Entre lutas e trufas

 Aos esfarrapados do mundo e aos que nele se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam.

(Primeiras palavras de Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido)

 

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Meu silêncio não é ausência. Envolvida em projetos que me fazem sentir a corda no pescoço, preciso reconhecer que sou metade exaustão e metade falta de tempo. Os textos rarearam um pouco, mas a enorme vontade de continuar a produzi-los me imerge em conflitos, exatamente como precisa acontecer com quase todo mundo que conheço e escreve. Então, vamos ao trabalho.

O que a recepção aos médicos cubanos poderia ter em comum com a decisão judicial que determina o retorno dos professores grevistas à sala de aula? Como uma educação formal pode ser realizada plenamente se distanciada de sua verve política? Como comer quilos de trufas maravilhosas sem engordar? Bom, para as duas primeiras questões eu até posso me arriscar. Para a última, deixo a árdua tarefa para vocês, caro leitor e cara leitora. Se conseguirem responder, dividam isso comigo e com o restante da humanidade.

A recepção aos médicos cubanos incita reflexões sobre questões socioculturais que marcam nossa identidade brasilis. Atendo-me apenas ao episódio da postagem da médica do Rio Grande do Norte, destaco a completa ignorância ali contida quanto às condições de acesso e permanência na educação superior no Brasil e em Cuba. O dito da diplomada traz à tona o que subjaz à formação de um povo, que acredita natural a existência de uma sociedade de classes, que oriente escolha profissional relacionada à origem socioeconômica. Saber que essa peneira escolar existe parece menos assustador do que legitimar a existência dela. Isso, sim, é de estarrecer.

 

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E no bojo do estarrecimento, seguem as determinações judiciais de encerramento das greves dos professores do município e do estado do Rio de Janeiro. Paralelo a isso, vejo matérias jornalísticas cobertas de pieguismo (quando convém) e desvio do cerne da discussão. “É… a greve vitima criancinhas, que não têm o que comer”, é o que dizem alguns. “Quando escolheram a profissão, os professores já sabiam que ganhariam pouco”, é o que dizem outros. A mesma lógica da postagem da médica encontra-se aqui: há uma sociedade pautada em classes e é assim que deve continuar. Os professores devem continuar a exercer o ofício por vocação e já é muito que sejam pagos para isso. As crianças pobres devem continuar comparecendo à escola para comer merenda. E qual é , afinal, a função social da educação no meio disso tudo? Ô, vida de gado…

Ainda na questão judicial, vejamos quanta semelhança entre o cerceamento do direito à livre expressão do pensamento, no caso dos blogueiros processados, e o do direito de greve, no caso dos professores. Silenciar o protesto, a dissonância, a discordância por vias legais concede aparente credibilidade àquele que impetra a causa na justiça. Vários perigos existem aí: o de conseguir intimidar os descontentes, o de restringir a atuação de qualquer luta legítima à burocratização tribunalesca, o de desacreditar as questões que realmente urgem no embate trabalhista.

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Bom, enquanto ninguém me diz nada a respeito das trufas, vou comer a que acabei de ganhar. São só 30 gramas de alegria. Não pode fazer tanto mal assim…

 

 

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Categorias: Sociedade | Tags: , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Entre lutas e trufas

  1. Alineeeeeee !!!!!!!!!
    Saudades desses textos que sempre são canções de acordar . Confesso que , desta vez , vc está cantando um pouco brava , indignada . Mas quem , em sã consciência , não está ?
    Quanto às trufas …risos…

    Beijos saudosos,
    Ana

  2. Aline Silva

    Oi, Ana! Desculpe-me a demora interativa. Pois é… ainda não descobrimos o segredo para comer trufas sem pesar no corpo. Obrigada pelas leituras das canções de acordar. Abraço. Saudades.

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