Seu Cabral no terreiro de Vovó Maria Conga

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Cabralzinho foi com sua esposa e o cachorro Juquinha fazer uma consulta no terreiro de Vovó Maria Conga pra modo de abrir os caminhos. Pelo menos o de sua cachanga no Leblon.

— Vovó Maria, estou sendo vítima de uma perseguição política terrível.

— A demanda do menino é quizila carregada. Passeio de pássaro praqui e praculá, maracutaia no público e no privado, perseguição do povo ancestral, caráter quizumbeiro. Até seu cão andou de pássaro pra Mangaratiba. Vejo aqui também uma perna de calça de pé grande que anda na sombra do menino. E dessa feita foi o caminho do encosto que se trancou no meio da rua.

— Mas já fiz várias concessões e ainda continuam me perseguindo.

— Mas o menino não sai do cavalo e coloca os canela preta pra bater no povo. Daí os falangeiros andam na rebeldia.

— Preciso de sua ajuda, vovô!

— O menino vai fazer o trabalho na décima terceira estação da linha de ferro. Se o caminho da cachanga não abrir, o menino vai ter que entregar a coroa e apear do cavalo.

No dia seguinte, estava o casal na estação de Senador Camará

— Coloca o Bordeaux do lado do faisão.

— Serginho, a vovó mandou fazer o trabalho com galinha e cachaça.

— Com coisa fina o resultado só pode ser melhor.

— Serginho…

— Adriana, será que é essa estação mesmo?

— E eu que vou saber? Nunca andei de trem, graças a Deus.

— Pergunta pra alguém na rua.

— Não acredito que estou fazendo isso. Neste momento, eu estaria em Paris. Moço, esta é a décima terceira estação do trem?

— De que ramal?

— Ramal?!

— É, minha senhora, tem o ramal de Santa Cruz, Deodoro, Japeri…

— E esta estação é de que ramal?

— Santa Cruz.

— E essa é a décima terceira estação?

— Não. A décima terceira é a estação de Bangu. Minha senhora, por que aquele senhor está de máscara?

— Ele está com sarampo.

— Sarampo?!

— Obrigada. Toma esse dinheirinho… Serginho, a gente fez o trabalho na estação errada. E tem essa coisa de ramal… Eu te falei…

— Se não der certo, a gente vai pra Paris. Vamos embora.

Enquanto o casal seguia pro Leblon sitiado, dois mendigos faziam a melhor refeição de suas vidas.

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Categorias: Crítica, Sociedade, Verso & Prosa | Deixe um comentário

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