Tempos para o velho e o novo conversarem

E eis que num dia comum, desses que vivem na sombra, uma passeata de milhares virou dezenas de milhares, que viraram milhões, que viraram a mesa. Quebraram a louça, como era de esperar e, com o barulho, quem estava dormindo despertou entre assustado e eufórico, soltou um grito reprimido, olhou para o próprio umbigo e declarou: o Brasil acordou. E logo a TV repetiu e logo um novo meme se espalhou. O Brasil acordou. Era menos verdade. A maioria estava acordada. Uns porque marchavam para o oeste, ao ritmo do Brasil Gigante, outros porque as escavadeiras e misturadeiras de concreto não os deixava dormir. Poucos estavam em berço esplêndido. Uma parcela corria de lá para cá, atrás de fazer para o pão, para o feijão, para o celular bonito, para a TV na estante, para um carrinho popular, porque não ? A sonhar com casa pra casar, mobília pra mobiliar, livros pra estudar, tentar subir mais um degrau na escalada do sucesso e, como tudo tem um preço, iam indo, mas sonolentos. Outra, essa  maioria, ia quase dormindo em pé, chacoalhando e se imprensando: horas para ir ao trabalho,  horas para voltar, horas para ir à escola, que ninguém quer viver de esmola e a vida que se leva, é a vida que se pode levar. Irmãos desses, muitos outros, mais de um quinto, que sequer se espreme na condução – porque se é verdade que restou uma parte que ainda sofre de fome, ônibus também não pode tomar. Maldita pátria mãe gentil, nunca cuidou de todos os filhos com amor e justiça, se engraçando com qualquer turista, tantas vezes madrasta de sua própria prole, tantas vezes incapaz de retirar privilégios daquela menor parte, talvez sonâmbula, que vai em carros potentes, por entre buracos e impostos, se queixando ou dando festas, se isolando em seus castelos ou partido e regressando de avião. Há tantos lugares no mundo e tantos deles, tão bonitos! Fecharam sempre os olhos para o aqui e agora e enquanto podem ou enquanto puderem vão viver da ilusão. Dos outros, bem entendido.

Mas não se consegue esgotar ou compilar numa lista tantos tipos humanos, tantos são, que nem cabem nas estatísticas. Somos 200 milhões, 200 milhões de planos ou impossibilidades. Duzentos milhões de bocas, duzentos pares de olhos que vêm o que podem ver. E eis que em um belo dia, todos acordam assustados. O que eram aquelas passeatas ? Ninguém sabia. Nem quem ia, nem quem não ia. Era menos verdade. Alguns não sabem ainda e só vão saber de ouvir dizer. Outros pensam que sabem. Outros conhecem muito bem. Há séculos os índios marcham, trocando floresta por facão, fugindo de perseguição ou negociando pedacinho do chão, da vasta terra que ocupava. Mas propriedade é invenção estrangeira e os que aqui primeiro chegaram decidiram: a cerca é nossa. Era justa, era legal. E assim, os antigos ocupantes, viraram retirantes, se embolaram com quilombolas sem escolas, viraram favelados sem empregos, viraram sem teto, mendigos na cidade e há quem diga, sempre foram vagabundos. Tudo porque o mundo, tal como eles conheciam, desapareceu sob a bota do capital, da prata, do ouro, do vil metal, que era tudo o que importava aos invasores. Dos invadidos, só restaram alguns, tocados pra fora do mato, pro gado poder pastar e resistem, acantonados, na mais densa floresta que ainda resta no mundo. Este mesmo mundo que vai fundo quando se trata de impor o que querem fazer destino de todo vivente da Terra : consumir. Eles têm um plano, eles querem terreno, sangue novo e jogar veneno, para plantar para o povo, eles dizem. É menos verdade. Muito do que se planta é para o gado ou para fazer andar os carros nas cidades que se entopem. De gente, carro, fumaça, ferro e gasolina. Cidade boa para ricos senhores da era do combustível fóssil que retira ouro negro do mar para sustentar os seus negócios . Mas o mar não está para peixe e o mundo inteiro balança na esperança, na eterna esperança, de que outro mundo seja possível. Seja no Cairo, Madri, Nova York ou Istambul, uma velha história se levanta : os famélicos da terra fazem fila para a sopa, alguns forram o estômago mas ainda têm fome de justiça, não querem só comida, querem sair das correntes, das correntes que parecem eternas . Fotos e mensagem agora cruzam os oceanos em números infinitos e em muitas praças se ouve o grito: somos ou seremos os excluídos ! Se não do sagrado consumo, da liberdade de gozar a vida, a vida, este mistério que passa cada vez mais veloz, como um trem feroz que não se sabe onde vai dar. Parem, queremos conversar.

Foram vozes mais jovens que se encontraram em reuniões pelo mundo, em todas a línguas, cores e desejos. Uns sofrem com os despejos, outros não vêm futuro, muitos não querem este que se avizinha, embrulhado em pele de cadáver de ontem. Querem novos horizontes, querem acabar com a guerra, o desabrigo, a fome e tantos males que nos comem, desde tempos imemoriais. Querem saber porquê o engenho humano, tão potente, mendiga como indigente seus rumos ao capital, à prata, ao ouro, ao vil metal que é tudo que interessa aos velhos. Algumas coisas já sabem. Sabem que estes papéis não valem a tinta que determina o valor de cada uma das vidas. Sabem que as coisas só se estragam para que novas se possa comprar, sabem que o que nos organiza, não é o direito de trabalhar mas o de explorar, enriquecer, tornar-se dono de capital, prata, ouro, vil metal, que é tudo que interessa à grande organização global.  Nos quatro cantos da Terra, suas vozes ecoam. Nós somos o novo e não nos podem parar.

Neste momento abaixo do Equador, velhos, com ou sem dor, suspiram de saudades e medos. Desconfiam dos jovens, dizem, eles não sabem pensar. Seus olhos já viram muito, trilharam caminhos incertos, aprenderam a reconhecer a dureza dos muros, das quinas desimportantes, onde perigos tocaiam.  Os novos aprenderam horizontes largos e caminham com pés descalços, imprudentes, planos definidos, pés no chão mas com o desejo de levitar. Desconfiam que os velhos não sabem sonhar mais. Estes velhos e novos vêm o mesmo ? Ainda não sabem conversar.

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Categorias: Sociedade | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Tempos para o velho e o novo conversarem

  1. Lourdes Campos

    “Ainda não sabem conversar”…Que recorte bom q vc deu…Cheguei atrasada por aqui…se tivesse chegado antes, tava mais aliviada…Vc deu um farol de esperança, olhar o novo sem tanto medo…é preciso!

  2. Fátima Andrade

    “O novo sempre vem”!!! Ainda bem, né Ana?! Amei! Seu texto fala com leveza de assuntos super sérios….e tá tudo ali! Valeu!

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