LOUCURA, Obama e a Renascença nuclear

LOUCURA, Obama e a Renascença nuclear
Faça como as crianças, que primeiro inventam seus jogos e depois acreditam neles.
– Luigi Pirandello

Lembro de visto, certa vez, não lembro onde, um vídeo alunos de escolas americanas ensinando o procedimento de segurança em caso de um ataque nuclear soviético. Assim, ao soar um alarme, crianças sorridentes e organizadas se escondiam embaixo de suas mesas enquanto bombas nucleares eram vistas explodindo pela janela da escola. Poucas imagens poderiam ser mais falsas do que aquelas. Lembro também de um pequeno texto de Umberto Eco, falando sobre a Mafalda de Quino, que dizia algo como ser ela a representação da geração que cresceu em meio a paranoia nuclear e espremida entre a “lógica de blocos”. Nada poderia ser mais certo. Não sou tão velho quanto a Mafalda, mas o “pesadelo nuclear” tirou, durante a minha infância, assim como de muitos, horas preciosas do sono tranquilo, que deveria ser reservado para todas as crianças. Este texto pretende explicar as origens indigestas desse medo.
As armas nucleares têm tido incontáveis e incansáveis defensores. As argumentações variam de lógicas de defesa até dissertações sobre a sua importância para o fim da Segunda Guerra Mundial, e sobre como elas teriam poupado muito mais vidas do que tirado, segundo essa lógica, no até hoje felizmente único ataque nuclear de toda a história: os crimes aéreos de Hiroshima e Nagasaki. Pelo lado da defesa, as armas nucleares são consideradas como fatores que inibem as guerras, e não que as comecem. O raciocínio é o seguinte: guerras nucleares são sabidamente tão catastróficas, que ninguém seria irracional o suficiente para iniciá-las. Portanto, a proliferação dos arsenais seria uma garantia de manutenção da paz no mundo, uma vez que governantes racionais jamais optariam por usá-los. Claro que para isso funcionar, os sistemas de defesa têm que ser baseados em mecanismos automáticos de retaliação, para o caso do inimigo atacar primeiro. Essa lógica é como “dissuasão” (nuclear deterrence – para os adeptos) ou então como MAD (Mutual Assured Destruction – para os detratores). Quem se liga em cinema já deve ter percebido que essa lógica demencial está na base da grandiosa sátira que é “Dr. Fantástico, ou como aprendi a amar a bomba”, do Kubrick.
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Outro personagem famigerado da época também é parodiado no mesmo filme. Apresento a vocês agora Edward Teler. Conhecido pela mui desonrosa alcunha de “pai da bomba H”, Teler foi um cientista medíocre que alcançou importância política decisiva de carona na histeria anticomunista e na paranoia do Macarthismo, denunciando colegas para o comitê de atividades antiamericanas e para tomar os seus lugares – foi assim que ele derrubou Robert Oppenheimer para tomar seu lugar à frente do Projeto Manhattan (outro personagem desagradável também teve um début político parecido, denunciando seus colegas de Hollywood para a mesma comissão: seu nome, Ronald Reagan). Teler foi um dos responsáveis de bastidores pelo aumento vertiginoso dos arsenais atômicos do planeta e um dos arquitetos da LOUCURA, uma vez que usou sua influência para convencer governo atrás de governo da necessidade de aumento desses arsenais e de criação de armas cada vez mais potentes (foi daí que veio a bomba H). À medida que o suicídio nuclear se tornava patente, Teler foi “evoluindo” as suas propostas na direção do teórico “uso pacífico” das armas nucleares. Algo como usar bombas atômicas, digamos, em obras de engenharia de envergadura, como retirar montanhas inconvenientes do caminho, e coisas dessa ordem. Existe uma história, ao que tudo indica anedótica, pois vem do Carl Sagan, que era uma espécie de arqui-inimigo de Teler, que narra um suposto dialogo entre ele e a rainha da Grécia, que teria recusado alguma proposta de uso pacífico, dizendo: “Obrigado, Mr. Teler, mas nesse país nós já temos ruinas o suficiente”. Anedótica ou não, é uma ótima história. O pior é saber que o quadro irracional e aterrorizante em que vivemos, à sombra da ameaça de aniquilamento total, foi desenvolvido por oportunistas muito mais interessados no poder, na influência e nos altos orçamentos em que puseram suas mãos para desenvolver tais projetos.

Besteiras nucleares

Fico sempre na dúvida se os textos que escrevo não ficam pesados demais para internet. Por isso, resolvi trocar a elegância de um texto corrido por um mero levantamento em itens de questões para encerrar de maneira mais rápida esse texto:

– Salt e Start. Dois programas “para inglês ver” respectivamente de limitação e de redução dos arsenais, firmados entre EUA e URSS. Foi em decorrência do Start que vimos aquelas cenas na televisão nos anos 1980 de mísseis nucleares sendo desmantelados pelas duas potências. O problema é que a tecnologia nuclear jamais parou de se desenvolver, então mesmo reduzindo o número total de ogivas, a capacidade destrutiva dos arsenais (medida em megatons) só aumenta.
– Tratado de Não Proliferação (TNP). Outra cascata. Prevê um regime que congela a capacidade nuclear mundial (o que não deixa de ser uma boa ideia), pois deixa os que já têm armas mantê-las, e proíbe quem não tem de adquiri-las. Prevê, em contrapartida, a transferência de tecnologia dos países que a possuem para os que não a possuem, para usos pacíficos (simplesmente nunca aconteceu). Salvo engano, também prevê a redução dos arsenais de quem as têm. Como visto no item acima, também nunca aconteceu, já que as reduções de EUA e URSS na verdade trocaram mísseis de médio alcance e relativamente obsoletos por armas de maior poder de destruição.
– Armas nucleares causaram menos mortes do que evitaram. O único pingo de verdade nesse argumento é que, de fato, os bombardeios convencionais na Segunda Guerra mataram muito mais do que os atômicos. Vejamos uns números: Dresden (Alemanha): 25.000 mortos em quatro bombardeios de 13 a 15 de fevereiro de 1945. Hiroshima: 45.000 mortos na hora, mais 19.000 nos quatro meses seguintes em decorrência da radiação. Tóquio: 100.000 mortos espalhados pelos 40 km2 da cidade destruídos por bombas incendiárias aliadas (todos esses números são estimativas e podem variar segundo a fonte. Na realidade, qualquer coisa a contar acima de alguns milhares é uma estimativa, ninguém contou os corpos um por um, evidentemente). A única diferença entre os ataques convencionais e os nucleares é a mesma entre a morte à vista e a morte a crédito. Os números de óbitos rivalizam nas duas “modalidades”, e não há diferença visível entre fotos aéreas da destruição após os ataques em Hiroshima ou em Dresden.
– Obama. Foi a pior opção de prêmio nobel de todos os tempos. Além de não fechar Guantánamo e não encerrar de fato e a rigor nenhuma das duas guerras (promessas de campanha, diga-se), está reacendendo a corrida armamentista pela teima de cercar a Rússia com bases militares e plataformas de lançamento de bombas nucleares (numa continuidade desconcertante com o seu predecessor, aquele que todo mundo sabe quem).
Bundesarchiv_Bild_183-Z0309-310,_Zerstörtes_Dresden

Pretendo alguma hora escrever qualquer coisa de mais solta e leve. Mas creio que semana que vem, até porque na realidade há uma continuidade entre os assuntos, postarei um texto sobre o Irã.

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