De como não é mole ser Batman

batman e fidel

Desespero nas ruas de Gotham! Urros, gritos, gemidos lancinantes! A dor e perplexidade d’alma cortam horrendos e inclementes o ar. Um cheiro acre de putrefação domina os ares. Mesmo numa das mais sombrias cidades de que se tem notícia no mundo ocidental pós-cristão, o desespero alteia-se em escalada monumental! Os portões de Arkham não mais são suficientes para conter a torrente de insanidade que vem de dentro, mas também o invade. A agonia é a regra de toda e qualquer ação. Gordon tornou-se já infeliz e nula marionete dos desesperançados!

Ben Afleck, como Batman nos cinemas!!!

bat joke

Bat-piada

Sejamos sinceros… como alguém que não conseguiu convencer como Demolidor pode tentar ser convincente como o melhor herói de todos os tempos. E olha que o filme do Demolidor ajudava, hein?!

Sim, afinal, Batman, convenhamos, é melhor que semideus mitológico, certo? Sem exageros. Não há, penso, personagem mais rico humanamente no universo dos quadrinhos e, extravasando este, na cultura pop, em geral. Batman providenciaria um atalho para Ulisses retornar aa Ítaca; Batman concluiria na antevéspera a armadilha do cavalo de Troia; Batman desvendaria os mistérios das runas de Azygadrill antes de Odin; Batman soergueria Excalibur antes de qualquer outro; Batman encontraria a localização do Graal; Batman responderia ao enigma da Esfinge antes de Édipo, a quem interceptaria antes de atingir Tebas; Batman daria a Lúcifer o estratagema de conquista do Céu; Batman abreviaria os trabalhos de Hércules. Batman sabe, há tempos, o terceiro segredo de Fátima!

Batman é O Cara! Ponto.

Batman tem a enorme vantagem de ter uma constituição básica atemporal. Ele funciona desde a Londres de Sherlock Holmes, senão anteriormente, personagem em que seu criador, Bob Kane, se inspirou até a mais futurista Gotham City, ou além dos limites desta, nas mega-aventuras da Liga da Justiça em tantos cantos da Terra ou além dessa. Não bastasse isso, Batman não tem as limitações identitárias que apresentam personagens também tradicionalíssimos, como Super-Homem, Capitão América, Homem-Aranha, Mulher Maravilha, direta ou indiretamente associados ideologicamente aos Estados Unidos e ao ser norte-americano. Batman é sem fronteiras. Não há nele identidade americanoide de qualquer ordem.

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Batman é, enfim, foda. É isso. Simples assim.

Batman é, literalmente, capaz de derrotar qualquer (eu disse QUALQUER) adversário. Isso não é, definitivamente, para qualquer um. Mais do que o maior detetive do mundo, é um exímio estrategista, combatente sem páreos facilmente encontráveis, obstinado, não hesitante, de raciocínio arguto, sem fraquezas emocionais aparentes. Batman é blindado ante a derrota.

batman superman

Cena de O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller

“Quero que você lembre da minha mão na sua garganta. Quero que você lembre do único homem que o derrotou“, dita por Batman ao Super-Homem, em O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller.

Claro que Batman é uma pessoa abalada emocionalmente, de modo irreparável pela perda dos pais, sobretudo nas circunstâncias em que se deu isso. Mais claro ainda que alguém que salta pela noite vestido de morcego e combatendo  vilões (soberbos, por sinal!) loucos, possivelmente, seja também um caso muito sério de desequilíbrio mental. Contudo, ao que tudo indica, Batman extravasa e se defende disso fazendo o que de melhor sabe fazer: sendo foda integralmente!

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Me corta o coração dizer isto, mas ainda não se encontrou um ator para fazer aa altura Batman! Ora, Christopher Reeve foi, sem dúvida, o nome e rosto que imortalizaram tanto o Super-Homem quanto Clark Kent, em filmes que agradaram tanto fãs de quadrinhos, quanto o grande público.

[O Super-Homem definitivo e inesquecível]

Agora pensemos nas muitas representações de Batman. Até hoje não houve ninguém que conseguisse representar de modo minimamente convincente o Homem Morcego. Confesso que considero que Adam West conseguia ser um bom Bruce Wayne, mesmo. Mas, como Batman era risível, ainda que fosse exatamente essa a proposta. Agora, quanto aos outros atores, nem Wayne nem Batman salvam.

batman- atores

Como diz sabiamente meu amigo nerd de muitas honrosas insígnias, Dimas de Fonte, Bruce Wayne é apenas um disfarce para o Batman. Explico. No caso do escoteirão Super-Homem, mesmo fantasiado de super-herói, ele continua a ser o caipira do Kansas de sempre. Já no caso do Homem Morcego, o que temos é Batman como personalidade dominante. Bruce Wayne é uma insossa fachada para Batman se esconder, quando necessário. Não se trata de pensar em alguém para ser Bruce Wayne, mas para ser Batman. Admito, claro, que o Batman do Nolan é melhor do que a média, a olhos vistos. Mas ainda não é O Batman.

Voltando ao Affleck, não que ele esteja num nível muito distinto de Michael Keaton, por exemplo. Val Kilmer então, o que dizer? Meu sonho era ver Batman ser encarnado por um Al Pacino, uns trinta anos mais novo.

Batman merece mais do que tem tido ao longo dos anos, no cinema! Isso sem falar que ainda estamos absolutamente distantes da personalidade do Batman dos quadrinhos, algo que nos desenhos já foi bastante melhorado nos últimos tempos, vide desenhos da Liga da Justiça.

batman ages

Um pouco do espírito do “Batman de verdade” aparece neste vídeo independente.

No mais, ainda não há um Batman definitivo no cinema. E, nesse contexto, diante da promessa/expectativa dum filme da Liga da Justiça, é mordazmente decepcionante o anúncio do canastrão Ben Affleck, para o papel que deveria ser o carro chefe da DC Comics/Warner. É impressionante a defasagem da DC para a Marvel nos cinemas. É verdade que a DC compensa isso nos jogos eletrônicos e desenhos. Mas, não precisa bater tanto com a cabeça na parede por isso, né?

be batman

Há um enorme sentimento de orfandade em Gotham. Ainda não pudemos ver o Batman que ronda a noite, estabelecendo o certo, a seu modo. O limite de publicização do Batman parece ser este: qual é seu certo e quão popularizável o é? Em verdade, o Homem Morcego vive das mais tênues linhas entre um justiceiro e um justiçador. Talvez levar isso ao cinema não seja mesmo o mais indicado dum ponto de vista politicamente correto que busque rentabilidade ampla.

Não se trata duma implicância com o Affleck… é mais com a lógica disso tudo. Claro que um filme sobre Batman será um block buster. Mas, talvez se devesse perceber que o espírito de ser Batman em si não é block buster. Isso poderia ser um ponto de partida. No mais, repito, o resultado final será cinemão pipoca, claro. E a essa altura, Batman, do alto de sua vasta complexidade já passa a parecer mais um desafio dialético para a indústria cinematográfica. Mas, na verdade, insisto que a resolução é mais simples do que parece aa primeira vista. Relembro que, nos desenhos, isso parece já ter tomado um encaminhamento satisfatório.

É isso. Quem teria condições de encarnar este espírito?

batman-she

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