Anonimato post vitae

Poema tirado de uma notícia de jornal (Manuel Bandeira)

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Bandeira, em sua inesgotável verve poética, conseguiu conferir beleza a uma historieta que estaria confinada ao frio anonimato das margens frias das informações cotidianas dum jornal, sobre mais um dado de morte de um qualquer, desconhecido, ignorado, desimportante. Manuel Bandeira, em que pese todo seu sofrer decantado em sua obra, atentou para a necessidade de se convocar a beleza que há, invariavelmente, por debaixo do manto do esquecimento que o cotidiano nos tenta impor.

VIVO (ou morto)

VIVO (ou morto)

Em 14 de julho, Amarildo Souza fora conduzido aa UPP da Rocinha. Depois, sumiu, desapareceu, escafedeu-se. Assim. Sem explicações.

 

Amarildo desapareceu? E daí? Amarildo não é João Gostoso! Amarildo não tem gosto. Amarildo não merece notícia de jornal. Quem é Amarildo, afinal?

Nesta semana, numa das esburacadas calçadas cariocas, a atriz Beatriz Segall tropeçou e teve seu rosto marcado indelevelmente pelo acidente. Ela publicou foto na internet, recebeu telefonema do prefeito da cidade Eduardo Paes, pedido público de desculpas e, ainda assim, prometeu processar a prefeitura.

beatriz segall

Paes, sócio de Cabral na empresa Rio S.A., de privatismo e gestão de negócios made in Rio, não está, em verdade, errado em se suas escusas dirigidas aa atriz. O errado é que tal procedimento se verifique em relação a essa e não a tantos Amarildos, anônimos em vida. O problema é que a mesma caricatura de gerente da cidade não se desculpe pelas ruas que sequer calçamentos, a serem esburacados, têm. No fundo não é nada de diferente da comoção com manequins e/ou vidraças suplantarem, em apelo de mídia, o desaparecimento de uma pessoa, seja ela quem for, sob a tutela do Estado.

É o Rio de quantos pesos e medidas convierem aa execução do projeto de fazer dessa cidade uma Meca do investimento privado, do megaespetáculo a qualquer preço e sob altos lucros.

E não nos esqueçamos, por favor, do Paes, que é guerra aa perspectiva dum Rio de paz.

É a máxima, pasmem, vociferada pelo Secretário de Segurança do Rio, Mariano Beltrame, já em 2010, e que, ainda mais pasmem, não teve nenhuma maior consequência: “Um tiro em Copacabana é uma coisa. Na Favela da Coréia é outra”.

Enquanto isso, o Rio-cartão postal vai bem, ainda que aos trancos e barrancos, ambicionando cada vez menos barracos. Quem sabe, ainda possuída pelo espírito nefasto de Pereira Passos, chegará um tempo em que tudo que a maior parte da população do Rio possa ter de contato com essa outra parcela da cidade seja mesmo um cartão postal. Hell de Janeura! De janeiro a janeiro, vivemos aqui infernais invernos de humanidade…

O papa, o argentino mais bem recebido no Brasil em toda a história, continua a abençoar a cidade (como desfila esse papa! Parece um carro alegórico!), mesmo em meio aas tantas trapalhadas de recepção aa Corra que a Polícia vem aí.

E segue a violência policial…

A mesma que chacina seja na Candelária há 20 anos, seja nos recentes assassinatos na Maré. É essa a mesma que foi a última companhia de Amarildo que se tem notícia. Lembro que, no dia seguinte a um dos protestos dos moradores da Rocinha indagando por Amarildo, em 17 de julho, um certo telejornal fez questão de “esclarecer” que o Pedreiro tinha duas passagens pela polícia. Uma por furto nos anos 80 e outra por “exercício ilegal” do serviço de flanelinha. Que necessidade torpe de desqualificar Amarildo, de criminalizá-lo, como que para atenuar a urgência e a assertividade de sua busca.

Amarildo de fato não é João Gostoso, no máximo João Ninguém. Amarildo não importa, não é nada, é irrelevante, insignificante. Amarildo não é ninguém! Amarildo somos nós.

Amarildo deu um perdido, foi perdido, se perdeu, deu perda total? Quem tem que responder por isso são a PM e o (des)governador Sérgio Cabral. Essa ânsia por resposta já ultrapassa nossas tênues fronteiras.

amarildo palestina

Amarildo, infelizmente, me lembra Edson Luís, alguém na hora errada no lugar errado, num momento de recrusdecimento da violência do aparato repressor. Em 28 de março de 1968, o estudante, que não participava do movimento estudantil, teve sua vida ceifada no restaurante Calabouço. Amarildo, que levava a vida como dava, desapareceu pelas mãos do Estado que lhe deveria assegurar integridade.

Houvesse dignidade, o (des)governador do Rio, além de tudo pior avaliação do país, envergonhado, pediria pra sair. Mas não há…

mafalda policia

Não há Bandeira para Amarildo, mas há muitas bandeiras a se erguer por ele.

Aa construção dum mundo onde haja poesia para joões gostosos e amarildos!

procura-se 2

Onde tá Amarildo? Cadê?

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Categorias: Sociedade | Tags: , , , , , | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “Anonimato post vitae

  1. Daniel Reis

    Bravo… Bravissimo

  2. Enquanto,as pessoas pensarem que só o seu umbigo que é importante,que o seu sentimento,pensamento é o correto,que só ela tem frio e fome,que só ela tem dor,que o sol nasce só para aquece-la,que o seu voto é só formalidade,se esta bom para si,e daí que para o fulano não.Aqueles que pensam se que pensam,eu não conheço o Amarildo,e dai que ele sumiu,mas o “Amarildo”poderia ser,seu pai,irmão,irmã,primo,tio,amigo,qualquer um de nos.Estamos no momento sendo todos “Amarildo”

  3. Cristina

    belo texto

  4. Obrigado, Daneil e Cristina! Cidinha, é esse mesmo o sentimento que queria passar aqui. Obrigado por tua leitura e colaboração!

  5. Juliana

    Excelente texto, Mestre! Puras verdades ditas sem rodeios.

  6. ‘Brigado, Juliana! 🙂
    Continue nos acompanhando por aqui!

  7. Pingback: Rio, feliz 2016! 450 anos paespalhando desigualdade, agora com um presente de grego. | transversos

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