Em cartaz

Cartaz usado na Marcha da Família com Deus e pela Liberdade em 1964

Cartazes usados na Marcha da Família com Deus e pela Liberdade em 1964

As ruas, como sempre, andam engarrafadas. Se outrora por inúmeros automóveis, agora por cartazes. O cartaz representa a postagem física na materialização da “timeline” de um movimento que não conseguiu definir a foto do perfil. Mas que aglutina cada vez mais seguidores interessados em mostrar sua contribuição. Houve época em que havia muito a ser dito, mas ninguém a quem dizer. Hoje, as redes sociais permitem que se fale a milhares (ou milhões?), porém não se sabe mais o que dizer.

E as ruas estão repletas da heterogeneidade de demandas. Algumas sérias, outras que representam o deboche característico do brasileiro, mas todas expõem algo em comum: são vagas. E em um guarda-chuva tão amplo, cabe a reivindicação de todos. E quanto mais difusos são os objetivos, mais confusa é a leitura do que se quer. Assim, mais vazio o movimento. E isso nos deixa a todos encaFIFAdos.

Não se pode negar que há mobilização pelas ruas do país. E que não é pelos vinte centavos. Mas, então é pelo quê? Uma miríade de ideias surgem para ler os passos jovens que, diferentemente de outras épocas, não mostram a cara. De pintados a mascarados, andam em indecisos cordões, como cantava Vandré. Tive um professor que repetia exaustivamente que “para quem não sabe para onde ir, qualquer ônibus serve”. Mesmo que custe uns centavos a mais.

Entretanto, como modernistas antropofágicos, eles dizem saber o que não querem. E é aí que mora o perigo. A reação contra os partidos de esquerda nas passeatas – organizações que sempre estiveram nas ruas – mostra que existe uma pausa para a agressão e para a intolerância entre os gritos de “sem violência”. É uma democracia própria em que somente alguns têm voz. Exatamente como opera, de maneira macro, a própria sociedade. É, então, quase que uma manifestação de classe. Mas sem a menor classe.

Generalizam-se os partidos, são todos culpados pelas mazelas do país. Generalizam-se os políticos, são todos corruptos e não prestam. Generalizam-se as cobranças e, assim, todo mundo é réu de qualquer crime. Presidente, governador, prefeito, deputados, senadores, juízes, todos são igualmente responsáveis pelo preço das passagens, pelas leis, pela impunidade ou por não atenderem as reivindicações que parecem retiradas de um concurso de miss: do fim da corrupção à paz mundial.

Pero Vaz de Caminha nunca disse, mas ficou famoso pela descrição de que “no Brasil, em se plantando tudo dá”. E, sendo assim, no mar de generalizações, ficou fáscio*, quer dizer, fácil plantar sementes de ideologias que vão contra a própria democracia. Vozes golpistas apareceram e crescem aproveitando-se do momento. Não que sejam dominantes ou mesmo que haja uma ameaça iminente contra a República, mas significa que uma carta que estava fora do baralho foi colocada no jogo novamente. E isso, por si só, já é preocupante.

Tal comportamento deve-se à despolitização exponencial de nossa sociedade. Saímos do período ditatorial e quisemos dar às nossas crianças a chance de viver sem a pressão política dos anos de chumbo. Eles cresceram, tomaram as ruas e agora não sabem o que fazer. O problema é que aparece muita gente dizendo que sabe. E o preço da liberdade é a eterna vigilância como afirmou (será?) Thomas Jefferson (acho que tenho alguns leitores de direita que vão gostar da citação).

A juventude de classe média deu pause no videogame e decidiu questionar o sistema nas ruas. Como a vida não é um simples jogo, foram recebidos com a já conhecida cordialidade policial – experimentada habitualmente por aqueles porta-bandeiras execrados das passeatas. Nesse sentido, o “choque” de realidade compensa: agora eles poderão entender o que sofre a população das comunidades carentes quando das ações policiais. Com a vital diferença, que, para os pobres, não há balas de borracha.

A disputa está sendo travada nas ruas e é nela que devemos ficar. Abandoná-las é fertilizar as sementes daninhas que se estão tentando semear. Devemos reconquistar os espaço e tempo perdidos e mostrar pelo que achamos justo lutar. Apontar que há mais coisas entre o sofá e o monitor que um cartaz pode representar. Ensinar que alguns desses cartazes foram levantados em marchas deletérias do passado. E que, se determinados cartazes continuarem erguidos, essa manifestação não nos representará.

Em tempo: para não fugir das manifestações de 64 e somá-las à modernidade, meu cartaz traria apenas duas reivindicações:

CARTAZ.001

* O fáscio era uma espécie de bastão com uma lâmina semelhante a um machado usado por funcionários romanos para abrir caminho entre o povo para que passassem as autoridades. Posteriormente, deu nome e foi símbolo do fascismo.

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Categorias: Política, Sociedade | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Em cartaz

  1. Alexandre Bollmann

    Walace, obrigado por, mais uma vez, ser minha voz falando fora de mim! Abraço!

  2. Eu tenho lido tantos textos com o mesmo ponto de vista que não tenho mais como me segurar. Concordo em parte com seu ponto de vista no fato de que a massa que tem se reunido para protestar pode ser manipulada e dirigida conforme a vontade do governo e da mídia, entretanto gostaria de contestar um ponto. Por que a esquerda se irrita tanto com o fato de não poder levantar bandeiras durante as manifestações. Não é injusto para com as outras milhares de pessoas que estão lá, levantar uma ideologia com a qual elas não compartilham? Não é essa uma luta da sociedade e não de um conjunto de partidos? Eu por exemplo, não compactuo com os ideais desses partidos e não gostaria de ser representado por eles.

    • Walace Cestari

      Assim sendo, não seria igualmente injusto cada um dos cartazes, já que levantam uma ideologia que também não é compartilhada por todos?

      Provavelmente os partidos não compactuam com os ideais de muita gente das passeatas, mas por que esses partidos não podem também revelar sua insatisfação no momento?

      Afinal, esses partidos estão demonstrando sua insatisfação há tempos, seja em greves e outras manifestações, devidamente ignoradas pela mídia e, por consequência, da maior parte das pessoas que diz que “acordou”.

      Assim, faço a pergunta ao contrário: não seria injusto para quem tem lutado esse tempo todo, estado em vigília durante todo o sono de muitos, que sejam expulsos da rua porque alguns que se acham donos da sociedade?

      Se achar dono da luta do povo não é o erro que acusam os partidos de cometer? Por que cometê-los igual contra os partidos.

      A menos que estejamos defendendo algo diferente da democracia representativa que temos hoje (o que acho justo e digno de uma excelente discussão) esses partidos representam uma parte da sociedade. E fazem parte dela. Por que só uma parte pode se manifestar e outra não?

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