Igreja da Revelação para a Paz

Dizem que os números das vítimas da violência no Brasil indicam um país em guerra e se tem de concordar. Mas isto não é privilégio nosso,  vamos ser globalmente honestos, o mundo não está em melhor situação. Nem a antiga próspera Europa está, se somarmos às estatísticas os depauperados pela guerra do sistema financeiro contra todos que estão no seu caminho.  Quanto ao Brasil, vamos parar de dizer que o país é pacífico, que a última guerra foi há mais de 100 anos, aliás, um genocídio respeitável dos paraguaios que pagam a conta até hoje. Tirando  alguns poucos anos nos quais não houve chacinas de grande monta, o resto da História é um inventário de levantes e massacres, mais ou menos localizados, como Canudos, mais ou menos generalizados, como a II Grande Guerra. Motivos, dizem os que escrevem a História, são variados : religiosos, étnicos, econômicos, territoriais mas idênticos se concordarmos reduzir ao seu mínimo denominador comum. Grupos humanos disputando o mando. Quem manda em quem. Quantas vezes os perdedores sendo o grupo que não pretendia impor algo aos demais mas preservar sua própria autonomia e determinação? Me socorram os historiadores. E me corrijam se é engano pensar que , de maneira geral, as guerras são mais sangrentas quanto mais um dos lados possua capacidade superior de massacrar o outro. Algum equilíbrio parece vir mesmo de mais equivalência de poderes entre os vários disputantes.

Bem sei que não estou produzindo nenhuma grande ideia ou novidade. E só repito o já sabido para declarar quais premissas embasam o empreendimento que pretendo iniciar o mais breve possível : a criação de um Igreja. Uma Igreja voltada à promoção da paz e da justiça no Brasil.  Fui aconselhada a criá-la muitas vezes, por amigos generosos a elogiar a fluidez da minha oratória e meu poder de convencimento. Isso é o que eu gosto de acreditar.  Na real acho que era um toque sutil de que estava sendo tão inconveniente quanto os pregadores. Eu sei, meu empenho em levar à lona as besteiras que os meios de comunicação de massa cospem dia e noite em nossos ouvidos às vezes se veste da paixão dos missionários. Pois bem, meus amigos, vocês tem razão. Os argumentos podem muito pouco. Contra a violência física e as armas eles não podem nada. E são quase irrelevantes diante da força da fé que move nosso povo. Deixarei de encarar a discussão política pelo viés racionalista e passarei à militância pelo viés da fé.

Somos um povo de crentes e isto tem sido cantado como a gênese e a sepultura da nossa maravilha .  Cremos, cremos muito. Em Deus, em Oxalá, na Virgem Maria, em Buda, nos poderes vingativos de Oxóssi, na atitude abnegada de São Franciso, nos desígnios imperscrutáveis de Jeová. Mas cremos, sobretudo, que somos um país imenso, rico, plural, capaz de façanhas incríveis no futuro. Ultimamente há dissidentes que afirmam exatamente o oposto, isto é, que não somos nada, nunca fomos nada e não podemos querer ser nada.  À parte isto, ambos os lados acreditam que somos diligentes trabalhadores que quanto mais pobres e mais pretos mais felizes e sorridentes e quanto mais ricos e brancos mais felizes e sorridentes. Cremos, e muito, no poder da alegria. Quando estamos de bom humor. Se as coisas dão para o torto, preferimos crer que há uma parte de ricos ou pretos, brancos ou pobres, que trabalha e recebe o quinhão correspondente ao seu esforço enquanto que “ os outros” matam, estupram, roubam, se corrompem, em suma, são feios, sujos e malvados.  A mística da maioria de nosso povo reza ainda que os primeiros (os tais “ diligentes trabalhadores”- tanto os que trabalhando, não têm dinheiro para o ônibus  quanto os que compram canais de tv) são sempre bons e “ os outros” é que estragam tudo. E esta mítica fundamental sustenta o pior e o melhor de nós. Pois é o quê, senão a fé, a sustentar que tudo está no seu lugar, graças a Deus, que leva o policial, mal pago e violentado de todos os lados, a descer o cacete no jovem, pobre e revoltado, que atira pedras nas vidraças dos Bancos? É ou não é a fé de que eles tudo podem e nada os detém que mantém os proprietários de empresa subornando funcionários públicos para ganhar concessões de serviços públicos ?  Não seria a fé que faz gente cristã – cristã de passar a vida divulgando música gospel- a crer que se os policiais tivessem licença de atirar para matar, sem correr o risco de serem punidos, em breve estaríamos todos livres de assaltos ? Aliás, a fé nas armas é tão poderosa que vi, recentemente, a pregação de um pastor em uma igreja neopentecostal defendendo apaixonadamente que seus fiéis caçassem e exterminassem bandidos sem dó.  Sim,  para vantagem de uns e eterna desgraça de outros tudo aqui se reduz à mítica luta do Bem contra o Mal.  A luta nunca foi entre proprietários e os sem propriedade; ricos e pobres. Nunca foi entre os que podem tudo desde o berço e os que não tem direito a nada a não ser trabalhar até a cova. A questão aqui nunca foi não sabermos ler os textos bíblicos e laicos. Sempre houve quem os traduzisse para não ficarem tão chatos !

Daí que eu fiquei pensando. Se Davi se considerasse tão forte quanto Golias, resolvendo enfrentá-lo de mãos nuas  decerto não teria sobrevivido, nem teria façanha alguma para contar. É ou não é o caso de se fundar uma nova Igreja que também proponha interpretações para estes e outros textos, fábulas, histórias e mensagens? Uma igreja que fortaleça a compreensão de mundo e com poder de dar algum sentido à vida dos fiéis ?  Porque uma coisa nem o mais cético dos céticos pode negar. Ninguém vai à Igrejas se não estiver angustiado com os limites de sua compreensão do mundo, com a frustração de seus esforços. As pessoas vão em busca de respostas sobre o porque sua vida é como é, uma comunidade com quem possam conviver em paz, que partilhe as mesmas crenças e em quem possam confiar.

É uma ideia, por hora, mas não consigo parar de pensar nas vantagens. Poderemos pregar o que quisermos, amigos. Como temos visto, não há restrição de nenhuma ordem para as Igrejas. Podem pregar o uso de armas, a destruição dos ímpios, a segregação violenta por credo, cor, gênero. Podem desqualificar o sistema de educação, falar mal do sistema de saúde, fazer discurso eleitoral, xingar a Presidente da República ou o Chico Buarque, sem nenhum problema com a policia, com os tribunais ou com a Paula Lavigne. Tudo isto sem pagar royalties, imposto e nem cheiro de bomba de gás !

Mas nossa Igreja não terá nada disso. Será alegre como devem ser os  entusiastas da vida. Será reveladora e profunda, sem perder a ternura jamais ! Nossos sermões estarão embasadas nos melhores textos já produzidos pela civilização ocidental. A revelação dos mistérios da vida diária serão constantes, progressistas e seus efeitos nas almas, fecundos ! E os programas de TV maravilhosos que poderemos produzir ? Porque não dá para ter uma Igreja sem um canal de comunicação com nossos futuros milhões de fiéis pelo Brasil todo, não é ?  Ok, Paulo Bernardo, você venceu. Olá Feliciano, se prepara que estamos chegando na área.

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Categorias: Sociedade | Tags: | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Igreja da Revelação para a Paz

  1. Ana, discordo. Afinal, deixe eu criar a minha igreja primeiro. Por que igreja? Uma caixinha fechada e bela onde se vê por dentro, quero catedrais translúcidas e verdades transparentes de todas as religiões e da mais dura realidade. Eu sou assim, um ateu consagrado a Deus, um cruzado que se perdeu no oriente. Um franciscano. Beijos, amiga.

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