Do magistério e suas (im)possibilidades – parte 1

Tentei encontrar uma imagem mais perto da realidade que encontramos em sala de aula, mas só vi imagens de alunos sentados nos lugares com as mãos levantadas, solicitando participação. Muito fake nesse Google!

Cena do filme “Entre os muros da escola”

Caí no magistério sem muita convicção. Recém-formada e aprovada em concurso público, a sala de aula me parecia alternativa à vida profissional que eu vinha levando sem nenhum entusiasmo, atendendo telefonemas em central de mensagens por bip, trabalhando de domingo a domingo, numa atividade enfadonha de digitar o que as pessoas queriam que fosse enviado para o dono do aparelho de número tal. Teletrim e afins, lembram?

Tinha quatro meses de formada e meu primeiro dia no curso noturno foi assustador. Eu tinha 22 anos, cara de menina e tentava aparentar mais idade, me escondendo em roupas largas e compridas e com óculos de aros grossos. Fiquei assustada com os grupos que entravam e saíam de sala, com os cumprimentos efusivos entre eles, ainda que eu estivesse no meio de uma explicação. No fundo, eles pareciam não dar a mínima. Felizmente, eu não podia dizer o mesmo.

Aos poucos, fui percebendo que, para aquele grupo em defasagem idade-série, a escola cumpria papéis vários, entre eles o de resgatar uma memória inexistente. Explico: vivências não tidas na infância ou na adolescência apresentavam-se agora na vida adulta e, com certa euforia, os alunos exercitavam comportamentos típicos de outras faixas etárias. Tudo bem que já existem correntes da psicologia que afirmam que a adolescência hoje vai até os 30 anos, alguns se arriscam a dizer 40… Mas definitivamente, não era o caso. A questão era a apropriação de algo que tinha sido usurpado em momento pregresso e a necessidade de tomar para si a experiência subjetiva de estar na escola.

Em paralelo a isso, minhas crises de identidade profissional me faziam lamentar a perda do posto de coleguinha de turma queridinha da faculdade. Sentia saudades do tempo em que havia um público disposto a ouvir o que eu tinha a dizer. Minha vida universitária era animada por essa vaidade/necessidade de dividir pensamentos, inquietações, reflexões. Lembro-me de um colega genial, o Luis Felipe, que estava de saída da aula para fazer outras coisas, quando me perguntou: peraí, o seminário hoje é seu, né? Então vou voltar, porque vai ser bom.

Foram necessários alguns anos até que eu ouvisse algo parecido vindo dos alunos. Inquieta que sou, nunca desisti de provocar mudanças. Não no sentido de ser responsável por elas, mas no sentido de incitá-las. Acho que essa postura teimosa, de não se render ao habitual me proporcionou mais motivos para comemorar do que para lamentar. E a constante autocrítica que me acompanha, prestes a me abocanhar a jugular, também me impulsiona tanto na atualização quanto na revisão de metas, de propostas, de material, de dinâmica e alternância de vozes.

Lamento muitíssimo que tenha seguido por caminhos que tenham me afastado um pouco desse espaço que me é tão caro e especial e tão repleto de contradições que é a escola. Com licença sem vencimentos para conseguir dar conta do doutorado, afastei-me (ainda que temporariamente, não sei ainda) da FAETEC que deveria ser meu estímulo e apoio nesse processo de qualificação. Por outro lado, trabalhando em outra instituição que me demanda o cumprimento de atribuições administrativas na maior parte do tempo e alocada em sala de aula por quatro horas semanais (porque descobriram que, isso sim, me dá prazer!), consigo ter a certeza de que preciso voltar a ser única e exclusivamente professora, com todas as agruras que o sistema público de ensino comporta e com todas as possibilidades de atuação que nele vislumbro. Não estou, com isso, romantizando o espaço escolar, ou acreditando que nele encontrarei soluções para todos os problemas ou dilemas. Não há soluções imediatas para os novos problemas que surgem, mas as perguntas são frequentemente mais interessantes que as respostas e é nisso que fundamento meus anseios.

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Categorias: Crítica, Reflexões, Sociedade | Tags: , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Do magistério e suas (im)possibilidades – parte 1

  1. Leo Poldo

    Belo texto, Aline! Você é uma ré professa.

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