São demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão.

 

Tenho uma amiga romântica à procura de um relacionamento sério. Quer dizer, tenho mais de um amigo nesta situação mas vou contar a história desta. Vamos dizer que ela se chame Dirce para proteger a identidade de uma mulher que não merecia isso que aconteceu com ela. Mas acontece, né? A Dirce, uma mulher discreta e elegante, pouco mais de quarenta primaveras, começou a receber atenções especiais do novo vizinho. O tipo tem mais ou menos a mesma idade, atraente, sociável, gosta das mesmas bandas, gosta de cachorro e torce para o mesmo time que ela. Parecia livre e desimpedido, ela disse que a princípio não tinha lhe despertado as tais borboletas no estômago mas passadas umas semanas começava a achar que o acaso não existe. A Dirce me disse: repara como ele me trata. Sou testemunha, foi ele quem começou. Pensei recomendar que ela pusesse o buço de molho ao perceber que ele a distinguia pela inteligência. Era assim que se referia à minha amiga : uma mulher articuladíssima! Pela minha observação empírica quando a admiração de um homem por uma mulher começa por aí dificilmente o intercurso avança além do verbal. Mas também admito que deste assunto entendo nada, além de saber que contra os hormônios não há argumentos. O certo é que ela ficava cada vez mais lisonjeada pelas atenções do homem e, contrariando sua natureza habitual, não economizava paciência para explicações ao bofe. Que carecia delas. A Dirce é bem informada, com interesse e conhecimentos razoáveis de assuntos diversos. Em seu círculo social de vizinhos e velhos amigos de escola, um composto heterogéneo de gente com as mais variadas ocupações, podem rolar conversas sobre cinema, política, viagens, bobagem, futebol, artes ou palestras sobre armamento nuclear e outras coisas cabeludas. Para muitos destes assuntos o guapo precisava de curso introdutório ou um glossário básico, os quais Dirce provia com generosidade. Não demora nada, o vizinho estava lhe confidenciando questões profissionais : ele tem uma pequena empresa, ela trabalha com marketing. Testemunhei alguma conversa entre eles e posso garantir que a atitude do homem não era de um simples curioso. Aproximava seu corpo , mirava seus olhos, dava rápidas escaneadas em seu colo, não a deixava levantar para pegar nada, enfim, estava mais para um apaixonado se esmerando em xavecar  a sua eleita do que um empresário diante de uma consultora.  Meu vaticínio pessimista começou a vacilar: quando o príncipe começa confiar à princesa assuntos do reino, sempre se pode imaginar que alguma proposta de sociedade não tarde.  Zelosa dos interesses das amigas, em um churrasco, casual, resolvi investigar por conta própria porque a coisa não andava nem desandava. Conversa mole vai, cerveja gelada no copo dele vem, admiti: o sujeito parecia mesmo embeiçado. Concluí que nem ele sabia qual das qualidades de Dirce mais o encantavam mas tinha algum receio dela não ser capaz de se apaixonar por um tipo simples (sic) como ele. De fato, deu pistas de que a desenvoltura da poliglota Dirce, que também é bonita, o levava a desejá-la e ao mesmo tempo o assustava – seria capaz de alcançar suas altas qualificações? Pensei em conferir se meu vestido de madrinha estava em boas condições de uso. Afinal, tudo parecia caminhar para um final feliz, desses de último capítulo de novela até o happy hour de morte…sim, até que se deu o desastre. E justamente, ó obras do acaso, no momento em que estávamos em uma mesa de bar da qual eu pretendia partir em breve. Por algum acaso infeliz, o homem se lembrou do Joaquim – não de um Joaquim de piada qualquer mas do juiz que quase virou uma obsessão da imprensa nacional. Deve ser nosso Joaquim mais famoso desde aquele outro, Silvério dos Reis, o célebre da Inconfidência. Todo brasileiro o conhece, eu acho, pois quase tudo já se disse sobre ele: onde, como e por obra de quem nasceu, a biografia juvenil, os problemas de saúde, suas atividades profissionais, suas opiniões controversas, suas frases intempestivas, sua capacidade de criticar qualquer um a qualquer momento e de qualquer jeito, suas muitas viagens pagas pela corte quando em licença de saúde, sua ida com uma jovem bonita a uma ilha de luxo, – até a reforma do seu banheiro já mereceu ampla discussão cívica! Pois bem. Exibindo entusiasmo incomum para um assunto da política, visto que pouco se pronunciava em conversas deste gênero,  o vizinho se pôs a falar alto e discursar com ênfase :  “Se ele sair pra Presidente, estou com ele, vou pra cima,  pego em armas, se for preciso.” Conjecturei que, por se tratar de uma eleição democrática, talvez fosse melhor pegar no título de eleitor, aliás, no dia da votação nem é permitido portar armas, estou errada, Dirce? Achei que ele estava brincando, lógico. Dirce não respondeu. Estava com uma ruga na testa que botox nenhum daria jeito. Espera aí, ela disse. Ele não esperou, acho que nem escutou. “Esse é brasileiro de verdade, patriota, um cara que saiu de baixo, estudou e venceu na vida. Podia ficar na dele comendo quieto como os caras todos mas resolveu botar a boca no trombone porque é macho, é decente, este pode pôr o Brasil nos eixos! ”. Dirce se limitou a soltar um “Bobagem”, quase engasgada de decepção e vergonha. Da minha parte não via o homem tão empolgado desde que o Corinthians perdeu a Libertadores. “ O quê ? Você VIU o julgamento do mensalão pela TV ?!!! Eu vi ! O cara mandou ver, finalmente apareceu o cara que pode dar um jeito nisso tudo, este sim é o cara …” Dirce murchava a olhos vistos mas tentava segurar a onda “Calma, fulano, aquilo lá, tirando o teatro…” “ Teatro?!! Ele provou a sujeirada toda, a maior roubalheira da história do Brasil! Você vai dizer que foi teatro?!! Ela entende de teatro, foi teatro, Aninha?!!” O colega ia ficando vermelho feito um crisântemo enquanto a Dirce empalidecia como uma margarida. Comecei a suar frio mas resolvi pegar pesado aproveitando a deixa e tentando poupar a amiga de enfrentar, de súbito, tanto furor cívico. “ Não digo que foi teatro porque teatro é uma coisa honesta, as pessoas pagam ingresso mas sabem que vão ver muita fantasia travestida de realidade. Agora, só mesmo curiosidade, amigo. Você tem formação em Direito ou qualquer coisa assim?” Ele respondeu com um não ofendido e antes que continuasse, tentei avançar com a ideia “Calma, eu também conheço nicas de Direito Penal e Constitucional. O que mais fiz foi ler análises e mais análises e, pelo que entendi até agora, há uma tese de que não foi um julgamento mas uma jogada política e é uma tese bastante plausível. Até onde li, de respeitáveis analistas, o processo tem furos e não se sustenta até a execução das penas propostas. Se for revisto, vai ter suposto culpado saindo inocentado pelo simples fato de que a Justiça não é infalível e neste caso, pode ter falhado. E em qualquer caso acho bobagem nós, os ignorantes da matéria, sairmos reproduzindo essa campanha de heroicização deste juiz que também não tem nada de santo. Espera aí que vou acessar aqui uma matéria que tem até documentos…”.  Foi o que bastou. O tipo ficou próximo do enfurecido. Partiu para o ataque em variações da canção de amor incondicional ao Joaquim. Em vão Dirce tentava levá-lo à discussão serena, à ponderação das razões que apoiavam nosso ponto de vista diferentes do dele, pedindo que confrontássemos argumentos, ponto a ponto. Não teve jeito. Com um olhar de sincero rancor, deixou-nos entregues às nossas opiniões e ainda brindou Dirce com este diamante de ingratidão “ E eu que pensava que você era uma mulher inteligente! ( sic) ” Dirce é romântica mas não é boboca. Pediu uma cerveja para brindar o ocaso de um quase caso de roubada “Já pensou se, por acaso, me envolvo pra valer como o cara, um dia acordo e me dou conta que ele é um sem noção que não tem medo do ridículo?”. Como ela parecia ter voltado a si, parti para consolá-la na base da filosofia de botequim. A vida é assim mesmo. Cheia de acasos felizes e infelizes. Alguns, inclusive, nem isso: muitos viajantes já se perderam no deserto por alucinações da sede, a correr atrás de oásis imaginários. Rimos, aproveitamos para assuntos mais amenos e fui embora pensando. A Dirce tem o desejo de encontrar alguém do sexo oposto para algo mais que sexo. O vizinho, acredito, tem o desejo de ver sumir num passe de mágica alguns dos problemas nacionais como a corrupção. O acaso quase os reúne, uma discussão surgida ao acaso mostrou, mais uma vez, que nem tudo que parece é. Como disse alguém, às vezes é uma sorte não conseguir o que se deseja. Acho que, no fundo, ninguém deixa de desejar que o acaso traga melhoras à vidinha ou que a Lei das Probabilidades nos favoreça. Mesmo que nestes tempos filistinos seja um tal de falar “que nada é por acaso” e eu tema o dia que vão instalar um oráculo de Delfos em plena praça da Sé.

Daí que, não por acaso, me lembrei da canção do Vinícius de Moraes para dar este título e também do Dia da Criação, delicioso poema canção que partilho em homenagem a um dos mais sedutores poetas desta nossa língua. Me diverte muito, principalmente a parte que diz  “há um beber e um dar sem conta ( porque hoje é sábado) e há uma infeliz que vai de tonta…”. É fato e pode acontecer com qualquer um. Não só no sábado – e no campo da política como por quaisquer outras paixões, é claro.

Anúncios
Categorias: Sociedade | Tags: | 7 Comentários

Navegação de Posts

7 opiniões sobre “São demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão.

  1. Fátima Andrade

    Um presente nesta sexta cinza!! Valeu Ana souto!!

  2. Clara

    Sensacional Ana Souto, simples e verdadeiro! Amei de paixão!

  3. Ana Souto, “Dia da Criação” é uma coincidência/afinidade muito curiosa. Amanhã cê entenderá. Mas que coisa! 🙂

    • Diz que esse negócio de inter discurso dá muita intersubjetividade e o vice-versa também, compadre, mas acho que isso é conversa de francês. Posta logo, Anderson… curiosa 🙂

  4. Lourdes Campos

    Minha sexta foi intensa… eu e minha bengala superavam alturas….mas sem seu texto…Recuperei agora esse sabor…Quem tem amigos como vc…não fica só, nem na mão…E antes só, do q mal acompanhada, sem dúvida!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: