O lado obscuro da lua e brilhante da musicalidade

wright diesNesses medonhos e tenebrosos tempos de Rock out Rio, aa honrosa exceção de meia dúzia de umas três ou quatro bandas, roquenrol dubão só em casa mesmo. O Rock in Rio virou um evento em escala máxima de ficção. Primeiro, deixou de ter algo a ver com o Rio, depois deixou de ser Rock. Restando só a discutível autenticidade do in, acho que ela é de negação.

Amanhã, 15 de setembro, são cinco anos sem Richard Wright, tecladista e músico fundamental do Pink Floyd. Foi responsável por arranjos e harmonias imortais da banda.

A exemplo do ritual que faço no dia da morte de Syd Barrett− sempre passo o dia com uma blusa dele e só ouço canções dele ou em sua homenagem−  também tenho meu ritual para todo 15 de setembro, desde 2008. Ele é longo e costuma durar mais de um dia. Escuto toda a discografia do Pink Floyd sequencial, pois que sua contribuição se faz presente em toda a obra do Floyd. Aliás, minto. Toda a discografia não. Pulo o álbum The Final Cut, o mais triste capítulo da história da banda em que Waters monopolizara todo o processo de criação e os demais integrantes eram meros telespectadores, músicos contratados, sem nenhum nível de interação real com o álbum que é bom, mas é um triste momento floydiano.

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Essa overdose floydiana sequencial tem por hábito me deixar num torpor de êxtase melancólico. Uma melancolia tão preenchida, tão impulsionadora. É difícil descrever; Floyd feelings

A morte de Wright foi, no mais profundo âmago da lama floydiana, a certeza de que o sonho acabara. Sem Wright, não haverá mais possibilidade qualquer de se ver o Pink Floyd novamente reunido. Sem ele, não faz sentido.

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Sua obra-prima, sem dúvida, é The Great Gig in the Sky, faixa antológica do álbum dos álbuns, Dark side of the moon.

bright side

great gig in the sky

Há quem o considere o George Harrisson do Pink Floyd. Blasfêmia! Embora entenda o sentido da comparação e doutras possíveis entre Beatles e Floyd, as bandas tão em patamares de processo de criação e de estrelato, meio que sem parâmetros para paralelos muito profundos. Particularmente, óbvio que prefiro Floyd, mas reconheço a importância e o papel dos fabfour.

Dark side of the moon é, sem dúvida, o ápice do processo de criação de Wright no Floyd. Cinco das dez músicas têm sua ativa participação. Destaco a genialidade e suavidade de Us and them.

i'll see you- wrightWright ainda se dedicou, como todos os demais integrantes da banda, a uma carreira solo paralela de muito menos repercussão do que o Pink Floyd, claro. Mas há aí algumas pérolas de sua busca por uma sonoridade a um só tempo penetrante, harmonicamente grandiosa e de densas levezas. Desse veio, saíram dois álbuns, Wet Dream (1978) e Broken China (1996). Ainda há o trabalho dele com Dave Harris, em 1984, logo após The Final Cut, na parceria intitulada como Zee, de um único álbum, Identity. De seu último álbum, vale muito a pena ouvir esta soberba e transfigurante canção, em parceria com o magistral David Gilmour:

De Wet Dream, trago a singela Summer Elegy:

love wrightEm 1969, no álbum que cumpriria o papel de demarcar o período pós-Syd Barrett, dando vez aos maiores experimentalismos da história da banda, Rick compôs a canção Sysphus, bem na ambiência desse experimentalismo, em quatro partes, abaixo reunidas:

De outros álbuns da banda, vale lembrar a onipresença de seus teclados no álbum Wish you were here e de sua presença portentosa em Animals. A canção, talvez hino, a Barrett, Shine on you crazy diamond, de Wish you were here, tem sua participação em todas as cinco partes.

Há em outros álbuns da banda composições suas, às vezes despercebidas, como Summer ’68, de Atom Heart Mother, do ano de 1970.

Encerro meu texto homenageativo a um gênio e definidor da história floydiana, com uma de suas mais belas composições, em parceria, com David Gilmour, no último álbum do Floyd, The Division Bell, de 1994:

richard wright- homenagem feice

“I’ll see you on the dark side of the moon”

“Eu nunca toquei com alguém como ele. A combinação de sua voz e da minha, assim como nossa telepatia musical, floresceu pela primeira vez em 1971, em Echoes.” (David Gilmour, sobre Rick Wright.)
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7 opiniões sobre “O lado obscuro da lua e brilhante da musicalidade

  1. Meu querido amigo ,
    adoro ler seus textos . Para mim , são verdadeias aulas de amor à boa música e me informo muito , dessa maneira .
    Obrigada por mais um dos brilhantes ! Á propósito , soube que Ben Afflek está te procurando …risos..
    Beijão para vc e para a Musa Música ! Adorocês !

  2. Obrigado, Ana! É bom receber suas manifestações de prestígio e atenção! Sobre o Affleck, espero que ele não tome como pessoal. E a Música, tá aqui museando minha vida! 🙂

  3. Olá Anderson, que lindo texto! Até pouco tempo atrás eu praticamente ignorava o Pink Floyd. Obviamente pelo tipo de gente que era fã da banda, eu sempre respeitei… rs… Até que num desses encontros felizes, um aluninho cabeça me emprestou PINK FLOYD LIVE AT POMPEII. Finalmente, lendo PINK FLOYD E A FILOSOFIA consegui entender o papel singular que essa banda ocupa na história da arte universal. Seu texto, fazendo justiça a Richard Wright, nos ajuda a lembrar de seu protagonismo na construção desse legado. Boa “overdose floydiana” pra vc. Um abraço.

  4. Obrigado, Dona Ara! É… o Pink Floyd diz respeito a camadas bem sérias de sensibilidade, referências e transcendências… É reflexão e fruição em estado puro (i)materializados em harmonias, melodias, tons, ideias musicalizadas, sentires acústicos! Enfim, uma banda pra ser vivida! Valeu de novo! 🙂

  5. andreabdeoliveira

    Odisseu, uma das coisas que mais me encantam em vc é que tudo que vc gosta, tem muita paixão, muito interesse, muito amor e dedicação! Com isso, viver ao seu lado se torna uma experiência de troca e aprendizado ímpar! Eu adorava Pink Floyd qdo nos conhecemos, mas com vc aprendi a viver Pink Floyd, sentir Pink Floyd, me extasiar em Pink Floyd, de tal forma que impossível ouví-los sem pensar em vc… Sua homenagem a Richard Wright está linda, aqui e aqui! rsss…

  6. Minha Música, cê é uma dessas vivências em paixão! ❤

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