A arte de quebrar vidraças

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A nossa presidente ex-vândala baderneira declarou essa semana que os manifestantes “violentos” são fascistas. À primeira vista, a constatação parece fazer sentido, uma vez que, historicamente, foram os movimentos fascistas que transformaram a violência de rua em forma de pressão política. Porém, creio ser possível fazer uma análise mais refinada do que essa sobre as manifestações e sobre os grupos que delas fazem parte.
A realidade, pura e simples, é que essas manifestações que estão sacudindo, sem exagero, o Brasil, colocaram o andar de cima em pânico. A guerra movida contra os manifestantes há muito ultrapassou o nível do debate na imprensa e do conflito com a polícia. Ganhou ares de “união nacional” entre as elites de sempre, a mídia golpista, a “classe política” (termo muito preferível a “representantes”, uma vez que se trata de uma casta feudalizada em Brasília cuja representatividade não passa de uma piada) e o governo do PT.
Além da “luta ideológica” travada entre editorias parciais e coberturas jornalísticas burras e uma nova mídia independente, fortemente dependente das redes sociais para existir e, sim, parcial também ao seu modo favoravelmente às manifestações, a guerra estendeu-se ao campo legal, com a introdução de uma legislação excessivamente dura (ou a ressurreição deste tipo de lei de exceção, com a retomada da Lei de Segurança Nacional, a mesma que levou Lula à prisão em 1980 devido às greves do ABC). A nova lei (n. 12.850/2013), ao que parece, decorre da Convenção de Palermo, da ONU, de repressão ao crime internacional, e, portanto, foi desenhada para reprimir o tráfico internacional de armas, drogas e mulheres, e não para levar jovens que não abriram mão do seu direito constitucional à manifestação de maneira mais rápida para a prisão.
Encontram-se então os manifestantes, todos eles, é bom frisar, frente à realidade da opressão direta da polícia, da perseguição pela mídia e da criminalização pelo poder judiciário. Até aí, nada de novo. Vandalismo é o processo social brasileiro, que sempre tratou a pobreza como caso de polícia, que sempre utilizou a violência contra a população, que sempre recorreu a regimes de exceção quando pressionado a atender reivindicações sociais legítimas. Entre a centena de exemplos possíveis, é possível ater-se ao da s campanhas de vacinação.
A primeira campanha de vacinação coletiva do mundo deu-se na Inglaterra, no século XIX, visando erradicar a terrível varíola. É claro que o método foi recebido com grande desconfiança pela população, afinal, era a primeira vez na história que se solicitava aos cidadãos de um país que prontamente aceitassem a inoculação de uma doença perigosa nos seus corpos. A solução ao impasse deu-se via propaganda. Em uma época pré-rádio ou televisão, a população de Londres foi convocada a uma praça, onde assistiu à vacinação pública da família real inteira. Depois disso, a campanha foi um sucesso e a vacinação foi aceita voluntariamente por todos. No Brasil, para erradicar a febre amarela, a polícia invadiu as casas das pessoas vacinando-as à força, e deu no que deu: várias semanas de revolta popular, quebra-quebra, conflitos com a polícia e mortes naquilo que ficou conhecido como “Revolta da vacina”.
Ao invés de educar, contemporizar ou ceder, cassetetes e gás lacrimogêneo parecem dar conta do serviço. Infelizmente, viemos em uma cultura de excesso material que eleva a futilidade e o vazio ao nível dos valores mais importantes da “civilização”, na qual o estouro de uma vidraça de banco estronda mais forte do que a fome de uma criança. Nessa paisagem repetitiva, lamentavelmente temos que perder o nosso tempo a repetir as coisas mais óbvias. Como, por exemplo, pessoas são importantes, coisas não são. Não é normal em um mundo de riquezas ostensivas a maior parte da população mundial viver nas condições mais degradantes. Esse modelo de crescimento econômico contínuo capitalista pautado no aumento exponencial do consumo de uma minoria está, além de promovendo miséria extrema, acabando com o planeta (para os expertos de plantão: não há desenvolvimento sustentável sem freio no consumo).
Enfim, os jovens que estão nas ruas hoje, esses genericamente dicotomizados entre “manifestantes pacíficos” versus “vândalos baderneiros”, que “são contra tudo que está aí”, não são retardados como a imprensa os apresenta. Eles sabem muito bem contra o que eles são contra. Uma parte, foi a que acabei de enumerar. Fica como lição de história para a doutora Dilma et al.: os fascistas mencionados no início deste texto, digamos, as SS e AS de Hitler, notabilizaram-se não por quebrar vidraças de bancos e nem por incendiar ônibus. Notabilizaram-se por assassinar pessoas, coisa que evidentemente nenhum dos manifestantes atuais demonstrou inclinação a fazer (como os sopapos que aquele coronel assassino levou em São Paulo deixam claro).
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Como a mídia não cessa de nos entupir com mentiras, teremos também que ser repetitivos á exaustão. Segue aqui uma lista de besteiras que assolam o país, e com seus respectivos desmentidos:
– Os Black Blocs promovem a violência contra o patrimônio público e privado em manifestações que, de outra forma, seriam pacíficas – Mentira. Os Blacks impedem violência nas manifestações, é só ler o que eles escrevem sobre si mesmos, ou acompanhar a sua atuação, na rua, e não nos gabinetes. Não pode ser tão difícil assim perceber isso. Por favor, hora de virar o disco da cantilena “Black Bloc-vândalos-violência”.
– Os Black Blocs são uma organização criminosa com líderes e uma hierarquia clara – Não são. Quantas vezes será necessário ainda explicar para jornalistas o significado da palavra “anarquistas”. Também cansa repetir que são mais uma tática do que um grupo.
– Os Black Blocs e suas táticas violentas são isolados e só são apoiados por meia dúzia de intelectuais deslumbrados. A questão da violência já foi comentada, mas quanto ao isolamento, é só se dar ao trabalho de comparecer às manifestações para observar a diversidade tanto dos componentes quanto dos que os apoiam.
– Os Black Blocs são do PT. Hahahahahahaha.
– Os manifestantes são um bando de gente que não sabe o que quer e só apresenta pautas difusas ou irrealizáveis – Os manifestantes sabem muito bem o que querem. Vamos por partes: melhorias em todos os serviços básicos que deveriam ser oferecidos à população – transporte, saúde e educação. Após décadas (séculos?) de negligência, está na hora de finalmente oferecer serviços dignos, ainda mais agora que entramos para o clube dos países das maiores cargas fiscais do planeta. Eles querem um reordenamento de prioridades, de forma a excluir obras nababescas e desnecessários, como estádios padrão Fifa, em favor de contemplar às necessidades reais da população. Reformas políticas que acabem de fato com a picaretagem parlamentar e executiva – ninguém aguenta mais o noticiário de escândalo atrás de escândalo. Para chegar a esse resultado, não basta punir os corruptos (embora a prisão dos mensaleiros seja uma das reivindicações claras das ruas). É preciso acabar com os mecanismos que sustentam a corrupção de maneira geral, como a imunidade parlamentar, por exemplo. Outras maneiras de resolver essas questões não são consensuais entre os manifestantes, e nem poderiam ser, pois que há divergências ideológicas entre eles: há marxistas, anarquistas, e há os que se contentariam com um capitalismo menos predatório.

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Categorias: Política, Sociedade | 2 Comentários

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