Entre afagos e safanões: a dor e a delícia de ser carioca

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Grafite na Favela do Metrô – Mangueira – proximidades da UERJ e do Maracanã

Dia desses saí mais cedo do trabalho: coisas para resolver no Centro e uma ida à Confeitaria Manon em busca dos Madrilenhos, que afagam pelo estômago. Tantas as formas de demonstrar amor. Flanando, mas não muito, pela Rua da Carioca, já que o temor do ônibus superlotado me assalta bem antes da hora do rush, deparei-me com um cenário triste: Bar Luiz vazio, vitrines lacunares da Vesúvio, Guitarra de Prata silenciosa.

Por todos os lados, faixas lembravam o tombamento do Bar Luiz como patrimônio cultural, a importância histórica da região, a desapropriação de um espaço de memória carioca devido a um arranjo comercial realizado no ano passado entre a necessitada Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e a empreendedora Opportunity Fundo de Investimento Imobiliário, que comprou nada menos que 18 casarões do lado ímpar da rua por R$ 54 milhões.

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Rua da Carioca – Centro do Rio

Meu coração ficou pesado. Piorou um pouco mais quando o 249 despontou já cheio. Nem tinha dado 17h. Segui viagem apertada, me equilibrando entre aceleradas e frenagens de Pateta, o Rei do Volante, tentando não amassar os tão delicados madrilenhos. Não é por nada, mas, se você tem um namorado que aprecia doces, vale o investimento.

Enquanto segurava duas bolsas, sacolas, etc., pensava no mantra budista e olhava a menina que me incomodava, próxima demais, mas que era a cara da minha sobrinha. Desisti de reclamar. Faltava tão pouco. Avistei o Maracanã (impossível não o fazer), enquanto o ônibus entrava naquela rotatória, fazendo com que os passageiros se recordem centrifugamente que é necessário manter pés firmes e mãos a postos para não serem arremessados contra os demais como bolas de boliche. Meu coração pesou de novo. Nem quero falar da truculência desproporcional utilizada contra os indígenas e ativistas da Aldeia Maracanã ou do desrespeito aos alunos e professores da Escola Municipal Friedenreich, de que tanto se falou por ser modelo de educação bem-sucedida na rede municipal, ou do tanto que se esqueceu da Escola Estadual Anacleto de Medeiros, que funciona dentro da unidade carcerária Evaristo de Moraes, ou desta prisão no Galpão da Quinta, para onde Cabral queria transferir as 23 famílias que ocupavam o antigo Museu do Índio. Bem a cara da nossa democracia tupiniquim: protestou? Vai preso!

Voltando ao Maracanã, a Odebrecht que já faz parte do consórcio responsável pelas obras do estádio abocanhou junto com a americana AEG e a IMX, de Eike Batista, a concessão do grandioso pelos próximos 35 anos. O mesmo Eike que faturou a concessão do Hotel Glória e da Marina da Glória. Agora Thor já pode adesivar seu importado: não sou dono do Rio, mas sou filho do dono.

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Favela do Metrô – Mangueira – proximidades do Maracanã e da UERJ

Na continuação do trajeto pela Rua São Francisco Xavier, várias faixas pedem justiça quanto à desapropriação na Favela do Metrô. A maioria das casas já foi demolida. Eu, que tinha amigos por lá, mas que a vida se encarregou de distanciar, não faço ideia para onde foram. Os APL (para adotar palavrório empresarial – os arranjos produtivos locais) daquele trecho se concentram no comércio de autopeças para motos e prestação de serviços rápidos de conserto e borracharia.

As frases nas faixas reivindicam justiça na desapropriação e autorização para o funcionamento de polo comercial popular amplamente conhecido pelos motoqueiros cariocas.

Desço do ônibus pensativa e, de certa forma, há um mínimo conforto no meu coração antes pesado. As denúncias se espalham. Os protestos vêm de todas as direções. Ainda confio na capacidade de, após experimentada a dor de ser, conseguirmos nos movimentar em práticas democráticas reais.

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Madrilenhos da Confeitaria Manon

Ai, ai… mas protesto de verdade seria ver o Maracanã vazio e o povo todo do lado de fora, uma multidão de pedestres, ciclistas, skatistas, inviabilizando a circulação dos carros que estariam tentando encontrar uma vaga nos modernos estacionamentos construídos com o nosso dinheiro. Agora com licença, preciso dividir uns madrilenhos.

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Categorias: Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , , | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “Entre afagos e safanões: a dor e a delícia de ser carioca

  1. Saudades do Rio que há muitos anos não visito… Cariocas, uni-vos ! Vou ficar muito triste se for aí e encontrar uma versão de Miami. Além disso, recordei, quase fisicamente, da prática do esporte radical de passageiro de ônibus na orla carioca. Que a intrepidez dos motoristas vos inspire! Que o nosso futuro seja mais doce, doce Aline. bjos.

  2. Lourdes Campos

    Viajei com vc Aline nesse busão…Tem q segurar firme mesmo mas de pernas abertas pra equilibar…
    E faço minhas as palavras de Ana Souto, firrrrmezzza irmãos! Não é uma copa…e uma olímpiada q vão acabar com algo q levou milhões de anos pra ser o q é….Não chegarão lá!
    PS. q sorte a do seu namorado….esses madrilenhos me deixaram com água na boca!

  3. marcelo

    Aguardando posição da Justiça que espero sinceramente “tire a venda da cara” para realmente enxergar o que está acontecendo e passar então a zelar pela lisura dos processos licitatórios.

  4. Aline Silva

    Ana e Lourdes, vocês precisam experimentar os Madrilenhos. Para ontem! Ainda é algo bom aqui do Rio. Bjs.

  5. Aline Silva

    Marcelo, as vendas não estão só nos olhos da justiça. O eleitor também tem de retirar as dele. Força para nós.

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