Wish you were here…

são syd

06/01/1946- 07/07/2006

Desde 2006, todo 07/07 é um dia ritualístico. Nele faleceu, aos 60 anos, por diabetes, Roger Kieth Barrett, vulgo e, assim imortalizado, Syd Barrett, uma lenda maior que o próprio músico, fundador e lendário ex-guitarrista e vocalista do Pink Floyd.

Eis meu primeiro artigo floydiano. Espero fazer jus aa responsabilidade da tarefa, ainda mais se tratando de aqui presentificar uma figura tão icônica quanto o Diamante Louco do Floyd.

A canção acima, originalmente, não se pretendeu canção de amor, mas sim uma homenagem a Barrett, tal qual o conjunto do álbum homônimo, que contém ainda mais uma música ao ex-guitarrista, Shine on you crazy Diamond, uma canção em nove partes, com 25 minutos, abrindo e fechando o álbum Wish you were here. Aliás, por falar em letras de amor, desconheço nos 14 álbuns do Pink Floyd uma única letra que seja de amor. Claro que a interpretação sempre contém níveis de relativa liberdade… Mas, de todo modo, pretendo fazer deste um texto de amor, amor floydiano profundo decantado em solos de psicodelia, progressivo, Roque em maiúscula inconteste.

Shine on you crazy diamond

(David Gilmour, Roger Waters, Richard Wright)

 

Remember when you were young,

You shone like the sun.

Shine on you crazy diamond.

Now there’s a look in your eyes,

Like black holes in the sky.

Shine on you crazy diamond.

You were caught on the crossfire

Of childhood and stardom,

Blown on the steel breeze.

Come on you target for faraway laughter,

Come on you stranger, you legend,

You martyr, and shine!

 

You reached for the secret too soon,

You cried for the moon.

Shine on you crazy diamond.

Threatened by shadows at night,

And exposed to the light.

Shine on you crazy diamond.

Well you wore out your welcome

With random precision,

Rode on the steel breeze.

Come on you raver, you seer of visions,

Come on you painter, you piper,

You prisoner, and shine!

 

Nobody knows where you are,

How near or how far.

Shine on you crazy diamond.

Pile on many more layers and

I’ll be joining you there.

Shine on you crazy diamond.

And we’ll bask in the shadow

Of yesterday’s triumph,

And sail on the steel breeze.

Come on you boy child,

You winner and loser,

Come on you miner for truth and delusion,

and shine!

Uma letra pungente! Durante as gravações desse álbum, foi a última vez que Barrett viu seus ex-companheiros de banda. Um dia, de forma aparentemente fortuita, sentou-se nos bancos do estúdio e apreciou um breve momento da gravação do álbum, em 1974, meses antes de seu lançamento em 1975. Richard Wright, o tecladista, foi o primeiro a desconfiar daquele estranho paquerando a gravação, mas só se deu conta disso depois que Syd já havia deixado o estúdio.

Os membros da banda tentaram pouco antes do lançamento do álbum em homenagem a ele, procura-lo. No entanto, foi a própria mãe do ex-Floyd que pediu que a banda nunca mais tentasse contato, pois aquilo deprimia seu filho ao extremo por perceber tudo o que deixara de ser.

Emblemático que após o megassucesso de Dark side of the moon, o primeiro álbum tenha sido esse ajuste de contas emocionais da banda com o ex-integrante. Wish you were here, nome da faixa de maior popularidade e do próprio álbum compõem uma das mais belas homenagens já feitas a um músico pela própria banda.

wish you were here

Imagens para a composição da capa do álbum Wish you were here, de 1975

Esse, aliás, é mais um dos tantos álbuns em que as imagens que o compõem são parte do intenso e inesgotável jogo de decifração que o Pink Floyd sempre nos propõe. Penso que todas as imagens do álbum e do seu encarte versem sobre ausência ou sobre falsas presenças. Vejamos:

pinfloyd9

wish 2

wish 4

wish 3

wish 1

Talvez tenhamos aí a própria metáfora do vínculo e relação da banda com Syd: ausência, mas presença fugidia…

Não é para menos. Possivelmente, a espinha dorsal do que resultaria no Pink Floyd foi o próprio Syd Barrett. Tendo aprendido a tocar guitarra com David Gilmour, que se retiraria pra tentar carreira de modelo na França, depois retornando pra assumir justamente a guitarra de seu ex-pupilo, Barrett foi um pilar da banda Sigma 6, já com Roger Waters, em Cambridge. O curso de Arquitetura já não contemplava Roger Waters nem seu xará Roger (Syd) Barrett. Em 1965, surgia já com Nick Mason na bateria e Richard Wright nos teclados o The Pink Floyd Sound, nome dado por Barrett em homenagem a dois cantores de blues, Pink Anderson e Floyd Council. Pouco tempo depois, já em 1966, a banda já se autodenominava apenas Pink Floyd.

floyd66

Além de batizar a banda, Barrett é a figura de proa: compõe, é letrista principal, vocalista, grande responsável pela sonoridade. O álbum de estreia The piper at the gates of dawn é uma profusão de Barrett. Considerado antológico, traz, como primeira faixa do lado A (na versão britânica; na norte-americana seria See Emily Play), a devastadora Astronomy domine, belo cartão de visitas, canção mais perpetuada desse álbum em shows do Pink Floyd ao longo da carreira.

A escalada do Pink Floyd é meteórica, tal qual o contexto lisérgico-psicotrópico de Barrett. Quanto maior é o sucesso, mais intensa é a dosagem de LSD. O músico torna-se cada vez mais imprevisível, caótico, o que já se via nas gravações iniciais de A saucerful of secrets, o segundo álbum, de 1968, com apenas uma composição do lisérgico guitarrista, a canção de encerramento do álbum Jugband Blues (no primeiro álbum, foram oito composições de Barrett, além de duas coautorias). Foi aí que David Gilmour fora convocado. Sua missão era clara, suprir os surtos cada vez mais cotidianos de Barrett, fosse no estúdio, nas composições, no palco. Gilmour não só dá conta dessa tarefa, como traz já nesse álbum a marca de sua composição cuidadosamente melódica e harmônica. Barrett já não mais respondia por si mesmo em tempo quase integral e, na contramão, Gilmour respondeu aa altura o desafio e ainda trouxe algo novo aa banda. Contudo, abrir mão de Barrett era desfigurar o Floyd de até então, em vários aspectos. É difícil apontar de quem foi a palavra definitiva de ruptura, se da banda ou do próprio Syd. O fato é que o álbum seguinte, o incógnito do grande público Ummagumma, de 1969 traria uma musicalidade dum nível de experimentalismo exacerbado. É considerado por muitos o álbum de mais volátil identidade floydiana. Talvez um exorcismo necessário dos moldes barrettianos.

Uma das poucas fotos dos cinco juntos. A partir da esquerda: Nick Mason, Syd Barrett, David Gilmour (agachado), Roger Waters e Richard Wright, em 1968

Uma das poucas fotos dos cinco juntos. A partir da esquerda: Nick Mason, Syd Barrett, David Gilmour (agachado), Roger Waters e Richard Wright, em 1968

Nesse ponto, estabelece-se a cisão sem retorno entre o Pink Floyd e Syd Barrett, salvo pelo álbum de 1975 e por uma ou outra citação, sempre presente no discurso dos integrantes da banda, num misto de ressentimento, saudade e frustração, ao longo dos anos.

Aliás, um destaque. Na verdade, após 1978, ainda houve uma bela homenagem de Richard Wright a Barrett, em seu álbum solo Wet Dream, na canção Pink’s Song:

Barrett, após a separação e uma mínima recuperação, ainda que instável, deu vazão a uma carreira solo que o manteria num circuito alternativo e em posição de ainda ser alvo de culto. A tônica de sua carreira solo, representada nos álbuns The Madcap Laughs (1970), Barrett (1971), compilações de material composto por ele entre 1966 e 67, seu período de auge criativo. Em 1988, a gravadora EMI lança o álbum Opel, com gravações de Syd, de 1970 não editadas. Em 2001, a mesma gravadora lança a coletânea barretiana de sugestivo título Wouldn’t you miss me?. Ela parece sintetizar bem o apelo proferido pelo próprio artista de ser esquecido. Quanto mais o pedia, mais cultuado se tornava. Um artista maldito para si mesmo. Um gigante para os fãs que preferia se recolher aa infinitude de sua Lilliput particular.

woudn't you miss me

[Um pequeno demonstrativo da carreira solo de Barrett]

Syd Barrett permaneceu, ao longo de sua difusa e conturbada trajetória, do LSD aa diabetes, um assunto inacabado e mal resolvido, com ressentimentos e impedimentos, na história com Pink Floyd. Aliás, parece que essa seja uma tônica de inter-relações na banda, a julgar pela dupla Roger Waters e David Gilmour. Mas essa é outra história. Melhor dizendo, é todo o resto da história floydiana. Quem sabe um dia não animo a escrever sobre isso…

O fato é que 07/07 é dia de Barrett. Isso me contorce o espírito em solidariedade a ele. Barrett, atravessando gerações, quatro décadas depois, tal qual o próprio Pink Floyd, imortalizou-se em roquenrol. Barrett morreu recluso. Uma de suas últimas fotos, próximo de seu falecimento, mostra-o cuidando de plantinhas em seu quintal. Ele permanece uma presença fugaz incomodamente ausente na memória e na história do Pink Floyd. É um brilho que se opaciza rumo a um vórtice que conjuga forças de lembrança e esquecimento. É nessa linha tênue, talvez só logicizável ao delírio que Syd Barrett está assentado, em acordes que se perdem, mas perduram…

Como cumprimentam-se tantos floydianos, SHINE ON!

De 1946 a 2006.

De 1946 a 2006.

P.S.: Especialmente dedicado aa querida floydiana Mariana Cohen, a maior barrettiana que conheço.

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Categorias: Crítica | Tags: , , , , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Wish you were here…

  1. Pingback: Aumenta que isto aqui é roquenrol! | transversos

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  3. Flavia Belo

    Que texto lindo, Anderson!!! Nem sabia nada sobre o Syd! Aprendi mais hoje, obrigada! Olhe, vou passar a ouvir “wish you were here” com outros ouvidos, sobre outro ponto de vista! Vi como uma canção de amor a esse ex integrante tão marcante, né? Pra mim… sempre ouvi como canção de amor… pelo Pink, meu cachorro-melhor amigo que sumiu no meu aniversário de 19 anos!!!!
    “Syd Barrett permaneceu, ao longo de sua difusa e conturbada trajetória, do LSD aa diabetes, um assunto inacabado e mal resolvido, com ressentimentos e impedimentos, na história com Pink Floyd”. Gostaria de ouvir/ler mais sobre isso!!! ESCREVA!!! Por favor!
    “Aliás, parece que essa seja uma tônica de inter-relações na banda, a julgar pela dupla Roger Waters e David Gilmour. Mas essa é outra história. Melhor dizendo, é todo o resto da história floydiana. Quem sabe um dia não animo a escrever sobre isso…”.

    ANIME-SE E ESCREVA!!! Sempre amei as músicas do Pink Floyd, mas só isso. Não os conheço com essa profundidade toda e tô tão empolgada pra conhecer a história dessa banda tão incrível depois que li seu texto…

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