Pompas a Pompeia!

24 de agosto de 79. Pompeia sucumbia aa fúria do Vesúvio! Há exatos 1934 anos… ou melhor, exatos não… como já tratara no texto Apertos, aberturas, abris , em verdade, não podem ser exatos, uma vez que não existiram jamais os dias entre 05 e 14 de outubro de 1582, para o ajuste da passagem do calendário juliano ao gregoriano. Portanto, se ouvir de alguém que nascera nesse interlúdio, tenha certeza que se trata dum mentiroso contumaz pinoquiano de marca maior, dum nível equiparável aa dupla Cabral-Paes.

Voltemos a Pompeia… 24 de agosto de 79 era um dia comum na vida de seus habitantes. Tratava-se duma cidade de médio porte do Império. Sua grande importância, situada aa Baía de Nápoles, era como corredor para o transporte e abastecimento de mercadorias. Quando do cataclísmico evento, estima-se que a cidade possuía cerca de 20 mil habitantes, tendo sido pelo menos 80% mortos diretamente. Em 62, Pompeia já sofrera um terremoto de grandes proporções, estima-se que talvez tenha alcançado 6 pontos na escala Richter. Isso, presumivelmente, pode ter gerado um êxodo que nos leva a um quadro de população menor do que em momentos recentes anteriores.

pompeia vesuvio

Pompeia com o Vesúvio ao fundo.

Quando se fala em Pompeia, pensam em geral num rio de lava avançando e cobrindo a cidade. Na verdade, a erupção do Vesúvio foi doutro tipo, muito mais raro, a chamada erupção pliniana, pois que foi descrita por Plínio Caio, o Jovem, sobrinho do  famoso almirante  e erudito romano Plínio, o Velho. O monte Vesúvio, até então, para os habitantes a seus pés, era só um monte; não faziam ideia do que fosse um vulcão. Sequer havia palavra na língua latina para isso.

A erupção pliniana que alvejou certeira Pompeia, e também Herculano e Estábia, cidades vizinhas, se iniciou com uma portentosa coluna de fumaça vulcânica que logo se converteria em cinza tóxica e, em contato com camadas mais altas da atmosfera, se precipitaria em forma de pedras pome. Só esses dois efeitos já seriam suficientes para devastar boa parte da população local. Muitos, a partir daí, morreriam intoxicados, alvejados por pedras “chovendo” dos céus, telhados ruiriam e soterrariam moradores. Mas, não bastassem esses desesperadores efeitos, ainda seria a cidade brutalizada por um rio de lama vulcânica que foi o que mumificou inúmeros habitantes, para sempre feitos mórbidas estátuas em sua posição de desespero derradeira.

pompeia

Assim, a inesperada tragédia  de Pompeia permaneceu incógnita até o ano de 1748, 16 séculos depois quando a cidade foi, acidentalmente, encontrada e inteiramente escavada, num nível de conservação de ruínas sem parâmetros na história da Arqueologia, fornecendo a mais completa fonte de informações sobre a vida e cultura de uma cidade tipicamente romana que se tem até hoje. Após Pompeia, o nível de conhecimento sobre Roma e a cultura latina deu um salto de qualidade sem precedentes. Suas vias, suas esculturas funestamente cadavéricas, suas construções várias, inscrições… tudo num nível de preservação sem precedentes. Quão caprichosos esses deuses romanos, não? (Sim, porque no século I as crenças cristãs eram ainda proscritas. [creio que foi a ascensão do cristianismo que levou o Império Romano aa ruína, mas isso é outro papo…])

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O mesmo acontecimento que ceifou a vida de dezenas de milhares em toda a Baía de Nápoles nos legou vasto saber. Irônica sorte nossa que Prometeu, previdente e irmão do desavisado Epimeteu, era grego e não romano.

Todo ano, mais de 2 milhões e meio de turistas se comprazem, necrofilamente, no inigualável túnel do tempo da cidade.

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Felizmente, a par de toda essa tragédia, Pompeia também se prestou aa emanação de poesia em altíssima vivacidade. Felicissimamente, 1888 anos após o desaparecimento da cidade, surgiu o Pink Floyd para ressignificar o sentido de poesia naquele espaço, ao realizar o show mais impactante de toda a história de Pompeia, no anfiteatro central da cidade…

Ninguém estava presente! Apenas o sepulcral silêncio com sua atenção cúmplice! Live at Pompeii foi, sem dúvida, um dos espetáculos mais inusitados de toda a história do roquenrol. Sob direção de Adrian Maben, gerou imagens ímpares do Pink Floyd, ainda em início de carreira e, daí, eternizados, tal qual sua improvável anfitriã. As imagens panorâmicas de Pompeia, do Vesúvio e de tantos detalhes da cidade são também bela melodia, ao olhar. Afinadíssimas tomadas!

Lá estavam Pompeia, Herculano e Estábia e se foram… Lá estavam sólidas e um dia inesperado, tudo partiu… Metáfora de vida! De vida, em sentido estrito e amplíssimo. Nosso planeta já viveu seis grandes extinções de espécies dominantes (centenas de milhares, de milhões de seres que se soergueram só para nos deixar vestígios). A última e mais famosa, há 65 milhões de anos, dos fofonhosos dinos. Um belo dia, como outro qualquer, os brontos a pastar, os tiranos a rexear e os pterodáctilos a urubuzar. Eis que um meteoro, não bem-vindo, e muito menos convidado, desgarrado, provavelmente, do Cinturão de Kuiper, onde repousam objetos maiores que Plutão, veio e acabou com a vidinha mais ou menos dos simpáticos reptilianos. Não fosse isso, poderíamos, aqui, hoje, sermos todos humanoides répteis. Há uma interessante teoria que trata disso e não passa por V, A Batalha Final.

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O paleontólogo Dale Russel foi o maior teórico da existência do humanoide reptiliano. É, no mínimo, curioso conhecer a teoria.

Os romanos, até então, não podiam cogitar um vulcão, como os dinossauros não contavam com um apocalíptico meteoro e não contamos cotidianamente com um asteroide/meteoro estraçalhando a Terra, embora estes possam surgir quase que do nada. Ainda não dispomos de tecnologia que seja capaz de precisar todo o conjunto de corpos celestes que podem se chocar com a Terra. Tampouco possuímos um sistema de defesa planetário capaz de reduzir corpos com tais intenções destruidoras a meras “estrelas cadentes”. Mas o fato é que todo dia somos porta de entrada de centenas, milhares de corpos celestes. Lembremos do meteoro que em 15 de fevereiro deste ano atingiu a cidade russa de Cheliabinsk, afetando pelo menos 10 mil pessoas, em sua maioria, com ferimentos leves. Ao adentrar a atmosfera, estima-se que o meteoro possuísse 10 mil toneladas. A Terra é rota de impactos… Em 2036, há concretas possibilidades de que o asteroide Apophis colida com a Terra. Ser planeta habitado não é fácil não…

E neste mês, porque há de se ter poesia, fomos agraciados com o espetáculo de perseidas:

Quando o inesperado se faz urgência, tudo se pode transformar. Vejam que a própria língua latina que não possuía um nome para vulcão, passou a tê-lo, Vulcano, nome do deus forjador. Mais que isso… Passou a existir um verbo latino cujo significado era “entrar em erupção vulcânica”, erumpare. No atual italiano, diferente do que ocorre com a maior parte das línguas neolatinas de países desvulcanizados, há também um verbo para isso: eruttare. Curiosamente, há, em português, um falso cognata desse verbo, também derivado do tardio erumpare latino que é arrotar.  Por mais surreal que possa parecer, há vulcões no Brasil, inativos (embora, em Santos, recentemente, haja notícias da descoberta de um adormecido, mas não inativo). Um deles está localizado na Baixada Fluminense, em Nova Iguaçu…

vulcão nova iguaçu

Vestígios de Pangeia, esse mundo uno que um dia voltará a existir numa configuração aas avessas.

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Pompeia enfrentou, ingloriamente, claro, um desses eventos que reescreve a história a contragosto. Possivelmente, é por isso que a cidade até hoje é tão relacionada a sexo e a depravação no mundo romano. Ora, esses não são aspectos que sejam, normalmente, editados em primeiro plano na história dum povo. Em Pompeia, descobriram-se pinturas e construções totalmente devotadas a essa prática. Óbvio que não se pode, se é que é possível, enxergar isso sob olhares cristianizados. O referencial cultural de Pompeia estava muito mais próximo do mundo grego do que do cristão, inclusive em termos cronológicos. Com certeza, em 79, Baco contava mais do que Cristo. Assim, se precisa enxergar a vida sexual de Pompeia. Seus muitos prostíbulos descobertos são informação sobre o conjunto da sociedade romana. Aliás, lupanares, de lupa (palavra latina que significa loba e que era referência informal para prostitutas, tal qual piranha para nós).

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Ilustração de parede reconstituída de Pompeia.

As erupções vulcânicas plinianas, estima-se, ocorram uma vez  a cerca de cada 2 mil anos. Hoje, aos pés do Vesúvio, na mesma Baía de Napóles que velou quase toda a população das três extintas cidades, há 3 milhões e meio de pessoas.

É instigante pensar se há ainda algum descendente de Pompeia. Restará, impresso em código genético, a perplexidade e luta pela vida dalgum ancestral pompeico, pompeu, pompeense, pompeano, enfim, vesuviano (até para incorporar Estábia e Herculano)? Apenas digressão… pra variar…

Enfim, assim é a vida, das pessoas e das sociedades… A sociedade é, de fato, extensão, da natureza… Uma sucessão ordinária de dias. Mas, eis que um dia pode sempre suplantar avassaladoramente tudo aquilo o que se conhecia até então…

Erupcionando vidas! Erupcionando mundos!

Por fim, o som do apocalipse, em homenagem aa sociedade de Pompeia, de permanentes estares (mas que não mais se fazem seres)!

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Categorias: Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , , , | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Pompas a Pompeia!

  1. Germano

    Salve,

    bem bacana a postagem. Mas, a não ser que alguma ironia me tenha escapado, me parece que há um errinho nesse trecho “Irônica sorte nossa que Epimeteu, previdente e irmão do desavisado Prometeu, era grego e não romano.”? O irmão previdente é Prometeu e o desavisado, Epimeteu…

    Abraço!

  2. Ops, Germano… Claro, claro… tá trocado. Valeu o toque!

  3. Karen

    Maneiríssimo, Anderson! 🙂

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