Doces vândalos

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Os vândalos foram um dos povos “bárbaros” que entraram definitivamente para a História no ano de 455, quando tomaram aquela que fora a capital do mais poderoso império já visto: Roma. Daí passaram a ser sinônimo de destruição, estupidez ou mesmo de anarquia. Culpa da impossibilidade de aceitar qualquer cultura diferente daquela considerada canônica. Narciso acha feio o que não é espelho, diria o doce bárbaro Caetano.

Pilhagens, saques e roubos. Vândalos. Nada diferente do que Roma fez durante sete séculos. Ou do que outros impérios sempre tomaram por padrão fazer. Antônio Vieira – sim o padre barroco do século XVII – contou em um de seus sermões a fala de um pirata ao imperador Alexandre, o Grande: “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”

Muitos séculos se passaram e o Brasil é ainda o retrato da velha Bahia de Gregório de Matos, lugar onde faltam “verdade, honra e vergonha”. Os governantes refinaram a maneira de saquear o erário, de forma a ter na Justiça uma aliada para a defesa de seus interesses. Tudo bem ajeitado e combinado com empreiteiras, concessionárias e – por que não? –, a mídia tradicional. Todos ganham. Exceto quem paga a conta.

Durante um bom tempo não se via qualquer setor mobilizado para ir às ruas. Houve uma clara política de cooptação das lideranças sindicais e estudantis, de modo a atrelá-las a uma “luta burocrática”, na qual os favores de gabinete são mais valiosos que as vozes e faixas nas ruas. Em que pese uma infinidade de acertos deste governo, a luta será sempre mais importante, diminuí-la ou calá-la é um tiro no pé. Especialmente para quem já esteve (ou disse estar) do lado de cá.

Entretanto, a garotada decidiu ouvir o chamado das avenidas e praças. E tal como o céu é do condor, tomaram as vias públicas para protestar. A mídia tentou imediatamente reduzir a motivação dos protestos a vinte centavos. Teve gente que caiu nessa. Ainda que fosse, valeria a pena. Afinal, as escrituras dizem que Judas vendeu Cristo por trinta dinheiros e nossos governantes vendem uma população inteira a vinte centavos. Nem a lei de mercado parece ter valor aqui.

Mas, se vinte centavos são pouco, somem-se os gastos para a Copa. Sim, aquela que iria modificar a mobilidade urbana e acabou por somente construir estádios. Em média, um bilhão por arena. Como são dez arenas, temos dez bilhões de reais em gastos que não incluem nenhuma obra de melhoria urbana nesses locais, diferentemente do que nos fora prometido quando da candidatura a sediar o evento. E aí, vale protestar então por R$10.000.000.000,20?

Se, por um lado, estávamos saudosos de ver uma juventude atuante; por outro, a polícia demonstra sua saudade dos velhos tempos da ditadura. Mais truculenta do que nunca, quebra suas próprias viaturas para culpar os manifestantes. Promove terror, infiltra gente na manifestação para atiçar a baderna… Tudo aquilo que sempre fez. A diferença é que hoje as câmeras não são exclusividade da meia dúzia de famílias que controlam a informação no país. O smartphone e as redes sociais vão mudar a história.

Quantas vezes apanhei da repressão policial diante de fotógrafos de olhares atentos, mas que nunca expuseram a imagem da covardia? Agora há milhares de olhos vigilantes. Há milhares de penas prontas a escrever em um blogue ou em uma rede social. A abundância de fatos é tamanha que nem a imprensa, acostumada a esconder verdades, pôde se calar. Obviamente, que não faz de forma gratuita – o editorial da Folha mostra bem o que a família Frias, por exemplo, pensa da cidade de São Paulo – mas para tentar salvar a máscara que lhe está caindo. Apela para a vitimização corporativa e para a denúncia do vandalismo generalizado.

Nossos governantes vandalizam as contas públicas. Oferecem o que há de pior à população. São eles os “bárbaros”, são eles os “Alexandres”. Tomemos a rua e saibamos apanhar da polícia sem perder a tenacidade: são explorados como os outros. Mais até: além do corpo, estragam-lhes a cabeça, ensinando a lição de morrer pela pátria e viver sem razão, já disse Vandré. E, é na certeza de que as flores vencerão o canhão, que continuaremos caminhando, cantando e seguindo a canção. Afinal, vinte centavos não pagam a dignidade de todo um povo explorado: às ruas, cidadãos!

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Categorias: Política, Sociedade | 20 Comentários

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20 opiniões sobre “Doces vândalos

  1. A do rei ! Emocionou – me logo cedo ! Seu texto está lindo ! Parabéns !

    Ana

    À propósito , Aníbal não está mais às portas . Deixamos que ele entrasse .

  2. Gustavo Fernandes

    Excelente Walace! Bom demais ler um texto como esse num domingo de manhã. E vamos às ruas!

  3. Só para lembrar , guardada as devidas proporções , Gregório de Mattos já dizia : Bahia se escreve com dois ” ff ” , um de furtar , o outro de ….

  4. Fabio Lidio

    Parabéns pelo excelente texto Walace e principalmente pela ligação histórica entre os momentos passados e o presente. É de conteúdos assim que precisamos!

  5. Alexandre Bollmann

    Caraca Walace, mais inspirado do que nunca. Só não gostei da referência que chama de bárbaros os “Alexandres”… Este Alexandre não! rsrsrsrs. Deixando as brincadeiras de lado, reitero o que comecei falando. Gosto de tudo o que escreves, mas o texto de hoje foi realmente especial. Me orgulho de há mais de uma década atrás lembrar que já estivemos lado a lado em alguns dos episódios aos quais você se referiu, onde fotógrafos atentos olhavam aquilo que não ousavam registrar com suas câmeras! Que o uso das novas tecnologias, instrumento eficaz do capitalismo para realimentar cada vez mais a ânsia pelo consumo, possa ser usada exatamente contra aqueles que dominam, agridem e exploram! Abraço grande!

  6. Bullseye!

  7. Republicou isso em Discrepâncias Mentais.

  8. Letícia Pitta

    Você, como sempre, colocando em palavras tudo o que eu penso e não consigo dizer. Parabéns, como sempre.

  9. Roberto

    Muito bom!!!!!!!

  10. Pingback: Doces vândalos | Pavablog

  11. Junior

    MARAVILHOSO, PERFEITO E SENSACIONAL.

  12. Luiz Fernando

    “A quantidade de cacetadas da PM que você leva na vida é inversamente proporcional às chineladas que você deixou de levar dentro de casa. A obsessão da esquerda pelos cassetetes da PM é uma relação quase erótica.” (Luiz Fernando Vaz)

  13. Fabiana Reis

    Muito bom o texto!!! CHEGA de tanta hipocrisia. O Brasil acordou!

  14. Moacir de Sousa

    Esse é Walace Cestari. Isso é Transversos.

  15. Miguel Paul

    Caro professor,

    Embora eu tenha algumas restrições quanto às manifestações, não posso deixar de reconhecer a sensibilidade e a sabedoria contida neste texto! Analise excelente! Parabéns!

  16. Lourdes Campos

    Cara q prazer ler seu texto…Doces vândalos…q encham as ruas definitivamente.

  17. Walace Cestari

    Amigos,

    Só tenho a agradecer a quantidade de comentários, visitas, compartilhamentos traduções (soube hoje que o texto foi traduzido em libras para ser levado a portadores de necessidades especiais – talvez os mais esquecidos pelos governantes).

    Toda essa repercussão só me faz ter a certeza de que estamos do lado certo da luta e que a pena sempre será mais forte que a espada.

    A cada leitor deste texto, aos doces vândalos, meus agradecimentos e admiração. Nosso encontro está marcado nas esquinas das ruas de nossas cidades. Temos ainda um mundo a ganhar.

    Amplexos,
    Walace Cestari

  18. cara….. ALÉM DE DIGNO A COERÊNCIA DE SUAS PALAVRAS FORAM EXATAMENTE OS FATOS….. RELATOU NOSSO SENTIMENTO E NOSSA FRUSTRAÇÃO… JUNTOS POVO CONTRA OS CORRUPTOS,,,,,, COLOQUEM SUA CARA PINTADA NAS RUAS…. NÓS, JOVENS E VELHOS, HOMENS E MULHERES UNIDOS GOVERNO NENHUM PODE CONOSCO!!!

  19. Sara Simões

    Levando pra sala de aula de um colégio estadual na Maré! Parabéns! Obrigada!

  20. Pingback: O preço do feijão não cabe no poema; o da passagem também não | transversos

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