Mas e se…

Piada débil-mental

Terminei a primeira parte deste artigo explicando as razões pelas quais o Irã não faria uma bomba nuclear. Vamos ver agora o que o impulsionaria na direção contrária. A despeito de todas as adversidades, é fato que o país continua investindo no desenvolvimento da tecnologia nuclear. Por adversidades, leiam-se embargos e restrições à aquisição de materiais ligados a essa tecnologia e o estranhíssimo assassinato de cinco cientistas nucleares iranianos de ponta, em histórias que têm os dedos do Mossad por todos os lados.

O Irã faz fronteira com sete países: Turquia, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Turcomenistão, Geórgia e Azerbaijão. Ao longo dos anos, todos, de uma forma ou de outra, caíram sob a influência americana. A Turquia tem há décadas armas nucleares americanas instaladas em seu território. O Kuwait, apesar de não ter fronteiras terrestres com o país, fica de frente e a curtíssima distância via golfo pérsico. Há várias bases navais americanas lá desde 1991, com o fim da Guerra do Golfo. O Paquistão é dos aliados mais tradicionais dos EUA na região, que mantém bases em seu território no mínimo desde a década de 1970. Conta com bases aéreas importantes, de onde saem os ataques com os drones, por exemplo. O Afeganistão foi invadido em 2001. Na sequência, o Iraque foi invadido em 2003 – após o que Bush, na sua infinita sabedoria, declarou publicamente que o Irã fazia parte do eixo do mal, generalizando no país o sentimento de “bola da vez”. Depois de a maioria dos Estados da Ásia central (Uzbequistão, Quirquistão, Cazaquistão e Tadjiquistão – impossível falar desse mundo e evitar o cacofático ão ao mesmo tempo) terem cedido bases aos americanos para dar apoio à guerra do Afeganistão, o Turcomenistão, que é a única dessas repúblicas a fazer fronteira com o Irã, não cedeu à pressão americana, mas abriu seu espaço aéreo para aviões de guerra dos EUA em 2005. Além disso, as pequeninas ex-repúblicas soviéticas da Geórgia e do Azerbaijão sediam missões militares americanas, que trocam treinamento e assessoria militar por direito de passagem e pequenas bases de suprimentos para a guerra do Afeganistão. Não é preciso ser um sofisticado analista de política internacional para perceber que o Irã está sendo cercado (e eles perceberam isso muito bem). Para onde quer que o país se volte, seja norte, sul, leste ou oeste, a máquina de guerra americana está posicionada.
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A partir dessa percepção, o projeto de bomba nuclear do país seria antes uma reação a esse cerco. Não esqueçamos que os próprios formuladores de políticas e teorias de Washington, em defesa das armas nucleares, criaram a teoria da “dissuasão”. Um dos exemplos da aplicação prática dessa teoria costuma ser o conflito Índia × Paquistão. Desde a própria formação desses países, na década de 1940, já houve uma guerra entre eles. Na década de 1950, houve outra guerra Índia × Paquistão; na de 1960, idem. Na década de 1970, a Índia realizou o seu primeiro teste com uma bomba nuclear: nunca mais houve uma guerra entre Índia e Paquistão (é claro que para a teoria ficar bonita e funcionar temos que ignorar os atentados terroristas de ambos os lados, que nunca cessaram). Pois bem, o que o Irã supostamente teria a ganhar com o desenvolvimento de armas nucleares seria isto: equilíbrio regional e a esperança compreensível de não ser invadido pelos Estados Unidos.

Essa situação, no entanto, mudou, com a degradação das relações entre EUA e Paquistão (inclusive com o fechamento de uma das bases dos EUA no país), mas principalmente com a teórica retirada americana do Iraque. Essa retirada é bem teórica mesmo, pois foi deixado para trás pessoal para dar treinamento e assistência militar para o exército e para a polícia iraquiana. Foi deixado também todo um sistema de bases secretas e de horripilantes “prisões invisíveis”, das quais Abu Ghraib se tornou a mais famosa, devido ao vazamento daquelas fotos grotescas em 2004. Trata-se de uma rede de prisões secretas mantidas pelos EUA e seus aliados (leia-se principalmente Inglaterra), nas quais, diferentemente de Guantánamo, onde os prisioneiros estão fora de qualquer jurisdição por uma questão de minúcia de Direito Internacional, os prisioneiros estão fora de jurisdição porque tais prisões oficialmente sequer existem. O diretor do tenso filme Hostel, Eli Roth, diz ter escrito esse roteiro devido ao impacto que a revelação desse mundo de horrores lhe causou. Apesar de excelente, toda essa visão política para mim não fica nem um pouco clara no filme.

Seja como for, um enorme contingente permaneceu in locu com a “nobre missão” de pôr ordem no Iraque. Na realidade, o que foi deixado foi um exército de adjuntos militares, de mercenários, de espiões, de torturadores, de forças especiais, enfim, de todos os tipos de psicopatas com muita flexibilidade (em decorrência da invisibilidade) para atuar em qualquer lugar da região.

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Falar sobre o Irã enseja toda a ordem de dificuldades. Primeiramente, há a propaganda gigantesca contra o país, ditada pelas potências e propagandeada alegremente pela imprensa mundial, que só acentua o seu isolamento. Soma-se a isso a dificuldade da língua, que torna o ocidental interessado refém da leitura de matérias sobre o Irã escritas por estrangeiros, ou, no melhor dos casos, traduzidas do árabe para o inglês ou o francês. A própria Al Jazeera não é das melhores fontes para conhecer o país. A rede, além de carregar todas as vicissitudes de qualquer grande conglomerado jornalístico, é sediada no Qatar, uma das monarquias árabes e, portanto, grande inimiga do regime xiita dos aiatolás. Todos esses fatores acentuam o desconhecimento mútuo entre o ocidente e o Irã, do qual o Brasil não escapa. Foi curioso ver há poucos anos a mídia brasileira manipular a “bomba iraniana” contra o governo do PT. O Irã tem servido a todo tipo de objetivo. Mais curioso ainda é ver essa mesma mídia apoiar diligentemente o Lula e o PT, desde que estes adotaram a solução francamente autoritária para “resolver” o “problema” das manifestações. Não há nada aqui a estranhar. O Irã e a sua suposta bomba são uma questão propagandística, um problema, no fundo, remoto e manipulado segundo interesses político-partidários no sentido mais podre que a expressão pode ter. A insatisfação generalizada da sociedade brasileira é um “problema” de verdade, e contra esse “inimigo” real, contra a greve dos professores, contra os Black Blocs, todos eles terminaram se alinhando (como, honestamente, era de se esperar).

O fato, no entanto, é que, para todos os efeitos, o Irã, como a maioria dos países islâmicos, é um país de terceiro mundo, com altos índices de pobreza, de analfabetismo, de mortalidade infantil, enfim, do velho pacote completo. E no meio do “Grande Jogo”, os grandes perdedores são os iranianos, cujas vidas só se tornam mais difíceis em função dos embargos internacionalmente impostos e do recrudescimento da repressão interna para enfrentar a insatisfação decorrente desses mesmos embargos. A maioria dos iranianos, assim como a maioria dos árabes e dos islâmicos de forma geral (os tão temidos terroristas), vive em condições medonhas, enfrentando diariamente as variantes locais da exploração do homem pelo homem e sem saber, ou sabendo apenas muito remotamente, da existência de poderosos e opulentos impérios distantes que tanto os usam para os seus próprios fins.

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