Voto de Minerva

STF-pizza

Transcrição do último voto proferido pelo Ministro Doutor PHD Supremo Professor Transverso de Mello Júri.

Caros colegas, sem que haja escrutínio do voto que profiro, prefiro parecer honesto a ter qualquer honestidade em meu parecer. Por razão de coerência, algo que me afasta da consciência, sou obrigado a, neste capítulo de nossa história, mais uma vez capitular.

Com a voz embargada, quase embriagada de tantas citações a juristas do passado – esses que construíram a bela imagem de incompetência da Justiça Nacional ao longo dos séculos –,  afirmo-me pela infringência. Voto a favor dos embargos, embargadores e até de alguns desembargadores. Mas, só por desembargo de opinião.

Sei que há milhões nas ruas. Mas são menos que os milhões nos bolsos de muitos de nós por aqui. Nunca ouvimos as ruas, por que haveríamos de ouvir? Nunca houve cláusula que nos obrigasse a estar ao lado do povo, por isso nunca estivemos. Somos o Supremo, jamais lutamos pela democracia enquanto havia tortura nos porões da ditadura. Somos o Supremo, absolvemos Collor quando a massa das ruas o queria fora. Somos o Supremo, ora! Fechamos os olhos para a reeleição de FHC e de toda a privataria tucana, com direito a esquecermos o mensalão operado nas Minas Gerais.

Ora, nobres colegas, não estou votando aqui por casuísmo, mas por tradição. Nunca condenamos ninguém, ignoramos a corrupção que sempre houve e nos era relatada. Extinguimos uma ação penal contra o Maluf! Meus caros, não sejamos hipócritas. Meu voto é fundamentado pelo princípio constitucional da isonomia. Todos os que locupletam e se apoderam do erário têm salvo conduto. Por que estes réus não?

É o direito à impunidade. O que dizer de um país onde há leis que “pegam” e outras que não? Melhor não punir ninguém e mostrar o comprometimento com nossas fardas vergonhosamente indicadas que ter de explicar a nós mesmos por que escolhemos apenas alguns para servir de exemplo. Será que Vossas Excrescências creem que a corrupção no país foi inventada em 2002?

Se é que houve algum comportamento criminoso e quisemos ser sérios alguma vez neste circo, quer dizer, nesta corte, por que não incluímos o filho do presidente deste Tribunal na lista de réus, já que fazia parte do mesmo conluio? Não há de se falar aqui em absolvição, mas de dar uma nova chance a este Tribunal de ser o que sempre foi: omisso e conivente.

Somos tão sujos quanto os que julgamos. Que dizer da pressão por nossos filhos nos tribunais estaduais? Que dizer dos colegas que aqui jamais advogaram e que não poderiam sentar-se neste tribunal? Que dizer de todos que usam as viagens em licenças e férias, malversando o dinheiro público da mesma forma imoral como acusamos os réus?

Este é um voto não de absolvição, mas de condenação. A condenação de todos nós por nossa corrupção velada, por nossas relações promíscuas com os outros poderes, pela venda de nossa história aos grupos de mídia. A condenação de todo o povo brasileiro, que se vê espelhado perfeitamente na toga de seus juízes. Respeitamos a ética dos que vociferam pela honestidade e que aproveitam suas esferas de atuação para transgredir as leis, sonegar seus impostos, piratear seus mp3, subornar os guardas entre outros pecadilhos menores, que não lhes impede da cornetagem.

Por fim, senhores, ouvi e vi as ruas. Percebi que chegará aqui a demanda da lei que proíbe as máscaras. Pois bem, a minha já retirei. Pela isonomia da impunidade. Ou passemos a ser sérios e condenemos todos os que roubaram. Não sobrará Congresso, Assembleia, Câmara ou cargo executivo. Para ensinar pelo exemplo, como fariam os verdadeiros sábios, façamos, então, a única coisa digna que nos resta: renunciemos e fechemos esta casa, pois a Justiça jamais pairou por aqui.

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Categorias: Política | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “Voto de Minerva

  1. Ulysses

    Walace Cestari, tuas palavras são impregnadas de sangue, carne, ossos, cérebro, coração, fezes e urina.
    Na maioria das vezes eu tento me manter racional quando penso politicamente. Para mim é um campo de constante vigilância. Tenho medo de corromper a racionalidade da palavra – já corrompida por natureza – com a pureza do sentimento. Seja esse o que for. Mas às vezes, quando vejo a política sendo exercida – da forma que é exercida – não dá pra fingir que não sou feito de sangue e carne e ossos… Nesse momento o cérebro não é nada mais do que um amontoado de células revoltadas.
    Somente um escritor brilhante – como você – para ter ânsia de palavras quando só tenho ânsia de vômito.
    Eu amo teus textos.

  2. Walace Cestari

    Camarada, nada pode me fazer mais vaidoso que um elogio teu. Sempre me restará agradecer a você pela estrada política e pelos exageros quando fala bem de mim!

  3. Walace ,
    seus textos costumam me deixar sem palavras , sempre emocionam e dá uma vontadezinha de chorar diante da beleza.
    Obrigada !
    Ana

  4. Walace Cestari

    Obrigado, Ana!

  5. Eduardo Felipe Pereira de Castro

    Explêndido.

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