Desagregando valor do camarote

 Um velho ditado chinês  diz que a arte da vitória depende da sabedoria do vencedor de não conduzi-la a extremos pois, caso contrário, ela acabará por se converter em derrota.  Não lembro onde soube disto nem sei se é verdade, já que minha ignorância do mandarim dificulta a pesquisa em fonte confiável. Mas  importa menos saber se é um dito verdadeiro do que confessar o que o trouxe à minha memória : o fabuloso caso do camarote que fez a delícia dos humoristas esta semana. Não dos profissionais, bem entendido, que a maioria deles vive ocupada demais em inventar piadas que humilhem pobres, mulheres, negros, índios, sem terra, sem teto, mendigos e os mais vulneráveis da pátria para darem grande importância a um caso destes.  Se bem que, agora, com esta onda de humilhação e execração pública a que o Alexandre vem sendo submetido, talvez já possa merecer o escárnio dos mais famosos humoristas das mais prestigiadas TVs e publicações nacionais.

O Alexandre era um vencedor inconstestável até outro dia mesmo e, como tal, não havia grande hipótese de entrar na pauta deles. Ao que parece, tudo mudou depois de publicarem aquela matéria e entrevista com as quais esfregaram nas retinas e gritaram nos ouvidos de toda a gente quanta diferença há entre o cotidiano de um verdadeiro vencedor e as duras  vidinhas dos perdedores. O problema é que foram tão longe na comparação que acabaram por exasperar os vencidos, me parece. Sim, porque até para os sem ambição e humildes de pai e mãe, ficou impossível não perceber que enquanto a maioria de nós se amontoa nos transportes coletivos para cumprir a jornada suplementar de 3 ou 4 horas de ida e vinda ao trabalho- como perdedores que somos – o vencedor, o herói, o bem sucedido Alexandre, trafega quase à mesma hora, escoltado por seguranças que o livram de qualquer contato físico indesejável, despreocupado com o despertador ou o preço da diversão. E que o faz com a tranquilidade de quem sobe ao pódio para produzir uma chuva de champanhe sobre o andar de baixo, num gozo simbólico da justa premiação de seu esforço.  Sim, ele não diz, mas parece acreditar que  venceu segundo a regra  que qualquer um pode vencer na sociedade capitalista, bastando sair da cama bem cedo e batalhar. Desde que tenha talento, garra, alguma sorte, porque não,  e trabalhe. Não sejam invejosos, trabalhem.  Trabalho, dizem, é o nome da arma que se usa nesta guerra. Trabalhem e confiem, como dizia Santo Inácio de Loyola, aquele mesmo que ensinava as criancinhas órfãs a ganharem a vida com o suor do próprio rosto em tempos idos, em outras terras. Coisa que também carece de fontes confiáveis para se averiguar no detalhe. O diabo, diz o ditado, são os detalhes. Por aqui, ganhar a  vida suando nunca foi coisa que cheire muito  bem-  tanto porque  ser proprietário é precioso quanto porque o sol é inclemente – e ser cheiroso é fundamental.  O fato é que levaram tão longe a coisa que ficou evidente que Alexandre, o grande,  muito mais que nos venceu, ele nos massacrou com sua glória. E me parece que foi aí que a hybris, o orgulho desmedido, essa extravagância de auto-congratulação produziu a falha trágica de nosso herói.

“ Rindo se castiga os costumes” diz o provérbio latino que guia há muitos séculos os comediantes de todo o Ocidente. Mas o castigo dos maus costumes implica uma escala social de valores de mal e bem, bom e mau comportamento, é claro, e é só ler “ As preciosas ridículas” de Molière para intuir que também está certo aquele ditado que diz que a História sempre ensina e os homens nunca aprendem. Especialmente os humoristas de Piratininga e da Venus Platinada com  seus chistes que não passam de atos falhos de quais são seus valores morais mais caros.

Seja como for, pelo menos esta semana, parafraseando o  modo Alexandre de dizer a coisa, todos os preciosos ridículos da nação tiveram  algum valor desagregado de seus camarotes, sem medo de ser pesada.  Perdeu, Playboy no modo de falar dos manos  que andam pendurados nos trens lotados da CPTM.  Mesmo que tenha sido mera vitória simbólica do bom senso, quando se caminha pelo gelo, a terra firme não tarda, como dizem os chineses.  Ou em boa gíria da zona norte paulistana : a chapa está esquentando para o seu lado, playboizada, mas na moral, suave.  

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