Impressões da FLIP: o que está escrito?

Vidas Secas

O que está escrito?

As tramas de Graciliano Ramos inquietam. Pela múltipla capacidade de leitura, pelo rigor técnico, pelos substantivos brechtianos que adjetivam: a mordida, a picada, a pancada no crânio. Urdidos em economia de recursos e pluralidade de conteúdo, os textos do Velho Graça e o próprio autor vestido com as roupas de sua conduta ética mereceram homenagem especial nessa 11ª edição da FLIP. Escritor de indizíveis, capaz de mencionar a carta suicida de Madalena a que ninguém tem acesso a não ser o próprio marido Paulo Honório, cuja visão embotada pela brutalidade e cuja vista turva das lágrimas impedem a retextualização. E nós ficamos a imaginar: o que está escrito?

Como não é segredo para ninguém, meu interesse de leitora e pesquisadora não poderia ter-me conduzido a outro lugar que não fosse Parati e trago na bagagem, além de umas lembrancinhas aos parentes, uma memória quase tão forte quanto a cena da morte de Baleia.

Em primeiro lugar, hospedei-me num bairro periférico de Parati, de nome Ilha das Cobras. Bairro vivo, pulsante, repleto de pessoas sem echarpe. O contraponto do evento intelectual das “senhoras com pose aristocrática como se tivessem lido os grandes gênios da humanidade” – expressão que tomo emprestada a Moacir de Sousa.

Ali, onde certamente Eduardo Coutinho teria sentido acesa a vontade de um documentário, é possível olhar as contradições que povoam a cidade e o evento, perambular, para além do Centro Histórico com seus cafés e lojas caríssimos, por vias também cheias de histórias de sucessos, de fracassos, de possibilidades. Não foi à toa que, no primeiro dia, a idealizadora da FLIP Liz Calder se referiu à nova sede da Casa Azul em termos de efervescência humana compatível com o que a associação pode oferecer à população paratiense ao longo do ano.

Caminhando em direção ao evento, ainda a alguns metros do aclamado Centro, pululam farmácias e lojas de roupas, umas duas padarias de pouca variedade, igrejas evangélicas, oficinas de bicicleta, que, aliás, encontramos aos montes. Rabiscos pelos muros. O que está escrito? Crianças limpas, crianças sujas, a tramar traquinagens tão engenhosas quanto qualquer criança de cidade grande, só para nos mostrar que se endiabra sem limites territoriais ou populacionais.

Já em território literário, notei nas mesas a que assisti, fossem de tema literário, político ou ambos, certa tendência recorrente de alguns participantes em anular as diferenças. À primeira vista, parecem querer corroborar com o mito do homem cordial, alegando que o que se busca é o consenso. Repetem a fala da crise de representação e tentam homogeneizar ideologias. Tudo com imaginários voos de pombas e bimbalhar de sinos. O velho discurso “sem violência” quer provar que conquistas são possíveis exclusivamente por meio do diálogo. E querem reforçar a ideia de que a esquerda foi cremada.

Infeliz mesmo foi o mediador – tão fofo e bem-humorado – que, ao iniciar os trabalhos brincando ao referir-se à conduta dos participantes, mencionou-se detentor e possível usuário do spray de pimenta, caso fosse necessário. O riso de uma plateia semiacéfala deu lugar a aplausos entusiasmados quando um dos participantes acusou a repressão na forma e no conteúdo das referências utilizadas. Clap, clap, clap! Valeu, Dênis! Grande biógrafo de Graciliano! E isso era só o começo…

No meio do caminho, tinha um barco. Uma pedra? Tinha um barco no meio do caminho. E dentro desse barco, dois barqueiros. E junto dos barqueiros, muitos cartazes. O que está escrito? A manifestação popular chegou às lentes das máquinas ávidas. E, por trás das lentes, muita gente tentando entender o que se passava. O que está escrito? Era o grito contra as agências de turismo que exploram também as capacidades náuticas com embarcações bem maiores, tornando os preços dos menores pouco competitivos. O turista sorri: paguei menos. O nativo ouve do filho: se os tubarões fossem homens, eles seriam mais amáveis com os peixinhos?

Não posso deixar de mencionar a leitura dos poemas de Fernando Pessoa, por Maria Bethânia e – nada mais nada menos que – Dona Cléo, professora emérita de Literatura Portuguesa da UFRJ e da PUC-Rio. Não há quem tenha se formado na área e não conheça a importância dela e pasmem… Só quem pode vivenciar esse momento (ainda que pelo youtube) pode ver que até Bethânia se derrama de amores por ela. E quem não o faz?  Aí, sim, a cordialidade com toda a carga etimológica ligada ao coração pode traduzir o que presenciamos na interação das duas entre si e com a plateia.

Pausa para um café. Mas só há expresso. E, contrassenso, um expresso que demora. No último dia, nem isso. A cidade começava a sofrer com a escassez de água. Nas voltas pela cidade, índios vendendo artesanato, curumins cantando sempre a mesma música. Cheguei a pensar que eram importados da Bolívia, já que o Brasil tem a tradição de dizimar os seus enquanto acolhe cinicamente os demais que podem (enquanto o rapa não chega!) vender seus CDs no Largo da Carioca e no Méier, na Dias da Cruz. Diz que não. Que eram da terra mesmo! De Parati, tal como cantados por Luís Perequê antes do show de Gil. Eu brasileiro, euroafroíndio, euroafroíndio, eu!

Para finalizar a degustação das experiências que vivi, vale citar a mesa mediada por William Waack, que entendia muito do seu papel (“o bom mediador é aquele que não aparece e deixa a voz a cargo dos palestrantes”). Já nos primeiros minutos, no entanto, demonstrava sua prática autoritária, tomando turnos desavisadamente, irritando-se com perguntas da plateia aos convidados sobre a crise de representação dos meios de comunicação. Aborrecidíssimo, o jornalista resolveu metonimizar-se em grande mídia e desfiar o rosário de sua experiência. Plateia dividida, tão dividida quanto nas ruas do Brasil, uma parcela aplaude e outra vaia. Um casal de jovens corre até a frente da mesa carregando uma bandeira vermelha. O que está escrito? Abatidos a trancos e derrubados acintosamente, fica-nos a expressão rebelde e corajosa. O que está escrito? A plateia reage contra a violência. Agora realmente uma reação unânime. Escritos indecifráveis? Não se sabe. Ninguém teve acesso à bandeira a não ser os próprios manifestantes e a equipe de segurança.

Carta de Madalena? Pichações em paredes, cartazes, bandeiras? O que está escrito? Arrisco-me a achar que o que está escrito é que ainda há muito que se aprender sobre ouvir o outro e as demandas do outro, sobre ler nas entrelinhas de um discurso aparentemente pacífico, sobre compreender que o universo das paixões é múltiplo e comporta explosões. Que temos de aprender a escrever com as lavadeiras de roupas, que esfregam, enxáguam, torcem, enxáguam, torcem e estendem. Que pouco importa o que estava naquela bandeira – fica-nos o gesto –   e que o silêncio e o silenciar também são extremamente significativos.

*Aproveito a ocasião para agradecer a disponibilidade e hospitalidade do casal Dona Flô e Seu Nílson, com suas acomodações, inquietações e dicas, e da família e amigos de Vivienne Bozelli, com suas sugestões, amabilidade, carona e banquete.

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Categorias: Crítica, Cultura, Mídia, Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “Impressões da FLIP: o que está escrito?

  1. Me embatuca a volta do culto à violência na política, a crença na violência revolucionária, dos fins que justificam os meios. O que nos reserva o futuro?

    • Aline Silva

      Luiz, não sei bem a qual trecho vc se refere. Talvez seja esse: “O velho discurso “sem violência” quer provar que conquistas são possíveis exclusivamente por meio do diálogo”. Se o diálogo fosse o caminho exclusivo e eficiente, os barqueiros-peixinhos sentariam à mesa de negociações com as agências de viagem-tubarões ou com a prefeitura-Netuno. Se o diálogo fosse o caminho exclusivo e eficiente, não haveria todas essas manifestações nas ruas. E olhe bem: não estou defendendo a depredação de patrimônio, seja ele qual for; mas reconheço que destruir um banco, por exemplo, resguarda muito de simbólico – é a recusa ao sistema financeiro.

  2. A volta da que não foi ? O que são as invasões de domicílios, todos os dias, nas favelas ? Os sofás e colchões rasgados em busca de prova do crime ? Pra provar, na maioria das vezes que o crime por aqui é ser pobre ? Eu já tenho a esperança de que, com isto tudo acontecendo, finalmente, a violência no Brasil diminua. Lindo, lindo texto, a propósito, Aline. Este seu e do Moacir me fazem pensar quanto jornalismo anódino se pratica na pátria, desserviço de informação.

    • Aline Silva

      Querida Ana, a violência exposta tende a chocar, como nos casos dos aumentos de estatísticas de crime, quando, enfim, se passa a denunciá-los. É possível que, em algum momento, o aumento de registros se confunda com o aumento da violência, sem que seja isso exatamente o que tenha ocorrido. Também torço para que esse escancaramento da violência sirva de reflexão e tomada de atitudes legítimas para não criminalizar a pobreza. Obrigada pela leitura e pelos elogios!

  3. Aline !
    Tão bom te ler , de novo . Tão bom poder me indignar e , como sempre , cantar com você mais uma cantiga de acordar .
    Texto lindo , Aline . Emocionou , viu ?
    Mais uma vez , parabéns !
    Beijos ,
    Ana

    • Aline Silva

      Anaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!! Quanto tempo!!!!!!!!!!!!! Já sentia falta dos seus comentários.
      Muito obrigada mais uma vez e sempre.

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