Para que servem as máscaras?

*por Mariana Santos

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Em diversos momentos esse questionamento surgiu nas redes, nas mídias alternativas e convencionais. Para que servem as máscaras, porque os manifestantes não vão para as ruas de cara limpa mostrar sua revolta? Por que o “Black Bloc” e outras táticas utilizam máscaras?

Hoje parece claro que a utilização de máscaras serve para que outras caiam. A máscara do governo foi a primeira a cair, e com ela as máscaras dos intelectuais governistas e da esquerda partidária tradicional.

Já é de perder as contas a quantidade de notas negativas que um partido que se diz de esquerda revolucionária escreveu contra os companheiros de luta que façam parte da tática Black Bloc ou de qualquer coletivo anarquista. Nem companheiros comunistas escaparam das críticas desse partido.

Marilena Chauí, em palestra proferida para a PMERJ, afirmou que o Black Bloc era uma tática fascista. Agora, Alba Zaluar diz que a tática é a responsável pela falência da política de pacificação nas favelas, mesmo “que não fosse essa a intenção”. Chama todos os que fazem ativismo nas ruas de grupelhos.

É de um desespero irresponsável esse tipo de declaração vindo de intelectuais conhecidos, professores universitários, que escrevem em colunas de jornal. Quem lê pode acreditar que realmente os participantes da tática trouxeram a violência para o Rio de Janeiro. Quem lê pode ser uma daquelas pessoas que nunca saíram de sua zona de conforto, que não sabem que a polícia é responsável pela violência na cidade do Rio de Janeiro há muitos e muito anos. E que essa mesma violência e repressão são as verdadeiras responsáveis pela possível falência das UPPs.

Por acaso foram Black Blocs que mataram e sumiram com o corpo do Amarildo? Isso seria uma novidade no caso. E por algum acaso saber-se-ia o nome do Amarildo em todo o país não fossem as manifestações? Ou de vários outros “Amarildos” que “sumiram” em áreas de implantação das UPPs, não fossem os ativistas de direitos humanos?

No Estado neoliberal não é possível para a grande maioria ver diferença entre o Estado e as empresas que ele privilegia. E que por isso os alvos da revolta popular são também as representações estatais, além de bancos e grandes corporações. Não é preciso muito para essa análise, apenas uma conversa com participantes da tática em dias de manifestação. Ou uma leitura leve sobre o que é a tática e como ela começa. Culpar os leitores de Foucault ou Negri parece ser uma infantilidade intelectual impressionante, quiçá um escapismo do que realmente está acontecendo: uma crise da representatividade que está além do que alguns intelectuais conseguem ou desejam alcançar.

Em um texto de Alba Zaluar saído na Folha, há uma preocupação com o ‘sono reparador do trabalhador’, que é atrapalhado pelas manifestações. Ora, senhora antropóloga, somente nesses dias o sono do trabalhador é “perturbado”? Quando ele é perseguido em sua comunidade, quando ele não consegue pegar um transporte de qualidade, quando é explorado por seu patrão, quando não consegue um bom serviço de saúde ou uma boa escola pra seus filhos, isso não perturba o sono do trabalhador? Pois perturba o de muita gente. E essas pessoas estão nas ruas, mascaradas ou não.

Colocar uma máscara para dizer que uma Copa ou uma Olimpíada não podem acontecer com os custos sociais que estão cobrando, que não podem acontecer atingindo a vida desse mesmo trabalhador que precisa dormir – mas também precisa comer, morar, viver –, que não podem acontecer com remoções arbitrárias, que não podem acontecer numa cidade que sequer tem infraestrutura para seus moradores, imagine para receber eventos desse porte, não pode e não deve ser considerado um ato de vandalismo, mas uma posição de luta diante de tantos desmandos realizados em nome dos megaeventos.

Que se usem mais máscaras, então.

Elas se tornaram úteis demais ao mostrar o recorte de classe no discurso intelectual e midiático, que prefere ignorar as pautas reais e criar “cenas e relações fantásticas” entre Black Blocs e o reinício de tiroteios em comunidades com UPP para criminalizar todo e qualquer grupo que esteja contra o que esses intelectuais em “torre de marfim” determinam como correto. Nem uma palavra sobre a violência e repressão policial nas comunidades pacificadas, que levou a manifestações como Ocupa Borel ou Ocupa Alemão.

O desespero é tanto, que até um “líder” factoide foi fabricado para uma tática horizontal e autônoma antissistêmica. Seria uma piada se não fosse de extrema má-fé, pois o conhecimento teórico existe e está ao alcance de cada um daqueles que escreve levianamente sobre as manifestações.

Portanto, para além das questões práticas, para isso servem as máscaras, senhores. E que o uso delas derrube muitas outras pelo caminho.

 mariana santos

 * Mariana Santos é Cientista Social e Mestre em Ciência Ambiental, militante ativa de direitos humanos, integrante do coletivo Das Lutas. Adora novas plataformas digitais, está sempre nas ruas, fotografando ou andando na transversal.

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Categorias: Reflexões, Sociedade | Deixe um comentário

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