O bom e novo roquenrol (Leia ouvindo)

Desde o texto Balance e role sem fronteiras…,  deixei subentendido que devia um artigo sobre outros cenários de roque. Neste aqui, pretendo discutir as bandas e artistas que considero fodásticas no século XXI. Sim, sim. existe vida inteligente pós-White Stripes; que Bob Dylan os tenha (a dupla encerrou sua breve carreira em 2011). É este, portanto, o critério: surgimento no século presente.

Mais um texto a ser ouvido! É só clicar nos links.

Há muita gente que reclama esbravejante que não se faz mais roque como antigamente, que isso, que aquilo, blablabla etcetera e tal. Gosto de explorar e conhecer coisas novas. E tenho conhecido muita coisa boa. Aqui, então, quero partilhar um pouco disso.

Muitos desses artistas ainda são classificados segundo o rótulo de indie rock (de independent) ou alternative rock, o que dá tempo ao “mercado” para conhecê-los e assimilá-los ou não.

Ok, ok… sei que o Franz Ferdinand se enquadraria aqui, formado em 2002, mas, eles, todo mundo já conhece, não? Talvez… Bem, o grupo surge em 2002 na Escócia. Os próprios reivindicam a influência do Talking Heads, dentre outras referências dos anos 80, num roque que herda, de fato, uma certo ar de intelectualização da banda de David Byrne. A banda só veria a despontar publicamente mesmo em 2004 e logo em 2005 viria a canção que, até então, os popularizaria: The fallen. O som da banda é bem equilibrado, dentre o instrumental, talvez com uma inclinação eletrônica que, a bem da verdade, mais se tem pronunciado nos últimos anos. Trago aqui outra canção que, pra mim, simboliza bem o som deles: Walk Away.

Passado esse preâmbulo, inicio pela belíssima e potente voz da também escocesa Amy MacDonald, num roque muito bom e forte, com clara influência de country e folk. Um roque daqueles em que o violão ainda tem lugar. A mesma declara que sua maior influência é a banda Travis. Enfim, tire suas conclusões, ao som de Youth of today  e Let’s start a band.   Seu primeiro álbum é This is the life, de 2007. Lançou ainda, em 2010, A curious thing e, em 2012, Life in a beautiful light.

Ainda da Escócia, vem uma das maiores e melhores surpresas que tive no roque nos últimos anos, o Charmparticles. A banda ainda é muito underground. Para se ter ideia, eles não são encontráveis na wikipedia e têm apenas uma meia dúzia, literalmente, de canções no Utube. Para ouvi-los, é preciso garimpar. Começaram em 2004. Seu, até agora, grande álbum é Alive in the Hot Spell, de 2004. E o último foi lançado em 2010. Vale conferir uma das poucas boas fontes de informação sobre a banda na internet,  a página própria deles: http://music.charmparticles.com. E, claro, também vale muito a pena ouvir esta canção, aliás, um primor de clipe: Gold Plated Shot.

Continuando nas terras britânicas, os rapazes de Birminghan do Editors. O som deles é vigoroso e potente. Guitarras vorazes, uma batida que lembra muito alguns clássicos dos anos 80, como U2 (antes da eletronificação), The Smiths, Echo and the Bunnymen. Vejam, ou melhor, ouçam se não é isso que aparece em Escape the nest. A banda, oficialmente, começou em 2004, embora já estivesse no submundo do roque há algum tempinho. Já teve inclusive outras denominações. Seu último álbum é de 2009. Ainda aproveito pra lincar uma ótima releitura de The Cure, o clássico Lullaby.

Cruzando o Atlântico, vamos encontrar o roque eletrônico dos improváveis texanos do PlayRadioPlay, assim tudo junto mesmo. Na verdade, aparentemente, a banda, nascida em 2005, terminou quando sua principal figura saiu para investir num projeto solo, o Analogue Rebellion. Vejamos, por ora, ou melhor, escutemos Madi don’t leave.

Também dos esteites, da mais roqueira das cidades norte-americanas, Seattle, vem a banda que tanto me tem encantado nos últimos anos com um dos roques mais encorpados que já conheci, com influências explícitas de progressivo, grunge e folk, o Fleet Foxes é uma soberba boa revelação. Iniciaram sua carreira em 2006, tendo dois álbuns, um de 2008 que leva o nome da banda e  outro de 2011, Helplessness Blues. Aliás, a faixa-título desse álbum é primorosa! Reparem, como a voz de Robin Pecknold, vocalista, se funde aos acordes, na típica levada de violão clássico. Não posso deixar de apresentar aqui a canção que, pra mim, é a melhor música de roque do séc. XXI, até o momento: The Shrine/An argument,  dividida em quatro movimentos claramente distintos. Quero chamar atenção para o que acontece na introdução do 2º movimento, aos 2 minutos e 37 segundos. É devastador! Muito, muito bom e um pouco mais! Roquenrol extremado! Os semicanadenses do Fleet Foxes reservam tantas boas canções que me é custoso selecionar. Então, pra deixar só mais uma provinha, vou pelo afetivo, com Mykonos, a primeira canção que conheci da banda e uma das mais belas letras sobre amizade que já vi.

Também da abençoada Seattle, vem, numa tradição mais college rock, o Band of Horses. Sua mais popular canção foi trilha sonora dum jogo eletrônica e também aproveitada em dois filmes e um seriado. Eis a forte The Funeral. A banda iniciada em 2006, já possui quatro álbuns.

Atravessando a fronteira pro Canadá, vamos encontrar, iniciada em 2003, a banda Arcade Fire. Possivelmente, são dos mais pops deste artigo, já tendo concorrido três vezes ao Grammy de melhor álbum alternativo, tendo vencido uma vez em 2011, com The suburbs. Também popularizaram bastante sua canção Cold Wind, incluída na trilha do seriado Six Feet Under. Hoje, a banda vive aquele momento em que sustenta a pecha de alternativa, mas já possui uma não desprezível popularidade. Vale ouvir também outra canção talvez manjada Vampire/Forest Fire, música também segmentável em diferentes movimentos com uma bateria, na última parte, muito boa.

Também do Canadá, vem a empolgante surpresa, de roupagem bem eletrônica, com teclados altíssonos, a caçulíssima Austra, fundada em 2010. Lose it dá uma boa noção da sonoridade da banda.

Voltando aos Estados Unidos, mais precisamente San Diego, Califórnia, encontramos o Louis XIV, numa proposta de roque rasgado e dinâmico, numa construção melódica, ao mesmo tempo, dura e alegre. Desde 2003 na estrada, seu principal álbum, tendo alcançado a posição 24 da Billboard, foi The best little secrets are kept. Seu último álbum é de 2008. Posto aqui, desse álbum, a canção que rendeu um EP Illegal tender.

De Nova Iorque, temos o Interpol, que, contudo, é de 1997, portanto fora do escopo deste artigo musical. Ocorre que em 2009, seu vocalista, Tom Banks resolve iniciar carreira solo com o pseudônimo Julian Plenti. Considerado um dos melhores vocalistas da cena indie, já possui dois álbuns lançados. The fun that we have  é um bom aperitivo desse projeto solo.

Retornando ao velho continente, esbarramos em Charlotte Gainsbourg, atriz anglo-francesa, com uma filmografia na casa das trinta películas, a maioria francesa. Sua aparição por aqui mais famosa é, possivelmente, a do filme Melancholia, de Lars von Trier. Aliás, ela já está na filmagem do próximo filme do diretor Ninfomaníaca, com estreia prevista para 25 de dezembro deste ano, na Dinamarca.

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Cena do filme Ninfomaníaca, de Lars von Trier, com Charlotte Gainsbourg.

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Cartazes de divulgação de Ninfomaníaca, de Lars von Trier, com Charlotte Gainsbourg.

Não bastasse essa sólida carreira no cinema, Charlotte lança, em 2006, junto com o duo francês Air, o álbum 5:55, cuja faixa-título dá uma boa noção da leveza e delicadeza da música da cantora, mesmo traço que captamos em The songs that we sing.

Ainda de terras britânicas, o pujante som do Esben and the Witch, com letras fortes, sonoridade marcante e várias referências artísticas, formado em 2009 e com dois álbuns de estúdio lançados, o último deste ano, inclusive. Deixo aqui o forte e impactante clipe/música Marching Song. Como rótulos são insistentes, há quem os classifique como góticos. Particularmente, discordo bastante, mas, diante de canções como Lucia at the precipice, até compreendo um pouquinho a motivação dessa rotulação.

Saindo do território de países de língua inglesa, mas ainda tratando de roque cantado em inglês, rumando a terras gélidas, as últimas duas bandas deste artigo. E pra quebrar o gelo, da Finlândia, o maravilhoso e penetrante som do Husky Rescue. Formado em 2003, o trio conta com uma marcada presença eletrônica em seu som que vai de algo contagiante, como Nightless night a uma sonoridade macia, como Diamonds in the sky. Os conterrâneos do bom velhinho Noel têm quatro álbuns lançados, o último (que ainda não ouvi, por sinal) neste ano.

Resgatando em alto estilo, a tradição e performance progressiva clássica, os suecos do Black Bonzo merecem destaque aqui também. Seu primeiro álbum é de 2004. Estão, por ora, no terceiro, sendo o último de 2009. De seu potente segundo álbum, trago a epifânica Sound of the Apocalipse, que intitula o álbum.

Menção honrosa e exceção aberta aos acordes da norueguesa Madrugada, formada em 1999, com a voz inesquecível de Sivert Høyem, tão bem exemplificada em What’s on your mind. São seis álbuns lançados, o último em 2008, logo após a morte mal explicada do guitarrista, encontrado morto em seu apartamento.

É isso. Procurei fazer aqui um mostruário de bandas novas que ouço. Boas audições e descobertas! Ah, claro, novas dicas de bandas são sempre bem-vindas!

indierock

P.S.: dedicado aos amigos Vitor Rezende, vulgo Nati e Fabio Frohwein, vulgo Chuchu, ambos intrépidos e destemidos garimpeiros de roque. Inclusive, possuem contribuições diretas em me apresentar a bandas aqui citadas. Também ao querido Evandro Von Sydow, experimentador e novidadeiro contumaz.

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Categorias: Crítica | Tags: , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “O bom e novo roquenrol (Leia ouvindo)

  1. andreabdeoliveira

    Adorei a degustação musical, Odisseu! Eu já conhecia quase todas as bandas e músicas, graças a vc!! Um dos privilégios de ser “sua garota”, né?! Mas tenho cá minhas preferências, embora concorde com quase tudo que vc escreveu: Amy MacDonald, Charmparticles, Editors, Esben and the Witch, Husky Rescue, Black Bonzo e Madrugada. Sobre a Charlotte, nem vou dizer que a música é ruim, mas a voz da moça não é grandes coisas! Ela “sopra” as palavras em quase todas as suas músicas (como um sussurro), acho bem desagradável a audição, talvez seja pessoal, talvez alguém concorde ou não, não sei. Percebo inclusive que a voz parece não ter potência, talvez ela não use bem o diafragma pra expandir a voz e, talvez por isso, quase todas as gravações dela façam duplicação de voz na edição (ouça The Operation ou a The songs that we sing, que vc entenderá do que estou falando). Dentre todas as bandas que vc citou, a minha preferidade de longe é Fleet Foxes, mas vc não citou minha música preferida “Your Protector”, que faz parte da trilha sonora da minha vida!!

  2. Música, precisei fazer escolhas e optei pelo mais representativo do Fleet Foxes em geral. Cê sabe que amo “Your protector”. No mais, obrigado, inclusive pelo comentário sobre a Charlotte. 😉

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