Pasteurização hollywoodiana

Hollywood: a meca do cinema, glamour em flashes e tomadas, o sonho cinematográfico de boa parte do globo!

Tenho que confessar umas coisinhas em meu pacto prévio de leitura pra este texto. Quem o escreve abomina e renega radicalmente Hollywood, exceção feitas aas obras nerds− há de se ter princípios superiores afinal. Isso pra mim é muito simples. É de Hollywood, cinema blockbuster pipocão, tô nem aí! Que se dane! Assim, desprezo por completo o tal Oscar (não o Mão Santa, por favor!). Assim, sequer vejo filmes que concorram ao Oscar, a não ser anos e anos depois, quando já se encontram, na medida do possível, descontaminados do apelo cinemão. Assim foi com As Horas, em que engoli a seco e estupefato uma atuação primorosa de Nicole Kidman, cuja capacidade interpretativa desconhecia de todo até então. A vida é assim: perdas e ganhos. Estou certo de que ganho muito mais do que perco ao adotar a postura de execração do telão hollywodiano.

cine pipoca

Tenho consciência de que a “Sagrada Trinca do Cinema-Arte”, Cannes, Berlim e Veneza já não é mais sagrada nem é mais tão arte assim. Mas ainda há uma contraposição mínima que seja entre um cinema-produto e um cinema que, se não merece por premissa de pretensão que seja, o nome de arte, há de se reconhecer como menos comercialoide.

Essa é questão de que quero, enfim, tratar aqui. Hollywood pasteuriza terrivelmente tudo que por sua mão passa. Assim, cinema com pretensão de reflexão não existe. É só cinema-entretenimento e que se venda mais pipoca! Me desculpem ser ranzinza neste assunto, mas não acho que cinema seja, necessária e prioritariamente, entretenimento. A propósito, sou muito contra consumo de alimentos e bebidas em cinema. O espaço da sala do telão pra mim é sacro!

Ocorre que como se pode supor, muito da aparente criação dos estúdios de Hollywood é cópia. Então a grande indústria cinematográfica norte-americana vive a se constituir de destruir filmes, tornando-os produto de rápido e fácil consumo e assimilação de grandes massas de público.

[Preciso duma digressão para falar de Bollywood. Bem, já a iniciei, né? Bollywood (Bombain + Hollywood) designa tanto a indústria de cinema em língua híndi quanto, metonimicamente, o conjunto do cinema indiano. A indústria de cinema indiano produz cerca de 900 filmes/ano, quase o dobro de Hollywood. E há uma peculiaridade nisso tudo. Na Índia, país com 22 línguas oficiais (há centenas de outras não oficiais), é comum que um filme, sobretudo se fez sucesso, seja refilmado com elenco e língua locais.]

Mas vontade aa prática cinematograficamente xeroxista de Hollywood, é importante que se tenha noção que é ampla. Mas, vamos lá. Isso, em si, não é problema algum. O problema é a porcariada que refilmam dando ao público a pior versão do que antes existia.

Quero me basear em apenas três grandes exemplos comparativos. Mas, antes, só botar aqui um link nu e cru que dá uma ideia da abrangência do processo: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_English-language_films_with_previous_foreign-language_film_versions (a maioria é realmente norte-americana. E a lista não é completíssima. Um dos que vou abordar, por exemplo, não está nela).

É assim: pega-se um filme de circuito muito mais restrito e esse é refeito ao gosto norte-americanoide. Faz-se bacon a partir de pérolas.

Os três casos que quero pegar como exemplos são dos filmes-pipoca The Number 23, Vanilla Sky e Grudge (O Grito).

23bThe Number 23 (Número 23, aqui e em Portugal) é uma refilmagem de 2007, com Jim Carrey, sem caras e bocas− poderia ter até− e com direção de Joel Schumacher (de quem só tenho recordações boas por causa de O primeiro ano do resto de nossas vidas, mas não pela qualidade cinematográfica). O original é um alemão, de 1998, denominado 23, do diretor Hans-Christian Schmid, que passou no Brasil só no circuito de mostras de cinemas e festivais, ou seja, com pouquíssimas exibições. Tive sorte de assistir a uma delas no Festival de Cinema do Rio. É até difícil encontrar informação sobre o filme de tão underground que se tornou seu circuito.

O segundo caso é o de Vanilla Sky, com o ultrapop Tom Cruise, no papel principal. O filme de Cameron Crowe é de 2001. O original é de 1997, dirigido pelo excelente Alejandro Amenábar, conhecido do grande público pelo− sim!− hollywoodiano Os Outros. Há um fato curioso entre essas duas filmagens que é a presença da atriz Penélope Cruz vivendo o mesmíssimo papel.

o bom e o mau

[A partir daqui, alguns possíveis SPOILERS ocorrerão! Atenção!]

"Abre los ojos"

“Abre los ojos”

"Vanilla Sky"

“Vanilla Sky”

Em português, o filme original atende por três nomes distintos: Abre los ojos (SPOILER: a perturbadora última frase do filme e também a primeira. Mas, só ao fim damo-nos conta de quão aflitiva ela era já desde o início), Abra os olhos (título português) e Preso na Escuridão (título brasileiro).

Aqui temos um exemplo ainda mais perfeito do que chamo de pasteurização cinematográfica. A versão original é um drama psicológico inquietante. A norte-americana, uma história de amor. No primeiro, tateamos por respostas até o fim (SPOILER! Na verdade, depois do fim também). No segundo, se constrói uma narrativa bem mais acessível, linear, em que surreal em si é elemento que chama a atenção. O entendimento do que, afinal, se passa não consome tanto o telespectador quanto a expectativa pelo desfecho amoroso em questão. O filme precisa ser servido já pré-digerido. O maior trabalho mental do público deve ser como consumir seu balde de pipoca. Afinal, “cinema é a maior diversão”. Pensar pra quê?

No caso de O Grito, The Grudge é um filme tão racionalzinho, organizado cronologicamente, tão menos trabalhoso. Afinal, se já há sustos aos montes, para que ainda se ter o trabalho de interpretar o sentido do conjunto de situações, né? No fim das contas, The Grudge é até menos assustador do que Ju-on, como se dá na demais conversão de filmes de terror japoneses para a versão liquidificada em Hollywood. Samara que o diga. Blockbuster RULES! Infelizmente.

[The Grudge]

[Ju-on]

No fim das contas, é a questão mesma se cinema é uma obra de arte passível de análise e interpretação ou um produto pronto e acabado pra consumo fácil e ágil? Claro que aa luz de nossa sociedade nem cabe esse questionamento, a não ser em utopia ingênua. Mas como me norteiam as utopias… imaginem nas artes, em que os nortes são multidirecionais…

Mas, pra encerrar, por ora, essa história, assim é Hollywood: transforma as películas em massa visual disforme e insossa. Uma máquina de moer filmes, retirando-lhes o valor e lhes incutindo preços. E altos! A menos-valia da arte cinematográfica que vale muito aos bolsos de sua indústria. Hollywood idiotiza obras e pessoas. Que o digam Pedro Banderas, Ang Lee e, polemizando (mas fazer o quê? “Consensos não são bem-vindos”), Quentin Tarantino. O contrário também ocorre. A própria Nicole Kidman serve de exemplo. Conforme foi se deshollywoodinizando, foi melhorando como atriz. Que o diga sua atuação em Dogville, embora não considere-o exatamente cinema. Tá mais pra teatro filmado. Mas, façamos assim, Tarantino e Lars Von Trier são papos pra outra prosa, ok?

Por fim, deixo aqui Abre los ojos integral pra quem tiver interesse e tempo de conferir:

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Categorias: Crítica | Tags: , , , , , , , , , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Pasteurização hollywoodiana

  1. pauloffred

    Muito bom, e ainda “ganhei” um filme para ver hoje

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