Mortos de todo o mundo (e de todo mundo), uni-vos (pela vida!)

Dia de Finados! Finado dia! Final dos dias! Dias Finais! Festas e festivais no México, numa de suas principais celebrações nacionais, de Atlântico a Pacífico, de costas dadas aas bruxas ianques outubrinas de 31 ao novembrino 2º dia. Aos mortos!

[Un poco de la tradición y celebración en México.]

Ah… os afáveis mortos! Estados de permanência perpétua. Única certeza certificada nos certames da vida, ou melhor, da existência. Sim, existência é mais abrangente do que vida. A existência é eterna enquanto existe. Não é redundância… Existência é tudo o que há… Vida é um ínfimo conjunto disso. Sob certo ponto de vista, poderíamos até pensar que existência e vida se oponham. Mas, não adentremos essa seara…

morte

Voltemos aa Morte, verdadeiramente eterna, enquanto os deuses são apenas imortais. Temor, sedução e resignada inevitabilidade numa única feição. Eis a propulsão de todo o desenvolvimento humano: evitar-se a morte. Ao mesmo tempo, tanto a cultivamos. Guerras, desigualdade social, “tragédias” evitáveis. A morte espreita, mas tantas vezes é convidada a entrar e se sentir aa vontade.

Um primor! Levamos a morte mais rápida e abrangentemente a contingentes cada vez maiores de seres.

Morte e sedução, junção muito bem traduzida pela personificação apresentada por Neil Gaiman, aa personagem que seria irmã do Sonho:

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Não é uma concepção e visão ruim da morte, certo?

Mas quem entendia de sedução da morte era uma galerinha lá do séc. XIX, capitaneados pelo poeta maldito George Gordon Byron, vulgo Lord Byron, uma das figuras mais exóticas da história, com sua vida de escândalos, sexo desenfreado, drogas, extravagâncias muitas: o poeta da Morte, por excelência, falecido em 1824, lutando pela Independência da Grécia, onde queria que seu coração fosse enterrado. [Em tempo, uma digressãozinha, como de hábito,,, por falar em Grécia, 02 de novembro foi quando um dos maiores poetas gregos contemporâneos nasceu em 1911, Odysseás Elýtis, meu semixará {Odysseás é a forma contemporânea para Odysseus}, vencedor do Nobel de Literatura em 1979].

Falávamos de Byron, certo? Ele deixou toda uma legião de seguidores. Aqui no Brasil, os seus herdeiros foram honoríficos cultuadores da morte.

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Por falar em séc.XIX, que curiosos mórbidos “photoshops” da Era Victoriana. Mais em: http://www.ideafixa.com/fotos-de-pessoas-sem-cabeca-na-era-vitoriana/

Morte (hora do delírio) (Junqueira Freire)

Pensamento gentil de paz eterna morte 3
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dous fantasmas que a existência formam,
— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
do prazer que nos custa a dor passada.

[…]

Noturno (Fagundes Varela)

Minh’alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
morte 6Queimada por um vulcão!

Minh’alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro que rói-lhe o seio!

Minh’alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo
Motejam dos vendavais;
Coberto de atros matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
morte 7Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

[…]

Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
morte 8Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!
Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh’alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Lembrança de morrer (Álvares de Azevedo)morte 2

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
… Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:morte 4
Só levo uma saudade… é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

[…]

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

"Suicídio", de Antoine Weirtz.

“Suicídio”, de Antoine Weirtz.

A estética da morte, da melancolia, do desajustamento social que irrompeu o séc. XIX e até hoje tanto(s) seduz. Estetas suicidas. Ultrarromânticos.

E paira inquieto o permanente paradoxo do suicida: “quanto mais suicidas, menos suicidas”. Questão matemática ou filosófica?

Ah… essa charmosa morte esteticizada! Clamor extremado! Bela em esteticismo, porém tão inclemente na dura vida concreta, sobretudo quando marcada pelo desvalor de despossuídos. A morte da fome, da exclusão, da ausência de terra, de lar, da truculência,,, nada disso tem charme, sedução…

A morte mais calhordamente legitimada é a que escolhe CEP, condição social. É quando uma morte na favela, no subúrbio e afins conta MUITO menos do que uma morte em “nobres” bairros, de “nobres” gentes. Morte sem gentilezas! Reclame de incertezas! A vida tem alto preço e a morte é distribuída ao povão aos montes: promoção! Promovidos a mortos, com dia e tudo em sua honra, feito maior de toda uma vida desvivida; afinal, viver é pra poucos.

Viver tornou-se VIP!

Riscos de vida [enquanto tantos veículos de mídia insistem na tolice do tal “risco de morte”] para quem arrisca a vida tentando viver num mundo que não é pra ser vivido.

Os dentes-de-sabre doutrora hão de ter sido mais aprazíveis conosco do que ora somos. Vivazes dentes-de-sabre pimpões!

Viva os mortos! Vivam os mortos! Vivos-mortos, uma espécie de antimortos-vivos, porque mesmo os falecidos andantes são valorizados, como já tratei em The working dead: desvividos.

Morte em vida! Morte e vida severas, não apenas severinas.

AA espera dum mundo em que os mortos sejam lembrados na medida de sua contribuição aa vida e da saudade sentida, mas, principalmente em que os vivos sejam, por si só, com qualquer CEP, cor de pele ou conta bancária celebrados.

E cuidado permanente com os ainda mais vivos.

Circunlocuções sobre vidas findas em infinitas agruras dum finado feriado.

P.S.: em tempo, bem-vindo, Novembro, de novas e de novidades! Lamentável é o maldito calor que vem junto.

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2 opiniões sobre “Mortos de todo o mundo (e de todo mundo), uni-vos (pela vida!)

  1. Querido amigo ,
    saudades de você e da excelentíssima sra sua patroa…risos…
    Gostei muito do seu texto .Adorei : a existência é eterna enquanto vive . E oss poemas lindíssimos que falam da ” desconhecida ” , como diria Adalgisa Nery !
    E , mais ainda , adorei as músicas …risos…

    Um beijão para vcs !
    Saudades ,
    Ana

  2. Obrigado, Ana, pelo permanente prestígio. Beijos meus e da Música! 😉

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