Fascismos senis

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Foto de Lee Jeffries

Texto de Dinah Lemos* 

Um ativista das lutas do final da década de 1970 foi internado, muito doente, quase morreu neste início do ano de 2013. Infecções atacam nossos intestinos. Nossos sofrimentos são viscerais. Tenho retocolite ulcerativa crônica, associada à artrose avançada na lombar, na cervical e nos quadris. Isto é, herdei uma coluna com propensão a problemas e fui submetida a um trabalho extenuante durante as décadas de 90 até 2010. Tomava anti-inflamatório regularmente, para poder trabalhar, receitado por médicos particulares e do trabalho. O ônus da prova – de estar doente – era meu; os médicos foram treinados para partir da ideia de que a queixa era mentira ou exagero. Lá por 2010 estourou essa ulceração crônica do intestino e ela produz inflamações nos quadris e no pescoço, além de inflamações nas pálpebras. O remédio que controla a retocolite pode favorecer o aparecimento de uma coisa que se chama lúpus, que são manchas e alergias em algumas partes do corpo (essa doença aparece de forma branda em alguns, quase residual, e de forma aguda e depois avançando para um estado mais grave, em outros. Em mim quase não existe, não é detectável, ainda), além de favorecer efeitos colaterais tais como infecções por fungos incuráveis. Em mim tudo está sobre controle, tenho um bom plano de saúde e um salário que me permite gastar mais de quatrocentos reais com remédio, além de comer bem e morar com qualidade de vida muito boa. Mas faço parte daquela fração da classe do meio, nem abastada e nem pobre: pouca gente tem, como eu, facilidade para ir e voltar do trabalho, salário digno (seis mil para um casal). Mesmo assim, tenho dificuldade de movimentos, dores e uma melancolia controlada.

Tudo isso eu vivi com as chefias me rotulando como rebelde por ficar reclamando da produtividade exigida. Quando entendi, criei coragem e comecei a protestar fui expulsa de três setores, em um ano, porque entrei para uma lista (não oficial e secreta) de trabalhadores indesejados. Num deles fui expulsa dez dias antes do recesso do Natal.

Eu sou uma, tem um monte de gente como eu. Não creio que o companheiro das antigas tenha tido uma doença de graça, por nada. Tem muita gente sofrendo dos intestinos. Parece que esse lugar do corpo é um dos mais afetados pelo cansaço da produtividade abusiva. Em todos os locais de trabalho, o mesmo ritmo: desprezar a vida tranquila em favor de obter mais vantagens em disputas de poder e produtividade na ação diária (objetivos dos que mandam). Sempre que eu manifesto preocupação com meu estado de saúde, pelo simples fato de que eu ainda estou andando e fazendo tudo, sou considerada uma neurótica inadequada; adequados são os obedientes, silenciosos, cordatos, e quando estes caem doentes é dito: “coitadinho, tão bom trabalhador!”.

Outro dia falei com aquela minha amiga, antiga militante de um grupo feminista autônomo, e chegamos à conclusão de que só é considerado doente o trabalhador que cai, que desmaia, que se desmancha, que vai pra cama ou pro Hospital. No intervalo de tempo em que ele está se enfraquecendo é tratado com anti-inflamatórios e anestésicos, para que continue no ritmo. E isso tudo é dito pela mídia e pelos poderes como normal.

Nós estamos indo, todos os dias, em direção a mortes por excesso de pressão e angústia. Os grandões, para quem trabalhamos, só falam em controlar o problema dos pobres e miseráveis e apenados e moradores de rua e índios e camponeses sem terra. Deixam o discurso da produtividade sem regras e limites ocupar todos os espaços, usam esse discurso para obter vantagens políticas e de gestão. Estamos em um modo de governo “fascista-do-bem-estar-social” que não tem nome: os modelos de tiranias atuais só ganham nome quando viram guerra civil ou militar aberta e plenamente configurada, antes disso são democracias.

Não há processo, há um momento dito como “tudo bem” e um segundo momento em que tudo desaba como nossos corpos. Li, outro dia: “Embora não fosse conscientemente partidária do terror, a maior parte das elites alemãs desejava o autoritarismo, pois já não conseguia tolerar o ambiente democrático da república de Weimar. As circunstâncias são distintas: não há risco de fascismo no cenário brasileiro atual”. Isso está escrito no blog do “Outras Palavras” do Le Monde brasileiro. Francamente, vamos rever os conceitos e os paradigmas: o fascismo está espalhado no Brasil como leite no café pingado. Ele é uma aliança entre a multidão e as elites (não propriamente uma aliança, seria mais um amordaçamento por meio do controle ideológico) e produz uma teia de assédios e violência cotidiana, cada vez mais consistente. O Le Monde Diplô deveria ser um pouquinho mais de esquerda. Seria mais ético.

Vim aqui dizer pra você: a senilidade não é burra, nem simplória, nem mansa, nem idiota, nem estúpida. Ao contrário, a senilidade é o ponto mais complexo antes da total desagregação. O senil sabe tudo e esquece e mistura tudo, tudo ao mesmo tempo. A velocidade das mudanças nas tecnologias é senil, embora todos tenham sido iludidos desde os grandes descobrimentos antigos (a imprensa, as caravelas, a navegação, o cercamento dos campos, a tecnologia agrícola, a indústria) até a energia nuclear e a tecnologia da informática.

Quando explodiram Hiroshima, começamos a ficar desconfiados. Os acontecimentos deflagrados pelas redes sociais, na web, têm vários significados, mas todos indicam o fim de um modelo de gerenciamento social vigente desde o surgimento da energia nuclear e da televisão. E o mais surpreendente é que temos a sensação de que tudo no passado se desmancha junto com as formas políticas do século XX: sentimos que é a própria existência humana que está em questão. Como essa sensação é de uma magnitude insuportável, falamos muito pouco sobre isso; preferimos ficar debatendo qual será o futuro (ou a futura – está na moda fortalecer representações do sexo feminino) presidente deste ou daquele país. Mais um sintoma senil, desconhecer a doença, conviver com ela esperando a falência total.

Parece haver um conjunto de discursos suportáveis e permitidos trafegando ordeiramente pelos meios de gerenciamento social até que, súbito, irrompe uma desordem vinda de um submundo em gestação: as redes sociais saindo às ruas, as revoltas em periferias, os quebra-quebras em trens, ônibus e metrôs, os atentados, as chacinas, os sequestros, o estupro migrando de endêmico para epidêmico, o surgimento e expansão da figura do “filho assassino”, as multidões de alcoólatras e drogados de cocaína, crack e sei lá mais o quê desfilando e se amontoando pelas ruas mais sórdidas. As guerras civis, o terrorismo, guerrilheiros suicidas.

Isso tudo é tão desordenador e medonho que acaba sendo incluído na “discursividade do gerenciamento social” como se fossem “gases”, “arrotos”, puns de um organismo pretensamente sadio. Até que o organismo caia, subitamente, como os trabalhadores submetidos à produtividade abusiva de que falei lá em cima.

O senil espera apático, incapaz.

 

*Dinah Lemos é mestre em História do Brasil pela PUC-RS e blogueira do Escrituras Heréticas, cujo lema é “Era Dioniso contra o Crucificado, agora é a Luz contra o Desespero. E cada um com seu próprio Deus”.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Fascismos senis

  1. Jorge Oliveira

    Acertou novamente, Dinah ! A civilização está doente mental com repercussão em seu corpo !

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