A crônica de um desejo infantil fracassado

 

Talvez para compensar tanto dissenso e destempero ocupando as redes sociais esta semana, me pus a pensar se haveria algum tema político no Brasil, hoje, capaz de produzir um consenso para abordar na crônica semanal.  Fiquei animada. Uma linda crônica leve e otimista sobre o que nos une ao invés do que nos separa.

O que poderia ser ? Pensei em falar de economia. Complicado. Enquanto os números de crescimento do PIB, de diminuição do desemprego, de aumento da renda média, da baixa inflação, da queda do dólar são exibidas por uns como provas incontestes que estamos no rumo do desenvolvimento, na arquibancada da frente gritam os que apontam que a estrada termina logo ali, num abismo cheio de som e fúria.  Isto para falar apenas nos que acreditam que o desenvolvimento passa pelo modelão consagrado capitalista de crescer, produzir e consumir como se não houvesse amanhã.  Porque há ainda os que vão mais longe na discordância, desejando frear o desejo de copiar a trilha repisada dos mais velhos de consolidar uma burguesia nacional, aprimorar o Estado de Direito, republicano e democrático, capitalista e competitivo e crescer, crescer, crescer. Mudei o rumo. E se falasse do leilão de Libras ? Difícil. Até entre os que confiam cegamente no modelo desenvolvimentista, há controvérsia. O leilão deve ser adiado, não deve ser adiado,  a Petrobras tem condições de assumir a empreitada sozinha, não ela não tem, por questões técnicas, por questões geopolíticas. O dinheiro virá para a educação. Bem, quanto a isso parece haver certa harmonia no coro. Educação, a solução para o Brasil é a educação ! é o que mais se ouve pelas esquinas da pátria. Isso, parece concordar o coro. Educação para o trabalho que com o trabalho o homem pode tudo.  Educação técnica, mais uma geração de operários especializados cujas habilidades vão ficar obsoletas em relação direta com o avanço tecnológico robótico? É o coro dos dissidentes que começa na ironia mas não para por aí. É preciso uma educação integral, emancipatória, aquela que faça da criança um adulto capaz de avaliar criticamente o mundo . O que atrasa o Brasil são os esquerdistas, grita o naipe dos direitistas. A família é tudo, a escola só forma, a família é quem educa! Mudei rapidamente de ideia. O cancelamento da viagem da Dilma para os EUA… nem pensar. Produtos cancerígenos na coca-cola e o abuso dos pesticidas na nossa lavoura. Boa. Quem poderia ser contra ? Bobagem, não há escolha, sem pesticida e transgénicos vamos todos passar fome – e eis que à esquerda e à direita se levantam vozes em uníssono. O índios. Bem, com estes, quem se importa, luta como pode para apoiá-los, quem não se importa, em silêncio cúmplice tapa os ouvidos para não ouvir os tiros dos capangas de grileiros e latifundiários fazendo o serviço sujo de abrir a trilha na selva para as máquinas e os bois passarem.  E a reforma agrária? Há quase 200 milhões de hectares de terras improdutivas e as famílias dos sem terra continuam a ser obrigadas a saírem do campo. Famílias que poderiam produzir alimentos orgânicos, matando dois coelhos com uma paulada. Olha que assunto ideal para construirmos um consenso. Penso no tamanho da bancada ruralista e seus milhões de votos e na inutilidade das idealizações. Desisti de vez de escrever esta crônica do consenso.  

Me senti meio infantilizada com meu fracasso. Daquele jeito que ficam as crianças quando descobrem que nem tudo que querem, podem , nem tudo que desejam é realizável. Não cheguei a ficar emburrada e raivosa, como vi tanta gente esta semana,  por descobrir que o mundo não é um lugar plácido, onde o consenso é fácil e as verdades estão aí, prontas para consumo. Afinal, sou adulta e tenho educação suficiente para saber que que a vida é contraditória e complexa.  E gosto o suficiente de temas políticos para saber que a Política  é a arte de desarmar artefatos bélicos. Fazemos Política na esperança de evitar a guerra. Inventamos a Política para não passarmos a vida a dar com porretes na cabeça uns dos outros.  Por aqui ainda não assimilamos muito bem este pressuposto básico mas meu lado confiante e otimista, que trouxe roubado da infância, me pede para acreditar que vamos acabar chegando lá.

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