desmerecendo Almodóvar. Pelo contrário, isso o eleva. O que quero dizer é que se pensamos num Ingmar Bergman, num Fellini, num Wim Wenders… logo vemos primores estéticos no enquadramento, na direção de arte, na luz, na fotografia, etc em que se processa de imediato uma finalidade extasiantemente artística de pleno apuro, resultado duma meticulosidade e certo denodo purista cinematográfico incontestes. Já no diretor espanhol, há um aparente despojamento tacitamente acordado com o telespectador. Quem vai assistir Almodóvar quer cinema à flor da pele e não reflexões, ainda que envolventes, que fluam em estático esteticismo ou se espraiem em metáforas supravisuais.

Almodóvar é fantástico no conjunto, sem alvejar primazia nesse ou naquele quesito estético de composição cinematográfica. A força de suas películas emana dum conjunto desarmonicamente caleidoscópico em personagens, caracterizações e, claro, cores. As cores de Almodóvar definem seu cinema tanto quanto as emoções aflorantes, sem deixar de lado, claro, os grandes elencos.

Trata-se de filmar também idiossincrasias− o que esperar dum sujeito que, sendo mundialmente conhecido− esconde a idade. Os roteiros dele vão do esdrúxulo ao aflitivo-inquietante com a mesma segurança e domínio de cena.

Além de tudo o supracitado, ainda há a trilha dos filmes com canções tom popular, sempre como trunfo de interlocução íntima com seu público.

Sua carreira se inicia com curtas, a maioria inédita in terra brasilis. Em seguida, vem uma fase a que me refiro como almodovaresca e que corresponde a sua real primeira fase pro grande público fora da Espanha. Aí repousa a vertente kitsch-cult do diretor. Se inicia com Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980), de muito rara circulação por aqui, a não ser em circuitos cinéfilos muito restritos. Tendo a oportunidade, não dá pra não ver. É um Almodóvar despojadíssimo e que já inscreve algumas de suas assinaturas cruciais que se perpetuariam: a temática sexual à flor da pele, o humor deslavado, a glamurização do exótico, o gosto pelo espalhafatoso. Esses traços eclodiriam na segunda grande leva de filmes, ainda almodovarescos de que falarei adiante. Essa primeira série cinematográfica que pontuo é composta ainda de Labirinto de paixões (1982), Maus hábitos (1983)−não confundir com o excelente filme mexicano homônimo− e O que eu fiz para merecer isto (1984).

el-deseo-almodovar

A segunda grande safra é também a maior de filmes do diretor e a que lhe valeu o amplo reconhecimento mundial e a impressão duma marca característica. O gosto pelo espalhafatoso se acentua aqui, representada por personagens bizarros/marginais, como Andrea Caracortada, em Kika (1993) ou as situações oscilantes entre tragicômicas e absurdas. Além disso, a coloração tanto cenográfica quanto de indumentária resultam em composição cenográfica que salta aos olhos, numa fotografia de permanente excitação visual, capitaneada por tons predominantemente quentes. Considero que, nessa fase que pretensamente denomino almodovaresca, vemos o mais puro e espanhol Almodóvar possível. Aí o diretor leva adiante um cinema que é a alma espanhola digerida e traduzida em imagens. Mais que isso, penso que esse cinema oferecido aí a nós é a mais pura atualização da perene alma barroca espanhola. Sim, creio que o estilo barroco, com seu gosto pelo espalhafatoso, pelo grotesco, afeito a exageros e extrapolações, entranhou-se na lama do povo e da cultura espanhola, lá fez casa e passou a ser elemento mesmo de intermediação com o mundo. É isso que vemos nessa fase do diretor. E aí repousam seus méritos mais gloriosos: traduzir em imagens o dinamismo desse bem enraizado conflito repousado na lama secular duma cultura inteira. Os filmes que compõem essa fase são todos emblemáticos: Matador (1986), A lei do desejo (1987), Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), primeiro filme de amplo reconhecimento internacional dele, com premiações fora da Espanha, Ata-me (1990), o último com a excelente e premiadíssima atriz Carmen Maura, uma das caras mais características nas películas almodovarescas. Mas também aí se dá a estreia da reconhecidíssima Victoria Abril, De salto alto (1991), Kika (1993), A flor do meu segredo (1995), Carne trêmula (1997), início da consagrada e frutífera parceira com a triz Penélope Cruz, Tudo sobre minha mãe (1999).

Preciso discorrer acerca de Tudo sobre minha mãe. Esse filme, que dialoga, metalinguisticamente, com uma cena despretensiosa de A flor de meu segredo cumpre a função, a meu ver, mais claramente fronteiriça na obra de Almodóvar. Considero uma obra de catarse do próprio diretor consigo mesmo, uma espécie de filme de libertação em que salda alguma espécie de dívida temática, após a qual muda radicalmente sua linguagem visual. Além disso, o filme é duma pujança e grandiloquência incomuns ao formato almodovaresco, de roupagem ainda um tanto despretensiosa e despojada. Penso ser o ponto de ápice de maturidade do diretor.

Após esse filme, o que vemos é outro Almodóvar, na estreia da fase que chamo almodovariana, dum cinema menos “barroco” e de maior rigor plástico. Já em Fale com Ela (2002), é perceptível a mudança. O caleidoscópio de cores fora substituído por uma contraposição polar entre vermelho e azul que perpassa todo o filme com ampla simbologia no que se refere aos estados de espírito em questão. Mesmo na imagem principal de divulgação enfatiza-se o vermelho e o azul. A linguagem agora é de maior sobriedade, a câmera um pouco menos frenética e os roteiros mais retilíneos. A fotografia é de maior nitidez, mais clara. Muitas das penumbras, tão características da fase anterior, desaparecem da tela. De fato, é outro momento de confecção cinematográfica. Nessa fase, supostamente ainda vigente, temos o Má Educação (2004), a meu ver um decepcionante encontro entre Gael García Bernal e Almodóvar, num filme que subutiliza o ator, é roteiristicamente enfadonho e repetitivo, realmente “Mala” educácion, Volver 2006, o mais almodovaresco dentre os almodovarianos, mas já com uma indubitável maturidade/ retilinearidade roteirística, Abraços partidos (2009), um extenso e bem distinto Almodóvar− não confundir com o argentino Abraço partido e, por fim, o magnífico A pele que habito (2011), talvez o filme mais inquietante que já tenha assistido. Aqui Almodóvar atinge os píncaros de sua narrativa de suspense e gosto pelo socialmente degenerado, dando nova dimensão à temática sexual, suas perversões e fantasias que sempre povoaram sua obra, de forma a extrapolar a expectativa possível do público. De fato, magistral.

Além das citadas Carmen Maura, Victoria Abril e Penélope Cruz, atrizes decalcadas de impressões digitais peliculares do diretor, há mais dois atores que definem sua obra: António Banderas (até a lamentável debandada pra Hollywood, depois de Ata-me [ok, ok… ele voltou em A pele que habito, mas desconfio) e Rossy de Palma, que muito bem encarna o gosto do diretor pelo exótico, com sua beleza no mínimo diferente (o fato é que Almodóvar, genial e obsessivo que é, conseguiu fetichizar mesmo a ela [em 1996, a vi no Amarelinho da Cinelândia no Centro do Rio, por ocasião do Festival de Cinema do Rio {bons tempos em que se chegava na hora e se assistia ao filme} e achei , digamos, hum… não consigo definir… deixa pra lá… {mas morria, viu?}]). Cada um desses atores participou de, pelo menos, uns cinco filmes do espanhol.
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Almodóvar é esse eclodir de quereres na tela. Risos, sobressaltos, olhares afoitos, estranhamento, identificação, bem-estar e incômodo num turbilhão tão bem articulado que só pode ser genialismo. Tudo poderia tender ao caótico, e tende tantas vezes, mas o sublime prevalece como saldo geral de cada filme. Revisitando meu início de texto, Almodóvar é um refinamento que não se faz refinar em identidade tangível. É uma satisfação que arrebata o desejo por cinema, por vida! De fato, um cinema colorido pelo coração: de cor, em qualquer sentido (e sonoridade!).

Por fim, o curta Vereadora Antropófaga (2009), que deixo aqui como “brinde”:

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