Tantas vidas vivendo por aí IV

por Ana Souto*

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O nome dele é Deolilson, Déo para os íntimos. Sua família é cearense e os pais inventavam nomes para os filhos misturando os próprios: Noilson e Deosdete. Tradição. Uma de suas irmãs, por exemplo, a quem coube um Noisdete se casou com um sujeito do Crato chamado Izildo e lascou no primogênito um Deizildo, sem dó. Conto isso porque alguém já especulou se viria daí algum ressentimento subconsciente que o leva a implicar com a família. Não a sua, em particular, o problema é a instituição, como costuma dizer. E acrescenta que é justamente por isto que se tornou advogado da Vara Cível e Familiar. Gosta de fazer divórcios. Para ele, é o momento que as pessoas recuperam alguma razoabilidade e reparam um equívoco que teve origem no excesso de confiança no imponderável. Para a minha sorte, elas não aprendem, comemora, a banca só cresce.

– Quem pode achar casamento uma boa ideia ? É uma empresa que nasce do contrato entre dois desconhecidos, seus problemas e o compromisso de sexo monogâmico. Ou seja, um acordo que reúne passivos imprevisíveis para garantir o incontinente. No geral funciona razoavelmente mal, mas à medida que as partes se tornam familiares é que a coisa piora. Percebeu a etimologia da desgraça? A  familiaridade sempre arruína de vez esse tipo de contrato. Quem é que quer passar a vida toda fazendo sexo com o parente? Depois têm os filhos, essa espécie de surpresa de Kinder Ovo, que só dão alegria- alegria mesmo  no momento que saem do pacote. Aí é trabalho e despesa que nunca se poderia prever.

O Déo é um tipo popular, cheio de amigos, aliás. Define a amizade como uma sociedade que a gente firma sem contrato, isto é, sem obrigações por escrito, o que aumenta a chance de dar certo. O que não quer dizer imune ao conflito, admite. Mas para isto ele tem outra explicação: aí já é problema do ethos nacional – garante que esse negócio de brasileiro cordial foi mal interpretado.

– Como se sabe, esse brasileiro cordial foi inventado pelo Sergio Buarque de Holanda e ele queria dizer uma coisa muito simples. O brasileiro faz as coisas com o coração. Ou seja, foi um jeito educado que ele encontrou de dizer que é uma gente que não usa a cabeça. Mas aí fizeram uma confusão desgraçada e muito cabra pensa que isto significa que o brasileiro é gentil, uma pessoa de bons modos. Só que não é o caso. Veja quanta cordialidade encarnada em pistola, peixeira e porrete usados para resolver os problemas nacionais conforme ordenam os instintos. Dê uma olhada nos índices de violência e veja a proporção de atentados à integridade da pessoa que nem visam vantagem pecuniária imediata. Pode haver implicações econômicas nos interstícios, mas é briga de parente, vizinho e amigo. Se tudo vai bem, sobra amor. Se degringola, brasileiro não gosta de conversa. Gosta de fofoca, contar e ouvir histórias, lendas e mitos, o que é outra coisa. Brasileiro não gosta de trocar ideias. É como eu digo, só coração. Coraçãozinho de galinha no xinxim.

Para apresentar o Déo como se deve, também tem de se dizer que é bom garfo e faz encontros gastronômicos nos quais adora atiçar o debate político .

– Prove isto, meu filho. Costela assada no bafo, boi tipo exportação, criado em Rondônia, pasto novinho, todo feito em cima de desmatamento recente. Coisa fina. Tem de provar, nem que seja só por patriotismo. Enquanto a gente come esta costela- maravilha, o país vai exportando madeira e carne nobre para a Europa, engorda a reserva de dólares, os caboclinhos da floresta saem daquele atraso, vão pra cidade trabalhar. Mão de obra sobra, salário desce, empresário se anima, faz empresa, governo faz estrada, hidrelétrica, o PIB cresce e a gente vai parar no primeiro mundo sem tomar avião. Aí vêm estes cabras que gostam de vida de índio mais os ecochatos gringos e querem o quê? Além disso, temos larga jurisprudência neste tipo de contencioso… Sejamos pragmáticos. E o século XXI é nosso, pode escrever!

O Déo é um pândego, como dizia a minha avó.

Ana Souto já foi intimada a tomar parte como efetiva aqui no Transversos. Aline Silva, nossa ponte, afirma que Ana já aceitou o convite, mas postergou a cerimônia e que tomará posse apenas em junho.  É o primeiro caso em que  nomeação e  posse sucedem o estágio probatório. Ah! Essas transversões…

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Categorias: Cultura, Reflexões | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Tantas vidas vivendo por aí IV

  1. Aline Silva

    Esse Deo sabe das coisas, hein? Como é temeroso virar parente! Aff… Bjs.

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